quarta-feira, 21 de junho de 2017

Ana Merege e Eduardo Kasse na Feira Medieval


Pessoas Queridas,

Eu e o Eduardo convidamos vocês para nos encontrar na III Feira Medieval carioca, que terá lugar no sábado e no domingo (dias 23 e 24 de junho) das 11 ás 17 h na Quinta da Boa Vista, um lugar bem central aqui no Rio de Janeiro. A entrada no evento é gratuita e haverá muitas atrações: torneio de armas, prática de arco e flecha, dança e música medieval, venda de hidromel, roupas e artefatos. As crianças terão atividades direcionadas pára elas - vai ser bem divertido.

Para quem quiser adquirir nossos livros, teremos descontos de até 30% nos volumes da Trilogia Athelgard, da Série Tempos de Sangue e das coletâneas Medieval e Excalibur. Aceitaremos cartão, daremos marcadores de brinde e, é claro, autógrafos.

Venha passar conosco um Dia Medieval!

domingo, 11 de junho de 2017

Além de Agora : um conto de Cyprien de Pwilrie (Final)

     

          Tina e eu ficamos no alto da muralha até a segunda hora. Lá embaixo, a praça foi se esvaziando cada vez mais, até que só restassem os desocupados de sempre, além dos funcionários que iam e vinham e dos parentes do prisioneiro. Pouco antes das duas, Rowenna e Sanson chegaram numa carroça, na qual recolheriam Édobec assim que ele fosse solto. Sem mais o que fazer, acompanhei seu trajeto até o patíbulo -- e foi então que, inesperadamente, meus olhos deram com Thierry sentado numa calçada, com uma caneca de vinho ao lado e a cabeça nos braços. Fora ele, afinal, o único de nós a se ferir naquela aventura.
        -- Cyprien!
        Voltei a cabeça, estranhando a voz infantil que gritara meu nome. Instantes depois, uma menina surgiu entre as pedras lá embaixo, e eu franzi o cenho, reconhecendo a sobrinha do cego Omar. Como, dentre todas as pessoas do mundo, ela viera me encontrar ali?
         -- Oi, Tina! Oi, Cyprien! Ei, tio, Rowenna acertou -- gritou, alegremente, para o cego que esperava junto às escadas. -- Ele está mesmo na Fortaleza. Só que Tina está junto, e os dois estão no alto da muralha.
          -- Mas vou descer -- atalhei, vendo que Édobec acabava de ser tirado da roda. Ajudados por Sanson, os homens da família o deitaram na carroça, de bruços, e Rowenna se ajoelhou ao lado, junto com a mulher do prisioneiro. Bem devagar, Sanson fez andar a carroça, e eu não esperei mais do que isso para dar as costas à cena. Agora tinha certeza de que Édobec sobrevivera ao castigo. Era tudo de que precisava para que minha consciência ficasse em paz.
            -- Cyprien. -- Emocionado, Omar avançou para mim, tão logo percebeu que eu saltara da muralha. -- Cyprien, meu rapaz, você foi ótimo! Pelo que ouvi, os guardas nem perceberam que alguém subiu ao patíbulo, e Rowenna disse que o velho recebeu as chibatadas quase sem sentir. Mas o melhor de tudo foi o seu plano -- as sombras, a mensagem passando de boca em boca, e depois toda aquela gente gritando a uma só voz. Ah! Foi formidável! Há quanto tempo o nosso povo não se unia assim!
          -- Bom, não foi só o nosso povo -- lembrei, envergonhado. -- Você deve ter notado que muitos outros nos ajudaram. E, além disso, não foi você que recomendou que ficássemos em silêncio? Não devia estar elogiando quem fez exatamente o contrário.
          -- Ah! Mas vocês me surpreenderam -- disse ele, com um sorriso. -- Eu não imaginava que nossos jovens fossem capazes de uma reação como essa. E, acima de tudo, não imaginava que tivéssemos alguém como você... Alguém para manter vivo o espírito de Zaid.
           -- Ora essa, Omar...! - protestei, sentindo que o sangue me subia às faces.
           -- Ora essa, por quê? Falo sério, meu caro. Você deve conhecer a história de Zaid, o Mestre de Cerimônias do Rei Adouf, que fez os guerreiros se passarem por saltimbancos, e assim salvou suas vidas quando Pwilrie se rendeu ao inimigo. Ele foi nosso primeiro líder após a Reconquista, e dizem que, enquanto viveu, não deixou de repetir que a arte era a melhor das armas ao nosso alcance. E sabe de uma coisa, Cyprien? Eu acho que ele estava certo.
           -- Eu também -- suspirei. -- Mas confesso que, quando estava lá, bem que desejei ter ouvido você e ficado em silêncio.
