domingo, 15 de outubro de 2017

Projeto Writertoberbr: Os Três Xamãs (5)



Os olhos de Zendak se desfocaram, permitindo-lhe enxergar dimensões ocultas, invisíveis para um corvo comum. Em todas as florestas havia vibrações sutis, resquícios deixados pelos viajantes, trilhas secretas que levavam ao mundo dos espíritos, mas a Floresta Mágica superava a todas elas. Ele se concentrou, sentindo a energia nas linhas fosforescentes, entrecruzadas, para tentar achar o rastro do pequeno unicórnio. Kemi, enquanto isso, mantinha a visão de coruja, com a qual poderia divisar até mesmo um roedor oculto entre talos de grama. Seus olhos sérios, severos, escrutinaram cada polegada da floresta que ela sobrevoava, lugares onde Vivani poderia ter estado numa viagem de sonho, mas que não visitara nos últimos dias, quando estivera sob a forma de raposa. Por fim, depois de ter se enganado com um filhote de cervo e quase dado um alarme falso, ela vislumbrou a espiral reluzente do chifre – ao mesmo tempo que Zendak, que parecia estar seguindo uma das trilhas ocultas, batia as asas com força e crocitava para chamar sua atenção.
Pelo poder do Grande Espírito do Mundo, tinham chegado antes dos caçadores.
O unicórnio estava dormindo, deitado sobre um lado do corpo, a cabeça apoiada sobre uma pedra chata, pouco acima do chão. Quando os xamãs se aproximaram, ele agitou um pouco as patas, o corpo esguio e dourado estremecendo como se estivesse em meio a um pesadelo. Eles aterrissaram sem ruído, a pouca distância, e esperaram que sua transformação se completasse, voltando a seus corpos de elfo antes de começar a discutir os próximos passos. 

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Ilustração: "Dreaming of the Before Times", de Azdra, encontrado em pesquisa na rede.

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

Orlando, o Falcoeiro

Pessoas Queridas,

Dou uma pausa nas postagens do Writertoberbr para lhes apresentar um novo personagem. Novo, exatamente, não, porque ele já apareceu em A Ilha dos Ossos, e foi citado numa conversa entre Anna, Kieran e Doron em A Fonte Âmbar: o jovem Orlando, filho do Thane Herrin de Leighdale e de sua esposa Alana, portanto membro da família governante da chamada Terra dos Falcões.


Em A Ilha dos Ossos, Orlando tem apenas oito anos de idade, mas já se percebe que possui o Dom da Magia, possivelmente relacionado às habilidades dos xamãs -- como Anna, ele tem um pinguinho de sangue das tribos das florestas, é muito ligado ao mundo onírico e tudo leva a crer que tem um forte elo com os falcões que sua família adora. Nessa ilustra do Alan Antunes, ele aparece com doze anos de idade, acompanhado por seu falcão preferido (que tem uma particularidade muito especial) e se preparando para viver uma nova aventura... que, se tudo correr bem, resultará num livro infantojuvenil, como Anna e a Trilha Secreta.

Os planos eram de já estar com a escrita a pleno vapor, mas estou muito enrolada com outras coisas. Isso, porém, não significa que não estou trabalhando, reunindo referências, alinhavando ideias, portanto vocês vão ouvir falar bastante do Orlando nos próximos meses.

Espero que gostem de me acompanhar em mais essa jornada!

sábado, 7 de outubro de 2017

Projeto Writertoberbr: Os Três Xamãs (4)

Pessoas Queridas,

Cá estamos com mais um trechinho da história dos Três Xamãs, espero que gostem!

Não sei se já comentei, mas planejo que esse conto seja o terceiro de um projeto semelhante ao Contos Fantásticos de Avós Extraordinários. Só que, nesse caso, o que os contos têm em comum é se passarem em sequência uns aos outros, numa mesma floresta -- os atos dos personagens de cada conto têm consequências para os contos seguintes. É quase um fix-up, vá.

O que acham da ideia?



– Homens costumam temer e odiar o que não conhecem, e a maior parte deles não conhece nada. Mesmo esse mago, que transformou o troll em pedra, pelo jeito é assim. Por que ele fez isso? Com que direito?
-- São perguntas demais, minha amiga. – Vivani partiu com cuidado um pedaço do favo de mel, ofereceu-a à xamã mais jovem. – Por ora, vamos resolver o que é urgente. E é claro que vou tomar cuidado com os caçadores. Se vir algum, ou se pressenti-los por perto, vou me esconder, não deixarei nem que desconfiem da nossa presença. Quanto a vocês, mesmo em suas formas de ave, procurem não chamar atenção. Não são tão atraentes aos olhos dos homens quanto uma raposa – acrescentou, em tom brincalhão --, mas, quando vêm para a floresta com arcos e cães...
-- Sabe-se lá o que estão pensando e onde podem chegar – completou Kemi.
Com essas recomendações, e após terem chamado os vizinhos para aproveitar as sobras da carne – um jovem casal de arminhos muito simpáticos --, os três se separaram. Kemi e Zendak murmuraram um rápido encanto para retomar suas formas aladas e, por algum tempo, ficaram pousados no galho alto de uma árvore, olhos brilhantes e observadores sobre Vivani enquanto ela se afastava pela trilha. Seus passos eram resolutos, mas não muito rápidos. Kemi entortou o pescoço e interpelou o amigo, mas o seu “hu?” dolorido não teve resposta a não ser um encolher de ombros. A nenhum deles cabia interferir na marcha das estações.

