domingo, 27 de novembro de 2016

A Grande Noite das Sagas - Epílogo


      -- Andi, você fez uma coisa fabulosa! – exclamei, parando de tocar e batendo palmas com entusiasmo; a audiência foi atrás, e os aplausos quebraram a catarse, de forma que o garoto se desgrudou dos amigos e me olhou com o rosto lavado de lágrimas. – Desde nossos primeiros encontros, quando quase era preciso obrigá-lo a falar, até esta noite, na qual contou uma história que mexeu desse jeito com todos... Como você mudou!
       -- Graças a você – disse ele, com a voz embargada. – E a meus amigos, e aos outros mestres, e à Escola de Artes Mágicas. E Mestre Kieran, o senhor estava certo – acrescentou, dirigindo-se a meu marido, que ostentava seu famoso sorriso torto. – Eu tinha mesmo que enfrentar esses demônios e dizer a eles que sou mais forte. E agora digo a vocês o que vou fazer: amanhã cedo vou escrever à minha família pedindo que venham me buscar, não para voltar a Kalket, mas para fazer uma visita a Hyldor em seu solar nas montanhas. Vou contar a ele o que aconteceu e encorajá-lo a cantar diante de um público. Posso até estar no palco ou na arena com ele, como Mestra Anna estava aqui comigo. E se ele não quiser, se não acreditar em si mesmo, não vou me sentir culpado nem deixar que isso atrapalhe mais a minha vida. Vou voltar a ser o Príncipe, e, quem sabe? Talvez um dia até o Rei das Canções.
      -- Muito bem, garoto! – exclamou Urien, e várias taças e vivas se ergueram na audiência. Era o momento de entrar mais uma vez em cena, mas Finn tomou a iniciativa, agradecendo pelas ótimas histórias que Andi e eu tínhamos contado juntos. Também pela presença de todos, uma vez que a noite ia avançada, e muitos já mostravam disposição de se recolher ou partir. Gurion, o intendente, entrou então em cena, oferecendo hospedagem para os visitantes que preferissem pernoitar no Castelo, e as pessoas estavam começando a se mexer quando, inesperadamente, Camdell bateu com uma colher numa taça de bronze, solicitando a atenção de todos.
      -- Caros amigos, queridos aprendizes, não posso deixar que se despeçam sem dizer algumas palavras, ainda mais depois do que presenciamos esta noite – disse ele, visivelmente emocionado. – Em nossa Escola, a Magia costuma despertar através da Arte, mas hoje vimos que o inverso também acontece: que a Magia trouxe de volta a voz e as canções que haviam se calado no coração de um menino. Não sei se Andi continuará conosco ou se voltará para a escola bárdica, mas uma coisa eu sei e digo com segurança: não apenas o seu propósito, mas o meu e o desta escola, foram reafirmados nesta Grande Noite de Sagas. Pela Magia e pela Arte!
      -- Pela Magia e pela Arte! – bradaram todos, erguendo as mãos e as taças; o estrondo de vozes que brindavam logo foi emendado pelas primeiras estrofes da Canção do Mago Violeta, uma espécie de hino da Escola de Artes Mágicas, e a noite terminou em meio a um coro de pessoas que cantavam abraçadas, tocadas pela emoção das histórias e, em alguns casos, pela boa cerveja e vinho que não tinham deixado de correr.
        Mais tarde, depois de eu ter abraçado cada um dos presentes e de ter ouvido todo tipo de comentário sobre os meus dotes como alaudista -- quase todos piedosos, felizmente –, Kieran e eu voltamos ao aconchego da nossa torre, onde acendemos a lareira e nos abraçamos também. Eu queria fazê-lo admitir que tinha articulado tudo aquilo com Urien – que eles tinham me feito de boba, como Theoddor fizera com Netta, décadas atrás --, mas sabia de antemão que Andi não podia fazer parte de uma trama como aquela, exceto talvez de forma involuntária, como no caso de Hyldor o Belo. Tanta emoção e tanta luta contra os próprios receios não podiam ter sido calculadas. Kieran, porém, continuou a afirmar que não houvera qualquer entendimento com o Mestre de Música para aquela noite; ele apenas lhe revelara saber que eu estava tendo aulas de alaúde, já fazia um bom tempo, e Urien dissera que eu estava indo bem e que gostaria de me ver tocar diante de alguém além dele mesmo.
      -- Não pensamos numa plateia tão grande, nem falamos sobre isso hoje, mas a situação de Andi veio a calhar. Foi importante você estar lá com ele – disse Kieran.
      -- Você também – repliquei. – Ele gostou da ideia de lutar contra os demônios interiores. E teve forças para isso, mesmo sendo tímido.
      -- Sim. Eu me surpreendi com a história dele. Já tinha percebido que o garoto tem uma vontade muito forte, mas o que ele fez em Kalket mostra que o Dom é bem mais poderoso do que pensava. Talvez eu devesse... Mas não. – Sacudiu a cabeça, afastando seus próprios desejos. – Se ele precisa falar com o tal Hyldor para ir em frente, que fale, e se precisa voltar para a escola bárdica, que volte. Esse é mesmo o caminho que deve seguir. Só não duvido de que a Magia vá alcançá-lo mais à frente, como aconteceu com Lara.
-- E comigo – falei; ele sorriu, supondo que eu estivesse brincando, mas o encarei tranquilamente e com olhos sérios. – O que Camdell disse no fim é uma verdade para mim também. Aqui reafirmo todos os dias o meu propósito, que é partilhar histórias, e vejo a Magia acontecer através delas. E hoje estou especialmente feliz, pois muita gente esteve aqui e vai levar consigo um pouco dessa Magia para suas vidas.
      -- É verdade – disse ele, com um suspiro. – E ouvir isso de você me faz supor que esta Noite de Sagas não será a última. Na verdade, me arrisco a dizer que teremos outra em breve. Estarei errado?
      -- Talvez na próxima lua – respondi, e franzi a testa. – Mas eu pensei que você tinha parado de ler meus pensamentos.
      -- E eu parei – Kieran garantiu, afastando uma mecha de cabelo que me caíra no rosto. O fogo tremulou, realçando o brilho em seus olhos, e eu fechei os meus enquanto ele me abraçava, devagar, seus lábios roçando minha orelha para sussurrar as palavras que não dissera a mais ninguém, em toda a sua vida.
      E elas terminaram de tecer o encanto que me envolvera e transformara durante aquela Noite de Sagas.