           -- Ah, não! Não faça isso, nunca. -- Pigarreando, o cego se aprumou, como quando se preparava para contar uma história. -- O silêncio é digno, mas um homem deve reagir, quando tem forças e sabedoria para isso. E agora, ouça com atenção o que vou dizer. Eu sei que Rowenna espera que você se torne um líder. Outros já estão dizendo o mesmo -- e, depois de hoje, ninguém vai me convencer do contrário. No entanto, você é muito novo, e pode ser que não se sinta pronto... Ou você diria que está?
          -- Eu, Omar? É claro que não.
          -- Eu sabia -- sorriu ele, de um jeito tranqüilo. -- Eu sinto o impulso nos seus gestos, percebo a impaciência na sua voz. E eu sei que mais cedo ou mais tarde você vai partir, como o herói daquela história que deixei inacabada. Mas vai voltar, Cyprien de Pwilrie -- acrescentou, e o que disse a seguir calou fundo em minha alma. -- Onde quer que a vida o leve, um dia você vai ouvir o chamado, por isso não se angustie nem tenha pressa. Você vai saber usar suas armas quando chegar a hora. E, assim como você, aquela linda moça – acrescentou, apontando na direção exata em que Tina se encontrava. – Ela também ainda há de fazer muito pelo Povo Alto. E se me permite um último conselho, Cyprien: ame as mulheres que passarem por sua vida, seja o homem e o companheiro que elas merecem, mas nunca, nunca se esqueça da força e da coragem que elas têm!
          -- Não vou me esquecer -- respondi, esforçando-me para não chorar. Eu estivera tão confuso, e ele tornara as coisas tão claras em questão de momentos. A mais simples palavra é ouro na boca de um contador de histórias. Talvez fosse essa a arte que meu coração ansiava por aprender.
          -- Cuide-se -- disse Omar, depois de alguns instantes. Batendo-me no ombro, ele chamou pela sobrinha, e os dois começaram a descer as escadas enquanto eu permanecia ali, de pé, olhando para as pedras chatas que marcam as sepulturas.
           Não há nenhuma inscrição, mas todos sabemos onde estão os mortos ilustres, bem como as pessoas de nossa família. Assim, a cada lua nova, desde que esteja na cidade, venho trazer flores ao túmulo de minha mãe. Ela repousa à sombra de um resto de muralha, ali mesmo onde viera à procura de Rowenna, quatro anos antes, ao sentir as dores que anunciavam minha chegada ao mundo. As ruínas do passado, o lugar dos mortos, o chão do meu nascimento. Não podia ser por acaso que eu me sentia tão ligado ao destino do Povo Alto. E talvez, quem sabe, um dia eu viesse a ser o líder previsto por Rowenna -- mas, ainda que não, o que fizera hoje devia ter bastado para deixar os antepassados felizes. De que outra forma, no auge do verão, os céus teriam me mandado aquela brisa fresca?
            Respirei fundo, olhando para o Labirinto que se estendia a meus pés. O palácio fora arrasado, e os heróis estavam mortos, mas eu tinha muito a fazer naquele dia especial. Na casa de Ariela, o almoço devia estar esperando por mim, e os amigos certamente estavam loucos para me felicitar. Pippo olharia para mim com aquele ar de irmão mais velho, Sanson me apertaria até trincar as costelas, enquanto, como todos os bons mestres, Thespio e Mandol não se caberiam de orgulho do antigo aprendiz. Aymon demonstraria mais admiração do que se me visse jogar com uma dúzia de bolas. E com Rowenna, quando ela chegasse da casa de Édobec, eu trocaria aquele olhar que era só nosso, que não precisava de palavras para reafirmar nossa cumplicidade. Tudo seria perfeito, eu passaria a tarde sendo admirado e cumprimentado como um herói...
          -- Olá! Ainda neste mundo? – chamou Tina, em tom divertido.
          No instante seguinte, eu havia esquecido todas as minhas fumaças de grandeza e me voltado para ela. Estava de pé sobre a muralha, o cabelo solto de novo, esvoaçando ao vento, os olhos brilhando de orgulho pelo que havíamos realizado. Estendi a mão, dando-lhe apoio para que descesse, e então nos abraçamos com força. Não como namorados, não apenas como o homem e a mulher que mal começávamos a ser, mas como dois guerreiros unidos pela mesma causa.
           E esse abraço se tornou algo que nunca poderiam nos tirar: o instante precioso, para sempre acalentado, que nos daria força ao longo de toda a vida, de todas as lutas, de todas as noites de frio e escuridão que nos esperavam antes da vitória.