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A imagem que ilustra este post é "Wise Fox", pintura sobre tela de Aimee Stewart. 

sexta-feira, 6 de outubro de 2017

Projeto Writertoberbr : Os Três Xamãs (3)

Oi, Pessoas Queridas,

Aqui vai nossa terceira postagem, com um trecho do que foi escrito esta manhã. Espero que o dia renda mais, quem sabe no universo de Balthazar e Lísias!



          – Acho que devemos encontrar o unicórnio, antes que os caçadores o façam, e devolvê-lo à família. Esse é o primeiro ponto. Se foi criado um elo com o menino, talvez possamos ajudar, talvez não, mas por enquanto o mais importante é mantê-lo a salvo.
          -- Digo o mesmo – falou Kemi. – Mas também precisamos agir em relação aos homens. Eles avançam sobre todas as florestas, em toda a ilha, isso é verdade, e não há muito que se possa fazer, mas... esta não é uma floresta qualquer. É um refúgio, um lugar que nos cabe defender. Depois de o pequeno estar a salvo...
         -- Sim – concordou Vivani, grave. – Depois que ele estiver com a família, poderemos pensar em interferir. Nós viemos aqui tantas vezes, devemos tanto a esta floresta e a seus habitantes... Chegou a hora de nos doarmos também.
         -- Em nome da beleza e da harmonia – disse Zendak.
         -- Em nome do equilíbrio – disse Kemi, e pegou as mãos de ambos, olhando para cada um antes de concluir:
          -- E, se isso exigir sacrifícios, então que seja assim.


*****

Uhhh... Parece que nossos Três Xamãs estão prestes a se meter em confusão por causa do unicórnio... E Kemi é a mais afoita!

Eu não tenho ilustração da xamã coruja das neves. Para este post, usei a bela imagem "Owl Mother", de Antler Thorn, que se baseia no xamanismo celta (já devem ter percebido que o de Athelgard é mais coisa de nativo americano). Já o Zendak ganhou uma ilustração da Carol Mancini, que pode ser conferida aqui.

Até a próxima!

quarta-feira, 4 de outubro de 2017

Projeto Writertoberbr: Os Três Xamãs (2)

Oi, Pessoas,

Eis a nossa segunda postagem no desafio Writertoberbr. Aqui o conto se liga com outro chamado "O Potro Dourado", protagonizado pelo menino Zemel, aprendiz de saltimbanco que já fez muitas piruetas por estas páginas.




        Vivani respirou fundo e assentiu, com uma espécie de culpa. Não era guardiã da Floresta Mágica, menos ainda dos unicórnios, mas poderia ter feito algo para impedir aquilo. Se ao menos houvesse pensado nas consequências!
        -- Ele encontrou um menino que passava pela floresta. – A voz incerta, cheia de dúvida e arrependimento. – Não era um menino comum; eu também o vi e pude sentir. Estava zangado, confuso, machucado, e ainda assim caminhava em beleza. Eu o guiei até o rio, para que ele pudesse matar a sede, e depois disso fui em busca de alguém que pudesse socorrê-lo. Vi o pequeno unicórnio se aproximando do lugar, por uma trilha diferente, mas não pensei... nunca poderia imaginar que ele se acercasse do menino. Menos ainda que o menino, ao vê-lo, pudesse reconhecê-lo pelo que ele é.
      -- Talvez não tenha reconhecido – disse Zendak. – Talvez ele imagine que viu apenas um potrinho.
      -- Não, não. Ele viu o chifre. Ou, se não viu, ao menos o tocou. – A xamã-raposa mantinha os olhos baixos. – Drenou um pouco de energia... não toda, felizmente, pois tinha um ferimento na mão, mas muito leve. O unicórnio está bem. Acontece que, ao se deixar tocar, ele ligou seu espírito ao desse menino, e agora é atraído por ele e pelos seus sonhos. Ele não foi se reunir à família no coração da floresta. Em vez disso, trilha um outro caminho, o mesmo da criança humana, que viaja com parentes rumo ao leste. Eu não duvidaria que o pequeno unicórnio o esteja seguindo... que este elo seja mais forte e duradouro do que seria de se esperar.
    -- O que não é bom – disse Kemi.
    -- O que talvez não seja bom. Ainda não podemos afirmar – ponderou Zendak. – Vivani acaba de dizer que esse menino não era comum. Quem sabe ele nasceu com o Dom da Magia? Quem sabe não é um dos poucos humanos que têm acesso às trilhas secretas?

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E aí? Mágico ou não?

Se vocês ficaram curiosos sobre o Zemel, podem ler um conto dele bem aqui, e ainda ver a bela ilustra do Vilson Gonçalves.

Se quiserem conhecer uma criança (quase) humana que de fato andou pelas trilhas dos xamãs, conheçam a Anna!