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quinta-feira, 24 de novembro de 2016

Draco no Prêmio Argos


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terça-feira, 22 de novembro de 2016

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terça-feira, 15 de novembro de 2016

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

A Grande Noite das Sagas - Parte 7

       

          Muitas luas atrás, tendo finalmente compreendido qual a minha função no Castelo, eu conseguira que os aprendizes do Primeiro Círculo contassem suas próprias histórias. Algumas eram divertidas, outras um pouco tristes; várias, em princípio, pareciam corriqueiras, mas juntos havíamos conseguido encontrar o sentido e resgatar a Magia contida nas pequenas coisas.
         Isso também acontecera com Andi, embora ele houvesse preferido deixar de lado alguns episódios. Eu tinha certeza de que neles estavam as raízes de sua inibição. No entanto, a Noite de Sagas era um momento descontraído, um momento em que ele podia contar qualquer história, mesmo uma que houvesse escutado ou lido num livro, e o desafio se limitava a fazê-lo diante de todos. Era como eu, com o alaúde do qual tirava as primeiras notas, tentando não olhar diretamente para ninguém a não ser Urien e Kieran. Muitas pessoas estavam sorrindo, e várias continuariam a fazê-lo ainda que eu errasse ou hesitasse. Mas o que quer que estivesse nos olhos daqueles dois me falaria de carinho e orgulho verdadeiros.
         Fiz um sinal com a cabeça para Andi. Ele engoliu em seco mais uma vez, respirou fundo, depois assentiu também e se dirigiu ao público, a voz um pouco trêmula de nervosismo – como esperar que fosse diferente? –, mas alta e clara o bastante para que todos pudessem ouvi-lo bem.
         -- Em nome de Woden, Thonarr e Loki, e em nome de Bragi, o Trovador, abram bem seus olhos e ouvidos! Esta é a minha história – começou ele, e tornou a respirar profundamente. – E ela começa num dos momentos mais importantes: quando, no primeiro encontro com nossa nova Mestra de Sagas, ela nos disse que toda vida tem batalhas que precisamos travar e vencer.
Fez uma pausa, controlando a tensão, e então falou como se aquilo o desafogasse:
         -- E Mestre Kieran me fez ver que o maior inimigo está dentro de nós mesmos.
         Um breve murmúrio percorreu os convidados: ninguém imaginava que ele iria citar o Carrasco. O próprio Kieran tinha franzido as sobrancelhas e se inclinado para a frente, como se esperasse o que iria sair dali, ao passo que meus dedos tropeçaram em meio a um acorde. Mas Urien foi o único a dar mostras de haver percebido.
         -- Então, amigas e amigos, eu tenho um nome – o meio-humano prosseguiu, nervoso, mas sem gaguejar. – Andi ap Llyr, é claro, mas também Andi de Kalket, pois é minha cidade, de onde vim aos doze anos, abandonando um aprendizado que começou quando eu era pequeno demais para me lembrar. Era esse nome que eu esperava tornar famoso por meio da arte. E, de fato, quando tinha apenas dez anos de idade, eu era conhecido como o Príncipe das Canções ou o Herdeiro de Hyldor. Alguém terá ouvido falar dele?
         -- Hyldor, o Belo? – As sobrancelhas de Urien se ergueram. – Se é ele mesmo, trata-se... Bem, tratava-se... de um bardo muito famoso.
         -- É verdade. Todos o requisitavam, festas eram marcadas de acordo com o lugar onde ele estaria. Mas não sei o que é feito dele hoje – comentou Mestre Tomas, e os olhares retornaram a Andi: estava claro que ele sabia. – Ouvi dizer até que estava morto.
        -- Não – fez o menino, com um gesto enfático. – Não está morto. Mas suas canções se calaram, como... como...
         -- Como as suas não irão se calar! Continue, Andi! – exclamei, num impulso. Ele me olhou, aflito, mas se lembrou de respirar bem fundo e fechar os olhos, como eu havia lhe ensinado em caso de pânico. Estou com você, querido, pensei, e repeti os poucos acordes que sabia o mais suavemente possível. Acalme-se. Vai lhe fazer muito bem contar essa história.
         E aos poucos – bem aos poucos – a língua do jovem meio-humano começou a destravar. Para recobrar a segurança, ele usou outro dos truques que eu ensinara, voltando atrás na história e contando como tinha sido seu aprendizado com uma mestra de Kalket; como fora à procura de Hyldor, numa visita deste à cidade, e como o grande bardo não lhe dera atenção, até que, por um golpe do acaso, viu-se na contingência de contar com o menino para acompanhá-lo ao longo de uma noite de sagas. Foi Hyldor que deu a Andi os apelidos de Príncipe e Herdeiro das Canções, deixando claro, antes de mais nada, que o Rei era ele próprio e que o menino teria mais chances de se tornar grande ao seguir seus passos. Ele insistiu para se tornar uma espécie de mentor de Andi, embora vivesse noutra cidade, e os dois passaram a trocar correspondência e se encontraram várias vezes ao longo dos três anos seguintes. No entanto, vaidoso como era, Hyldor começou a reclamar da interferência da mestra que o garoto ainda tinha em Kalket, e a se zangar quando ele aceitava convites que considerava menores, e a dar conselhos que, analisados de perto, mostravam que pretendia manter Andi para sempre sob a sua sombra. E como acreditar que seja um bom mestre aquele que teme ser superado pelo aprendiz?
         -- Foi assim que chegamos a um impasse – disse Andi, com a respiração rápida, mas a voz firme. – E, por menos que eu quisesse, os argumentos de meus pais e minha mestra falaram mais alto, portanto eu disse a Hyldor que nosso vínculo estava desfeito. E ele pareceu ter aceitado. Mostrou-se um pouco sentido, mas de um jeito gracioso, de forma que eu não percebi o que existia por trás.
         A essa altura, eu estava tão envolvida com aquilo que mal sabia como continuava a tocar, mas de alguma forma meus dedos continuavam reproduzindo os mesmos acordes, e a generosidade do Grande Espírito me fez lembrar que era o momento de imprimir-lhes um ritmo mais marcado. Andi respirou algumas vezes, seguindo o mesmo compasso, e correu o olhar pela audiência, perguntando-se talvez o que estariam pensando da história. Ou o que pensariam dele, quando finalmente chegasse ao ponto que lhe causava tanta dor.