****

Bom, Pessoas Queridas... Chegamos ao fim da novela. Muito obrigada a quem acompanhou (ou pelo menos leu um pedacinho!). Espero que vocês tenham curtido, de coração.

Este post é ilustrado com uma foto do Castelo dos Mouros em Sintra, Portugal.

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Parte 1
Parte 18

Conheça O Jogo do Equilíbrio, novela em que Cyprien já está em outra fase da vida.

Saiba mais sobre o personagem clicando aqui.


segunda-feira, 5 de junho de 2017

Além de Agora : um conto de Cyprien de Pwilrie (Parte 18)



A confusão crescia a cada momento, e havia cada vez mais gente a olhar para cima, embora alguns continuassem a prestar atenção em Édobec. Contra todas as possibilidades, o Prefeito ainda tentava se fazer ouvir, suas palavras soando como marteladas entre os gritos da multidão. Apreensivo, eu relanceava meu olhar do sobrado ao patíbulo, procurando, por menor que fosse, uma oportunidade de chegar ao prisioneiro; e creio que esse momento jamais teria chegado se Nayla, arrebatada por sua própria atuação, não houvesse dado o golpe de misericórdia, enlaçando a cintura de Cassius com suas longas pernas de dançarina. Fundidas numa só, as sombras rodopiaram sob o foco de luz, e a praça veio finalmente abaixo, vencida pelo irresistível apelo do espetáculo.
-- Meu Deus, olhe só! Eles vão fazer mesmo! -- gritou o dono da Estalagem do Sino.
-- Não sabem que podemos vê-los - disse Piers Padeiro.
-- E ainda bem que não! -- gargalhou um soldado. -- Vamos lá, amigo, mostre a ela!
-- Força, companheiro! -- gritaram alguns estudantes, apertados no alto de outro sobrado. Tal como eles, as moças da casa de Emma se puseram a incentivar o casal, e o mesmo fizeram várias outras pessoas, enquanto um segundo grupo protestava contra a falta de vergonha. E foi assim, por obra de amigos e rivais, de conhecidos e de perfeitos estranhos, que finalmente pude vislumbrar a brecha no espaço e na atenção que os guardas dispensavam a Édobec.
Não houve como pensar -- ou melhor, eu mesmo preferi agir sem haver pensado, ou não seria capaz de fazer o que fiz naquele momento. Com um salto para a frente, aterrissei com os dois pés sobre o patíbulo, e minha mão avançou como um relâmpago, metendo o pequeno frasco entre os lábios do prisioneiro.
-- Beba -- ordenei, e fui em frente sem me dar tempo de saber se ele o fizera.
Então, as coisas se sucederam tão rápido que mal consigo explicar. Tudo que sei é que, ao prosseguir, meus olhos esbarraram nas costas do carrasco, e o mesmo relance me mostrou uma figura a avançar para ele; e, enquanto uma cambalhota me punha fora do patíbulo, ouvi com toda a nitidez a voz de Tina, gritando, não como se me alertasse ou defendesse, mas sim como se pedisse a proteção daquele brutamontes.
-- Senhor, por favor, me ajude, eu tenho de ir lá em cima! É minha irmã, e nosso pai está vindo com um machado!