Por fim, se quiserem saber um pouco mais sobre os unicórnios (não que tenhamos seguido exatamente esses simbolismos em Athelgard, visitem a Estante Mágica.

Até a próxima!

(OBS: Imagem de unicórnio do Pinterest. Se alguém souber a autoria, avise que dou os créditos)

domingo, 1 de outubro de 2017

Projeto Writertoberbr : Os Três Xamãs (1)

Pessoas Queridas,

Este mês, em princípio, as postagens aqui no blog serão diárias. É que estou participando de um desafio chamado Writertoberbr: escritores tentam produzir o equivalente a uma página por dia e postam trechos da escrita em seus blogs, plataformas de escrita ou até no próprio Facebook, onde o projeto tem sua página.

A minha escrita vai começar pelo conto "Os Três Xamãs", que está em andamento e do qual falei na última postagem. Hoje foram umas 670 palavras, possivelmente vai ficar em torno disso, mas está saindo a contento. Espero que vocês gostem e acompanhem.

Aqui vai um trechinho do que escrevi hoje:

-- Sintam as vibrações, aqui, neste lugar onde nunca viveu uma tribo da nossa raça. Nós sempre a chamamos de Floresta Mágica, por ser o refúgio dos unicórnios e de tantos seres que habitam o Lado de Lá. Renovamos nossas forças ao nos encontrar aqui, e procuramos não causar nenhum distúrbio. Mas bastou que passassem homens – um mago humano, em especial – e vejam como tudo ficou desalinhado. Eu quase posso tocar as emanações que ele e os outros deixaram aqui.
-- Já existia desequilíbrio, por causa dos trolls. Este não é o lugar deles. – Vivani deu alguns passos até a estátua, fitou a carantonha de dentes arreganhados e nariz grosseiro do qual pendia, eternizada em pedra, uma gota de muco. – Se estão vindo para o sul, é porque alguma coisa os afastou das Terras Geladas, onde costumavam viver.
-- É verdade. Eles também tinham seu refúgio. E, mais uma vez, acho provável que tenham sido homens a perturbá-los. Aquelas guerras, as expedições de comércio dos Jarls, sempre exigindo que construam mais e mais navios. Estão acabando com as florestas do norte, aqueles bárbaros – resmungou Kemi. Era claramente a mais jovem dos três, embora fosse difícil determinar a idade de um elfo adulto; isso se via em seus olhos, em sua atitude, não em quaisquer sinais que o tempo houvesse deixado. Por outro lado, as terras de onde provinha eram as mais inóspitas, e sua gente, conhecida como o Clã da Raposa Branca, era mais dura e determinada que o povo de Vivani ou o de Zendak. Era de se esperar que ela resmungasse. 

E aí? Parece promissor?

Sigam o blog, a página do Castelo e a do Wintertoberbr para irmos interagindo. AH! E se vocês também escrevem, o grupo está aberto a novos participantes, a qualquer momento!

Até amanhã!





domingo, 24 de setembro de 2017

Os Três Xamãs : vamos jogar?

ATUALIZAÇÃO : JÁ TEMOS VENCEDORES.

Eu tive quatro respostas muito legais, mas duas delas foram realmente as mais criativas. Entre essas não tenho como desempatar, porque ficou claro que o Daniel Assunção já tinha lido o que eu planejava para o conto e se ateve a essas informações, criando uma linha sólida para prosseguir, enquanto a Aya Imaeda bagunçou meu universo levando pra lá nada menos que... um kiwi!
Assim, temos dois vencedores, Aya e Daniel. Ambos podem falar comigo inbox para deixar endereços e tudo mais. E muito, muito obrigada aos queridos que participaram e aos que divulgaram e curtiram o desafio.





Pessoas Queridas,

Nestes dias de correria, estou começando um novo conto de Athelgard. E aproveito para fazer uma brincadeira com vocês: que tal sugerir as próximas linhas dessa história? Podem escrever mesmo uma linha ou duas ou dizer como pode continuar, tipo uma sinopse. O mais criativo vai ganhar um exemplar de "Anna e a Trilha Secreta", com dedicatória e marcador. 
Vamos lá?

Os Três Xamãs

O corvo foi o primeiro a chegar. Vinha de uma longa jornada, e a última etapa fora cansativa, por isso ele ficou feliz ao avistar um bom pouso onde descansar as asas. O braço estendido da estátua, aquecido pelo sol que bateu na clareira, o acolheu como um ninho; ele se aconchegou contra o peito de pedra cinzenta e se preparou para o que podia ser uma longa espera.
Ou não.
A sombra da estátua não aumentara em mais que o comprimento de uma asa quando a coruja branca surgiu do bosque ao norte da clareira. Sem um ruído, descreveu uma curva ampla, sobrevoando a estátua, e pousou numa pedra lisa, perto do chão. O corvo esticou o pescoço e crocitou em boas-vindas, mas a coruja não teve tempo sequer de soltar um “hu” antes que surgisse o terceiro membro da companhia: 

(continue aqui, deixando sua sugestão nos comentários).

Resultado no dia 30 de setembro.