         -- Então, nosso vínculo se desfez, mas achei que continuássemos amigos. E eu ainda o admirava, como o grande bardo que era – disse Andi, ainda em voz alta, mas em tom reflexivo. – Quando voltou a Kalket, fui ver sua apresentação no Anfiteatro Máximo; ele tinha me escrito dizendo fazer questão de que eu estivesse num lugar de honra. E lá estava eu, com minha mestra, com mais dois alunos de música...
         -- Aí vem – resmungou Urien, balançando a cabeça.
        -- ... quando Hyldor o Belo anunciou uma canção composta para um dos presentes – prosseguiu o menino. – E começou a cantar, jamais dizendo meu nome, mas desde os primeiros versos deixando claro para todos que me conheciam. Era de mim que ele falava... E me chamava de ingrato e Príncipe dos Traidores.
         -- O quê? -- disparou Freydis, sem conseguir se conter. – Traidor, você? Porque não quis mais jogar o joguinho dele?
         -- Que idiota! – Orm cerrou os punhos.
         -- Deixem-no falar! – exclamei, vendo que Andi hesitava. -- Quero muito saber como terminou esse espetáculo no Máximo de Kalket!
         -- Bem, aí é que está – respondeu o menino. -- Não terminou como deveria, ou, pelo menos... não como Hyldor queria. E não foi nada do que todos esperavam. Porque ao ouvir aquilo, mesmo com minha mestra, meus amigos e muitos outros indignados, eu não consegui dizer nem fazer nada. Fiquei sem ação e sem palavras -- só que com muita, muita, muita, muita raiva! Tanta raiva que poderia explodir, e o anfiteatro junto comigo, do mesmo jeito que o Ruivo explodiu aquela chaleira!
         -- Foi acidente! – defendeu-se o rapaz, mas os risos foram breves. Ninguém queria perder o que vinha em seguida.
         -- Então, enquanto ouvia Hyldor cantar com aquela voz linda, tocar a harpa com mestria, mas ao mesmo tempo dizer coisas tão injustas, eu senti minha cabeça doer como nunca antes. – A voz de Andi se firmara, ao contrário das minhas mãos. – Doía e doía e eu tive que segurá-la, e quanto mais doía mais uma ideia tomava conta da minha mente: é que ninguém devia poder cantar uma canção tão mentirosa. Eu não sabia de onde essa ideia tinha saído, mas era o que eu sentia... Era o que eu queria, não sei como, que acontecesse. E de repente...
        -- O quê? – Um coro de vozes, um rumor de corpos se deslocando para a ponta dos bancos e se inclinando sobre as mesas.
         -- De repente, todos no anfiteatro estavam gritando de surpresa, e Hyldor estava segurando a garganta, apavorado – respondeu o menino, fazendo um grande gesto com as mãos. – Correram para socorrê-lo, achando que estivesse sufocado, mas ele respirava muito bem e até podia falar. Só quando tentava cantar a voz falhava. Foi o fim de sua apresentação. Claro que eu também fiquei assustado, e não consegui comer nem dormir direito durante muitos e muitos dias. Tinha certeza de que tinha sido eu... mas, ao mesmo tempo, não fazia ideia de como. E minha raiva passou, e agora eu só sentia pena e muita culpa por ter feito Hyldor ficar sem suas canções.
         -- Ele mereceu! – exclamou o Comandante Owen, dando um tapa na mesa.
         -- Ele é um bardo! – replicou Urien, parecendo afrontado. – Não poder mais cantar... Que destino!
         -- Sim! Ele não devia! Haveria outras maneiras – as vozes se cruzaram e se confundiram entre as mesas, até que Andi conseguisse se fazer ouvir.
         -- Mas depois ele pôde cantar de novo. Aquilo só durou por algum tempo – explicou, apaziguando a maior parte dos ânimos. – Ele ainda não tem coragem de cantar em público, mas conseguiu na presença dos físicos e magos que procurou para ajudá-lo. Mas antes de saber disso eu me senti tão mal que puni a mim mesmo, ainda que sem querer. Eu também não conseguia mais cantar diante de uma plateia. Nem cantar, nem contar histórias, nem mesmo tocar, embora continuasse praticando quando estava sozinho. E, sendo assim, fui obrigado a deixar a escola bárdica. E ninguém mais voltou a me chamar de Príncipe das Canções.
         Um novo murmúrio tomou conta da audiência, mas esse tinha um tom diferente: os lamentos não eram por Hyldor, mas sim pelo menino. Ele causara mal ao bardo, porém mais ainda a si mesmo, e nada disso tinha sido premeditado. Foi o que ele mesmo disse, ao prosseguir com sua história, após um breve intervalo de que precisou para se munir de coragem.
         -- Durante algum tempo, não contei nada a ninguém, mas todos sabem o que acontece quando se tem o Dom da Magia. De um jeito ou de outro ele vem à tona, e eu não conseguia mais usar a arte para expressá-lo. Coisas estranhas começaram a acontecer comigo, em minha casa, nos lugares onde eu estava, e finalmente alguém alertou os magos da cidade, que confirmaram o Dom. Um deles se ofereceu para ser meu mestre, mas outro, sabendo que eu tinha abandonado um aprendizado na música, sugeriu que procurasse a Escola de Artes Mágicas do Mentor Camdell. Talvez aqui eu me desenvolvesse de um jeito melhor, ele disse. Eu relutei, no começo, mas depois decidi tentar, e... o que é que eu posso dizer agora? – acrescentou, com as faces vermelhas, a voz novamente trêmula, mas não de timidez. -- Este lugar... e meus amigos, e Mestra Anna, que está aqui comigo, enfrentando o julgamento de todos... isso me devolveu o... o meu propósito...
         Sua voz diminuiu à medida que a emoção o dominava. Ele parou de falar e se inclinou para a frente, cobrindo o rosto com a mão. Foi quando Freydis correu para o tablado e o abraçou com força. Orm estava com eles no momento seguinte, um garoto maior e mais largo de ombros, abarcando os dois. Outras pessoas se levantaram, o murmúrio crescendo com palavras de elogio e encorajamento, mas a maioria ficou onde estava, esperando para ver onde aquilo iria chegar.
        E, antes que o clímax começasse a se tornar longo demais, segurei minha própria vontade de abraçá-los e de chorar e retomei o controle da história.