-- Desça daí, mulher! -- exclamaram várias vozes, ao mesmo tempo que minha queda era amparada pelos experientes braços de um acrobata. Num movimento preciso, ele evitou que eu me estatelasse no chão, e eu ia agradecer e dar o fora se não percebesse de quem se tratava. Thespio...!
-- Já para casa, rapaz! -- riu ele, mas a surpresa foi tanta que não consegui reagir. Percebendo o perigo, Thespio me empurrou e repetiu a ordem, e as pessoas à minha volta abriram caminho, permitindo que eu me afastasse do patíbulo. Olhei para trás a fim de ver o que acontecera com Tina. Graças aos céus, ela também conseguira descer em segurança, mas parecia meio perdida em meio à multidão que puxava e empurrava de todos os lados.
-- Por aqui! Por aqui! -- gritavam os moradores do Labirinto. Eram eles, principalmente, que se apertavam contra os demais para que eu pudesse passar. Tina me achou e se esgueirou entre eles, a mão estendida até conseguir agarrar a minha; nós nos olhamos por um momento, sabendo de antemão que a fuga era nossa prioridade.
-- Vamos evitar o sobrado – falei, e a guiei numa corrida rápida, os dois meio agachados para atravessar a praça em diagonal. Enveredei pela Rua dos Juristas e fomos em frente, já sem correr, mas caminhando bem rápido em direção à Praça do Templo. Dali, alcançar o Labirinto foi questão de instantes, mas, ao invés de entrar em minha casa ou seguir até a de Tina, continuamos rua acima até a pracinha da fonte, onde bebemos água e molhamos o rosto. Tina ajeitou o cabelo, prendendo-o para cima, e eu olhei em torno enquanto meu coração retomava o ritmo. Não havia nenhuma alma viva a quem contar o que acontecera.
Subimos três ou quatro ruas antes de parar mais uma vez. Ali já havia um pouco de movimento, crianças brincando de pega-pega e um sapateiro em sua oficina. Erguendo a cabeça, o homem nos cumprimentou, e respondemos com um aceno, quando já subíamos a Escadinha das Cabras. Ambos sabíamos exatamente onde queríamos chegar. 
Passo a passo, em ritmo lento, vencemos a longa subida até a Fortaleza, o antigo palácio dos Reis de Pwilrie, em cujas ruínas o Povo Alto enterra seus mortos. Normalmente, nossa atitude nesse lugar é quase de reverência, mas dessa vez não havia tempo a perder, e assim subimos sem cerimônia até o ponto mais alto -- que foi, desde sempre, o nosso observatório -- e nos sentamos para assistir à última parte do espetáculo.
Todos nós, em Pwilrie, temos sangue quente, e as confusões costumam durar muito tempo, mas dessa vez os ânimos não haviam demorado a se acalmar. A praça ainda estava cheia, mas a multidão era bem menor, e já ninguém olhava e apontava na direção do sobrado. Nayla e Cassius deviam ter conseguido sair pela parte de trás. Quanto a Édobec, o pano branco sobre suas costas mostrava que já fora chicoteado, e a evidência se tornou ainda maior quando distingui o carrasco a se afastar junto com alguns guardas. Sobre o patíbulo só restavam dois deles, um ao lado da roda, o outro caminhando lentamente para lá e para cá. Eu quase podia ver o tédio estampado na expressão daqueles vigias.