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Imagem retirada desta página.

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Quer ler a história de como Andi conheceu o bardo Hyldor? Em versos, ainda por cima? Clique aqui.

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Epílogo


domingo, 30 de outubro de 2016

A Grande Noite das Sagas - Parte 6


     -- Ah, então pelo menos para tocar ele sobe ao tablado, não? Bom, já é alguma coisa! – disse Urien, erguendo as sobrancelhas de um jeito cômico. – E é ótimo para mim. Se estou mesmo dispensado, posso beber à vontade. Esse vinho é excelente. Você não sabe o que está perdendo.
     -- Pois é, mas hábitos são hábitos. Ninguém da minha família bebe ou jamais bebeu vinho. É verdade que também não comem queijo, uma coisa que eu adoro. Mas queijo de cabra era o que mais me ofereciam em Bryke.
     Apertei os lábios, lembrando-me das várias coisas que existiam na vila Odravas, mas não no interior da floresta onde eu vivia com minha tribo. O intercâmbio crescera ao longo dos anos, mas algumas coisas continuavam a ser consideradas apenas “nossas” e outras pertencentes só a “eles”.   Isso criava alguns problemas, às vezes, para ambos os lados.
     E um deles resultara na história que finalmente eu me propusera a contar.
     -- Atenção, amigas e amigos! Nossa querida Anna atenderá a seus pedidos e nos brindará com outra narrativa! – exclamou Finn, e o aviso foi recebido com palmas e assovios. – Andi ap Llyr, aprendiz do Segundo Círculo, irá acompanhá-la ao alaúde, e... Conan, você também?
     -- Não, mestre. É que Orm veio dizer que Mestra Anna queria o tambor emprestado – explicou o mais velho dos meus ex-alunos, que se juntara a outros colegas para tocar nos intervalos das sagas.          Agradeci e peguei o tambor de couro e a baqueta, lembrando-me – e sorrindo por isso – da primeira vez que o usara para contar histórias da tribo em minhas aulas no Castelo. Jamais um Mestre de Sagas deve ter sido olhado com tanta estranheza.
     Andi pegou o alaúde e se juntou a mim no tablado. Não falou mais, apenas olhou nos meus olhos e assenti quando lhe disse que contava com ele. Sua garganta se moveu, mostrando que engolia em seco, e eu me dirigi em pensamento aos Guardiões da minha tribo, pedindo que ficassem do nosso lado.
     Se nada desse certo, que ao menos soubessem que eu fizera o melhor que possível.
     -- Hey-heya! Pelas presas do Lobo, as penas do Corvo e os bigodes da Lontra! – proferi, em alto e bom som; e então me detive por um instante, observando o espanto em vários olhares. – Um jeito diferente de começar uma saga, não é mesmo? Eu deveria evocar os Heróis, já que sou humana, ou me referir ao Fogo Primordial, se fosse contar uma história como os bardos élficos. Não é assim?
     -- Acho que é. Sim. É o que se espera – disseram vozes desencontradas em meio à audiência. Quase todas vinham de pessoas que me conheciam pouco, mas três ou quatro aprendizes e até Mestre Tomas entraram no jogo, embora com expressões diferentes, sorrindo com o canto da boca e piscando para mostrar que sabiam do que eu estava falando. Pisquei também, em reconhecimento, e prossegui, fixando-me ora em um, ora em outro olhar repleto de assombro.
      -- Pois abram bem os olhos e os ouvidos. – Era o sinal para que Andi começasse a tocar, bem discretamente, criando uma atmosfera de segredo e de aconchego. -- A história que vou contar é a de alguém que estudou durante anos para ser uma Mestra de Sagas, mas cujo aprendizado decorreu de forma diferente do comum, dentro dos princípios do sábio Odravas. Alguém sabe dizer qual seu preceito fundamental?
     -- Da terra – começou Rydel, mas estacou quando desferi um sonoro golpe no tambor. Sorri, fazendo um sinal para encorajá-lo, mas um dos aprendizes já prosseguia:
     -- Junto à terra... – Nova batida do tambor.
     -- E com os filhos da terra! – concluiu um pequeno coro, igualmente brindado com uma batida.
     -- Exato. Era o que dizia Odravas. E seus seguidores criaram muitas vilas, como a de Bryke, junto a florestas onde viviam tribos como a minha. Os resultados foram muito diferentes de lugar para lugar, mas de quase todas saíram pessoas como eu: com sangue das tribos, porém educados por elfos brilhantes. E para não ferir os princípios de Odravas, a educação e o aprendizado sempre respeitavam ao máximo as tradições da tribo hospedeira. Imaginam como era?
    -- Devia ser divertido! – exclamou o aprendiz conhecido como Ruivo.
    -- Eu iria adorar – disse Freydis.
    -- Um pouco confuso, não? – perguntou, timidamente, o mais moço dos Prestes que viera do templo de Bragi. Era a resposta que eu esperava para imprimir entusiasmo à minha voz.
    -- Sim! – exclamei, batendo duas vezes no tambor e erguendo a baqueta, para que todos me encarassem como se eu fosse uma louca. -- Era confuso, e divertido, e um desafio constante. Todos os livros que tínhamos para ler falavam de coisas que nunca tínhamos visto, e as que víamos tinham sempre mais importância. Só aprendíamos a ler os mapas do céu dos elfos brilhantes depois de provar que sabíamos nos orientar na floresta; só aprendíamos a história de Athelgard depois de conhecer a da tribo, dos nossos antepassados. E o jeito da tribo de contar histórias é diferente do jeito como se conta nas Terras Férteis. Então, embora minha mestra tocasse bem a harpa e o alaúde, ela não fez questão de que eu aprendesse desde o início. Para quê? Eu era da tribo! Eu podia muito bem usar...
     -- O TAMBOR! – gritaram várias vozes, assombradas e divertidas. Assenti, e então comecei a percutir ritmadamente o tambor, os acordes de Andi se ajustando em uma harmonia perfeita. Éramos um duo, mas não estávamos cantando, e sim contando uma história da qual a próxima parte ainda era minha. Mas só a próxima parte.
     -- Eu me concentrei em contar e escrever histórias – continuei, ante a fascinação da audiência. -- Registrei todas que conhecia da tribo e escrevi um livro que foi enviado a vários Mestres de Sagas. Um deles chegou às mãos do Mentor Camdell, e começou a correspondência que, ao fim de poucos anos, acabaria por me trazer ao Castelo das Águias. Mas o que aconteceu? Esse convite nos pegou de surpresa! Maryan ainda ia começar a me ensinar um instrumento, pois só depois de alguns anos eu deveria passar pelos testes da escola bárdica! Então o que fazer? Alguém tem ideia?
     -- Você aprendeu? – perguntou Amina, completamente arrebatada pela história e o som.
     -- Não aprendeu! Ela sempre tem um harpista ou alguém tocando alaúde ao fundo – disse um dos mestres da Ala Violeta.
     -- É mesmo? Mas então ela não poderia... – começou o jovem Preste, logo silenciado por vários olhares zangados. Inclusive do seu superior, Preste Drusius. No entanto, mais uma vez ele me dera a deixa que eu esperava, por isso sorri e o encarei, detendo as batidas no tambor e elevando minha voz acima da plateia.
     -- O que eu não poderia, Preste? Fale sem medo!
     -- Eu... Eu não quis...
     -- Você está sem graça – disse Urien, sorrindo lentamente. – Mas seu engano é comum. A escola bárdica forma Mestres de Música, como eu, que têm de dominar pelo menos dois instrumentos; e Mestres de Sagas, como Anna, que devem ter de cor um repertório de histórias. A maioria deles toca harpa ou alaúde, para fazer o acompanhamento, e eu brincava com Anna dizendo que ela devia aprender, mas isso não é uma exigência da escola no caso dela. Estou falando a verdade – acrescentou, erguendo a taça. – Olhem, tem vinho aqui, ainda não estou completamente bêbado.
     -- Que bom! – exclamei, entre as gargalhadas do público. -- Assim vai se lembrar de como lhe agradeci... e do quanto nunca poderei agradecer o bastante por sua ajuda, por seu tempo, até por sua implicância, que me fizeram finalmente começar a aprender. Você também, Kieran – acrescentei, olhando para meu marido. – Eu queria que fosse uma surpresa, mas pelo jeito você sempre soube que eu estava tendo aulas de alaúde com Urien. Os calos nos meus dedos me traíram, não foi mesmo? E você não disse nada, só me apoiou... do jeito que faz sempre, me desafiando a ir além do que é fácil e confortável para mim.
      Respirei fundo, olhando dentro dos olhos dele, e soltei:
     -- E é o que vou fazer agora, trocando de lugar com meu aprendiz, para que ele termine a minha história e conte a sua.
     A garganta de Andi se moveu mais duas vezes, e seus olhos me fitaram cheios de receio, mas mesmo assim ele deu uns passos duros à frente e me entregou o alaúde. Empunhei-o, meus dedos correndo sobre a madeira, e sorri para o menino, mas minha expressão estava séria: eu não queria pressioná-lo, mas ele aceitara a proposta, e agora tinha de fazer o que prometera. Ia contar uma história, possivelmente a mesma que ensaiara diante de Freydis e Orm; podia ser que se engasgasse um pouco, mas os meus dedos também estariam atrapalhados nas cordas do alaúde, de forma a fazê-lo sentir que não estava sozinho. Era o jeito que eu tinha encontrado de fazê-lo quebrar sua barreira.
      E, ao tocar os primeiros acordes, não fazia ideia de como aquilo iria acabar.