Olhei para o céu, calculando o tempo que faltava para que o velho fosse solto. Uma hora e tanto, pelo menos. Era por isso que muitas pessoas não haviam ficado para vê-lo ser tirado da roda. Agora, tornara-se mais fácil distinguir os rostos conhecidos, principalmente os da família de Édobec, um grupo triste e silencioso a poucos passos do patíbulo. Aymon e Thespio continuavam na praça, e pela sua calma concluí que nada de ruim acontecera a ninguém. Faltava apenas ter certeza de que eu realmente havia salvado Édobec.

Parte 1
Parte 17
Parte Final

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quinta-feira, 1 de junho de 2017

Além de Agora : um conto de Cyprien de Pwilrie (Parte 17)


       O prisioneiro havia gritado sem parar enquanto o traziam, mas, depois que o fizeram ajoelhar e o acorrentaram à roda, quedou-se num silêncio dócil e resignado. Eu estava numa das laterais do patíbulo, a melhor posição para o salto que planejava, e acabava de me colocar à distância ideal. Infelizmente, ela era tal que permitia que um sujeito baixinho se metesse na minha frente.
         -- Com licença, amigo. Podia se afastar um pouco? -- perguntei, e o homem franziu o cenho, como se não tivesse entendido. -- A sério, eu preciso desse espaço livre. Olhe, se for um pouquinho para a esquerda...
         -- Para a esquerda, não é? Ah, essa é boa! -- retrucou ele, de um jeito impertinente. -- Eu estou aqui, e aqui vou ficar! Quem você pensa que é, garoto, para passar à frente de um cidadão honesto?
          -- Eu,senhor? Oh, eu não sou nada. -- Inclinei-me, a raiva me ditando as palavras certas para sussurrar em seu ouvido. -- Sou apenas um pobre coitado do Labirinto. E sou um pouquinho doido. Quando vejo tanta gente junta, começo a me sentir sufocado, e então pego minha adaga -- está bem aqui, olhe --, e saio golpeando quem quer que esteja à minha frente. Se estou avisando o senhor, é por ter notado que é um homem de bem, que não gostaria de acabar seus dias dessa maneira... Ou será que gostaria?
          Isso com a minha expressão mais cândida, o que, em geral, dá mais resultado que uma cara ameaçadora. Não querendo discutir com um maluco, o homem murmurou qualquer coisa e se afastou, e eu pude mais uma vez refazer meus cálculos para o grande salto. Eu não podia me dar ao luxo de ser menos do que perfeito.
         -- Façam silêncio! Silêncio, vocês aí! -- puseram-se então a gritar os guardas e os arautos. Fiquei imediatamente alerta quando ouvi isso, porque, na maior parte das vezes, significava que o Prefeito ia fazer seu discurso. Era nesse momento que o meu plano devia ser posto em prática.
Olhei para os lençóis que pendiam da janela do sobrado. Naquele momento, ainda não se via nenhuma projeção, mas eu tinha certeza de que Nayla e Cassius estavam a postos. Os outros também deviam ter feito o melhor possível, espalhando a nossa mensagem até onde houvessem conseguido chegar. Era muito bom, em meio à tensão causada por aquele momento, saber que eu podia contar ao menos com meus amigos.
         -- Cidadãos de Pwilrie! -- soou a voz aguda e tão conhecida do Prefeito. Meu corpo estremeceu de alto a baixo quando ouvi o som. Agora, era tudo ou nada, pois eu estava decidido a não recuar. Apertei com força o frasco bem escondido entre meus dedos longos. Coragem, meu velho. Eu já estou indo. Por você, por mim e por cada um dos nossos.
         -- Ei, escute só -- disse a mulher à minha direita. -- Estão tocando a “Canção da Lua”, ou...
         -- Sim! Parece que sim -- respondeu alguém, quando eu acabava de reconhecer os acordes. No instante seguinte, por trás dos lençóis que cobriam a janela, os vultos de Cassius e Nayla começaram a se abraçar -- e meu coração bateu desenfreado quando a primeira exclamação se sobrepôs às palavras do Prefeito.
         -- Vejam! -- Era a voz de Aymon, o que me fez morder os lábios, imaginando que podíamos estar sozinhos. -- Há alguém nas ruínas do sobrado, e... Puxa! Parece que é uma dupla das mais animadas!
          -- É mesmo! -- comentaram algumas vozes aqui e ali. Ao meu redor, as pessoas começaram a voltar a cabeça, um tanto distraídas no início, depois com uma curiosidade que aumentava à medida em que o casal parecia se entusiasmar. Provavelmente os dois já vinham escondendo alguma coisa de Thierry, pois o que se via podia parecer tudo, menos um fingimento. A menos que eles fossem os melhores atores já surgidos nesta cidade de saltimbancos. De qualquer forma, senti-me aliviado por não ser Tina a oferecer o espetáculo, ao mesmo tempo em que lamentava não lhe haver pedido para ficar perto de mim. Onde ela estava agora? Onde estaria, e o que faria, quando eu executasse o meu salto? Onde estavam as pessoas que deveriam distrair os guardas?
         -- Ei, olhem! -- gritou de repente alguém, a plenos pulmões, não longe do patíbulo. -- Acho que a moça vai tirar a blusa!
         -- Vai ser ali mesmo! -- ajuntou um artesão do Labirinto.
          -- Que desavergonhada! -- protestou uma velha, que eu vira muitas vezes conversando com Olivier. Outras exclamações se seguiram a essas, sempre em tom bem alto, como se as pessoas que falavam quisessem realmente chamar a atenção. Senti meu peito se aquecer à vibração das vozes amigas. Eu não deveria ter duvidado de que viriam em minha ajuda.