*****

Talvez a maneira de contar histórias acompanhada apenas de tambor pareça estranha a quem pensa (acertadamente) em skalds nórdicos e bardos celtas quando falamos das sagas do Castelo. Mas o que a tribo da Anna faz é algo como isto aqui. Eu, pelo menos, acho legal.

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quinta-feira, 6 de outubro de 2016

A Grande Noite das Sagas - Parte 5


       Os fornos já estavam apagados, mas o aposento guardava o calor e o cheiro bom da comida. Ao me aproximar, ouvi o som de vozes animadas, várias delas falando ao mesmo tempo, mas – por estranho que fosse – não parecendo dizer alguma coisa. Era uma linguagem sem sentido, embora melodiosa, e só entendi do que se tratava ao entrar na cozinha e ver quatro pessoas se derretendo diante de um bebê.
      -- Olhe quem chegou, querido! A Mestra Anna! – exclamou Netta, que segurava a criança nos braços. – Ainda não conhece o pequeno Nils, não é? Ele teve que aprender a se sentar para vir ao Castelo, visitar a avó e o avô!
      -- Não conhecia, não, mas o imaginava bem assim, pelo que você e Nils contavam dele. – Sorri, passando um dedo pela bochecha do menino; ele devolveu o sorriso, arrancando de todos um ooooh cheio de ternura.
      -- Ele gostou da senhora, Mestra – disse timidamente a mulher de Holger.
      -- Todas as crianças gostam – declarou Netta, fazendo-me sorrir outra vez. – Precisava ver aqueles três, quando vieram nos chamar para a Noite de Sagas. Disseram que essa tinha que ser a melhor festa de aniversário de todas.
      -- Está sendo – assegurei.
      -- Desculpe não termos ido para lá, Aisleen e eu – disse Netta, referindo-se à nora. – É muita gente, muito barulho, e Nils não está acostumado, precisa de sossego. Quer dizer, o pequeno Nils – acrescentou, olhando para o marido. – Aquele ali, o grande, é um farrista. Quanto mais comida e bebida, mais ele gosta.
       -- E a culpa é sua. Quem mandou me dar aquela poção? – perguntou o cocheiro, rindo com gosto.
       -- Poção? - indaguei, quase sentindo minhas orelhas empinarem. – Isso tem a ver com aquela história do outro dia?
       -- Que história? Não sei de nada – disse Netta, fazendo-se desentendida. Eu ia lembrar o que ela me contara, mas me contive a tempo. Não sabia até que ponto eles queriam falar sobre aquilo. Para minha surpresa, porém, Holger ficou animado, querendo que sua mulher também se inteirasse do episódio.
       -- Acho que nunca lhe contei, Aisleen – disse ele. – Meu pai, antes de ser forte assim, era magro e vivia com dor de barriga. Ele comia muito pouco, e minha mãe achava que quanto mais comesse mais lhe faria bem, principalmente se fosse a comida caprichada que ela faz. Só que ele recusava, por medo de a barriga doer mais ainda...
       -- Você não imagina a agonia que era aquilo! – afirmou Nils.
       -- ... e minha mãe ficava cada vez mais danada. Até que pôs na cabeça que ele não gostava dela, que recusava de propósito a comida, pois assim ela iria desistir e se afastar.
       -- Como assim? Nada disso! Eu era discreta, não dava a entender que estava interessada – protestou Netta, meio rindo.
       -- Pois é! Eu achava que ela só queria ser gentil. – O cocheiro piscou, pousou a mão sobre a da mulher, que afagava lentamente as costas do pequeno Nils. – E é verdade que ela achava que a boa comida iria me curar. Mas eu morria de medo de comer qualquer coisa mais temperada, e em vez de explicar isso a ela só dizia que não, que não queria, que me satisfaria com umas frutas e um pouco de caldo. E assim foi durante uma, duas, três luas...
       -- Ela oferecendo e você recusando? – perguntei, divertida. – E logo Netta, que se ofende quando a gente não repete pelo menos duas vezes?
       -- Isso mesmo, até que ela ficou magoada – disse Nils. – Parou de oferecer comida e nem falava mais comigo. Fiquei surpreso, e também triste, porque a essa altura já tinha começado a gostar dela, mas não sabia o que fazer. E não sei se teríamos ficado nisso se não fosse – adivinhe quem? Nosso patrão, Mestre Theoddor.
       -- Sério? Ele fez vocês se entenderem? – Ergui as sobrancelhas, com surpresa. – Como aconteceu?
       -- Ah, Nils, não conte! Fui uma grande boba nas mãos dele – disse Netta, com as faces vermelhas.
       -- Mas essa é a melhor parte! Veja, Aileen, naquele tempo a Escola de Artes Mágicas ainda não tinha sido fundada – explicou Holger. – O Castelo das Águias era propriedade de Mestre Theoddor, que tinha estudado Ciências da Terra e um pouco de Artes da Cura. Mas todos sabiam que ele era amigo de vários magos, que estavam sempre trocando cartas, ideias...
       -- Às vezes algum deles se hospedava aqui – lembrou Netta. – Havia um quando isso aconteceu. Um elfo, não me lembro do nome. Até achei que Mestre Theoddor tinha falado com ele.
       -- Sobre o quê? Você e Nils?
       -- Sim, mas principalmente sobre o problema de saúde do meu pai – Holger respondeu. -- Mestre Theoddor notou que minha mãe andava triste, e ela contou a história; disse que estava tentando ajudar meu pai, mas ele não se importava nem com ela, nem com o que ela cozinhava com tanto carinho. Vai daí, Mestre Theoddor fez com que ela acreditasse que meu pai precisava tomar uma poção. Uma poção do amor, que ia fazê-lo ver o quanto ela gostava dele...
       -- Nem gostava tanto assim – disse Netta. -- Era só uma quedinha!
       -- ... e a partir daí ele passaria também a apreciar sua comida – completou Holger, com uma risada. – Era tudo que ela queria que meu pai fizesse.
       -- E como ela conseguiu que ele tomasse a poção? – indagou Aisleen, com olhos de assombro. – Ele sabia o que era?
       -- Na verdade, sim – disse Holger. – Mestre Theoddor não perguntou diretamente a meu pai, mas percebeu que ele estava gostando da minha mãe e andava aflito com o que pensava ser a indiferença dela. Então, ele recomendou a minha mãe que disfarçasse; que não dissesse a meu pai que era uma poção, e sim o que de fato era, ou seja, um remédio dado pelo patrão para ajudar com o problema dele. De forma que, mesmo sem saber da trama, ele sabia o que estava tomando, enquanto minha mãe acreditou piamente que fosse uma poção do amor; e quando meu pai melhorou da barriga e começou a comer o que ela oferecia...
       -- Ela achou que a poção tinha funcionado! – exclamei, rindo. – É uma história genial!
       -- Não deveria ter contado. Eu me sinto uma grande tonta – Netta resmungou, mas não parecia ofendida de verdade. – Mestre Theoddor sempre gostou de pregar peças, mas essa foi a maior de todas. E durou uns bons anos! Holger já era crescido quando ele nos contou o que tinha feito!
       -- Mas, no fim, isso acabou sendo bom para nós, não é, minha mulher? Ou pelo menos para mim – riu Nils. -- Faz quase trinta anos que você atura este velho fanfarrão!
       -- E aposto que tem muito mais para contar – falei. – Não vou descansar enquanto não ouvir todas as histórias!
       -- Mas agora seria melhor ouvir as que estão contando na festa, não é, Anna? – disse Kieran, entrando de repente na cozinha. Sua chegada provocou certo impacto, especialmente em Holger e Aileen – não estavam acostumados com ele, e sua fama de Carrasco o precedia --, mas a tensão foi quebrada pelo bebê, que lançou um olhar como que fascinado para meu marido e riu estendendo as mãozinhas.
       -- Ora, vejam, ele gostou do senhor! – exclamou Netta, uma das poucas pessoas no Castelo a não fazer cerimônia com Kieran. – Também riu assim para Mestra Anna. Sinal de que serão bons pais, quando se resolverem... sabiam?
       -- Espero que com meu filho eu seja bom. Com os aprendizes, esses mais novos, quase nunca acerto – resmungou ele. – Amina mal tinha voltado para a mesa quando aqueles três voltaram a cochichar, e fui saber o que era. Freydis e o neto do Comandante até falaram comigo normalmente, mas o outro parecia estar com medo de que eu o mordesse. Com muito custo consegui entender que estava se recusando a contar uma história.
       -- Muita gente acha que você morde. Mas é isso mesmo. – Suspirei, voltando-me para a família de Netta. – Preciso retornar ao salão, mas foi muito bom ver vocês e conhecer o pequeno Nils. E obrigada pela história da poção. Vocês se sairiam bem, narrando todos juntos, se fossem uma família de saltimbancos.
       -- Imagine! Eu só saberia guiar a carroça! – riu Nils, com as bochechas rubras. Fiz um carinho nos cabelos do bebê e deixei a cozinha, com Kieran logo atrás, a mão em meu ombro me impedindo de ir tão rápido quanto gostaria.
       -- Vai insistir com o menino? – ele perguntou.
       -- Com Andi? Não sei. Queria que ele superasse isso, afinal não tem medo quando se trata da harpa ou do alaúde, mas não posso forçá-lo.
       -- É verdade. Ele não tem medo de tocar, assim como você não tem medo de contar histórias – disse Kieran.
O tom foi casual, mas nele havia uma nota dissonante, e eu me detive para olhar bem dentro daqueles olhos estreitos.
      -- O que você quer dizer com isso? – perguntei, incisiva. – Onde está querendo chegar?
      -- Pense um pouco. Vai descobrir – disse ele, no mesmo tom.
Seus dedos roçaram de leve as pontas dos dedos da minha mão esquerda. Na mesma hora, lembrei-me de como ele também fizera isso, três dias antes, ao falarmos pela primeira vez sobre a Noite de Sagas – e então a compreensão iluminou minha mente como um relâmpago.
Ele sabia...!
     -- Tudo bem, eu também tenho receios – falei, puxando a mão que ele segurava e cruzando os braços. – Ainda mais porque sei que não estou pronta.
      -- Urien acha que está – disse Kieran, sem tirar os olhos dos meus.
      -- Ah, então você falou com Urien? – rebati, zangada. – É uma conspiração?
      -- Não, só estou constatando um fato. Urien diz sobre você o mesmo que você diz sobre o menino, e o menino parece sentir o mesmo que você a esse respeito. É curioso, nada mais.
      Fitei-o, pensando numa boa resposta, mas no final achei melhor não dizer nada e segui em frente. Os sons da festa nos alcançaram após alguns passos, culminando numa salva de aplausos dirigidos a Arnak, o Conselheiro meio-humano. Ele deixava o tablado quando Kieran e eu entramos no salão.
      -- Acredita que a história dele não teve mais que umas vinte frases? Foi divertida, mas nem deu gosto – disse Urien, vindo ao nosso encontro com uma harpa sob o braço. – Anna, ninguém se ofereceu para contar a próxima, e muita gente está pedindo que você nos brinde mais uma vez. Pode fazer isso?
      -- Sim, é claro – respondi, mas minha atenção se voltava para a mesa onde estavam as crianças. Orm e Freydis se sentavam cada qual de um lado de Andi e lhe falavam em voz baixa, tentando animá-lo e – provavelmente – convencê-lo a ocupar o tablado; o meio-humano estava cabisbaixo, mas, em meio ao silêncio, notei que olhava de soslaio para Kieran. Seria medo? Ou só aquela espécie de temor respeitoso que a maior parte dos aprendizes sentia por ele no Segundo Círculo?
      -- Espere um pouco, Urien – pedi, e caminhei até a mesa deles. Freydis se calou à minha aproximação, e em seguida foi a vez de Orm, mas eu sentia que a tensão ali era quase palpável.
    -- Ei, Andi. Kieran veio falar com você? – perguntei, tentando aliviar os ânimos. – Espero que não tenha pressionado muito.
     -- Mestre Kieran foi um amor – afirmou Freydis, de cenho franzido. – Ele disse que Andi devia tentar, que ele não era o único a ter medo, que todo mundo em algum momento passa por isso. E nós estamos dizendo o mesmo, só que ainda assim ele não se convence.
      -- Eu me convenci. Quer dizer, eu sei que vocês têm razão – disse o meio-humano. – Mas tem alguma coisa que me impede.
      -- Medo de errar – afirmou Orm.
      -- Medo de todos rirem de você – contrapôs Freydis. – Mas, Andi, isto é uma festa para a Mestra Anna. As pessoas de fora do Castelo são amigas dela. Você vai se sair bem, e, mesmo que erre um pouco, ninguém vai levar a mal. Somos todos aprendizes, não é?
       -- Isso! – exclamei; e então me senti estremecer. Aquelas palavras tinham acendido uma nova luz, tinham-se somado àquilo que eu ouvira pouco antes de Kieran e me aberto os olhos. Eu era uma mestra, sim, ou pelo menos tinha conhecimento bastante para ensinar às crianças do Castelo das Águias. Mas, em outras coisas, também era uma aprendiz. E com receios semelhantes aos de Andi, embora talvez por outras razões.
       E, se minha intuição estivesse certa, acabara de pensar em algo que poderia ajudar a nós dois.

Imagem: ilustração medieval alemã representando Tristão e Isolda

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