Parte 1
Parte 16
Parte 18


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domingo, 28 de maio de 2017

Além de Agora : um conto de Cyprien de Pwilrie (Parte 16)




       A muito custo, e bem devagar, fui avançando em direção ao patíbulo. O progresso era mais difícil a cada passo, e recuar teria sido impossível, pois a multidão se comprimia ainda mais às costas dos que iam passando. Agora, eu já atravessara metade do percurso, e chegara a ver pessoas amigas, mas a massa de corpos à minha volta impedira a aproximação. Tentei não pensar na possibilidade de o mesmo ter acontecido com Thierry e Aymon. Se eles não conseguissem adesões, nosso plano tinha grandes chances de ir por água abaixo.
      -- Abram caminho! Abram caminho! -- soou, repentinamente, a voz de um arauto. -- Deem espaço para a passagem do cortejo!
      -- Maldição -- murmurei, por entre dentes, enquanto a multidão vibrava com a chegada do prisioneiro. Escoltado por vários guardas, ele vinha de pé sobre uma carroça, um homem envelhecido e emaciado, com longos cabelos brancos e os pulsos presos por uma corrente. Vê-lo desse jeito fez se erguer em mim uma onda de revolta, que me ajudou a avançar mais rápido.
       Por fim, depois de pisar muitos pés, dar e levar cotoveladas de tirar o fôlego, encontrei-me diante do patíbulo, no lado oposto àquele onde ficava a escada. Havia talvez uns dez guardas ali em cima, apontando suas lanças para a multidão, mas eu sabia que só restariam quatro depois de terem feito subir o prisioneiro. Também o carrasco já se achava a postos, com o capuz e o manto vermelho que usava como distintivo, e seu ajudante acabava de subir para lhe entregar o chicote. Era um daqueles pesados, com tiras que terminam em bolas de chumbo, e minha revolta aumentou mais ainda quando vi a satisfação do homem ao recebê-lo. Ninguém jamais vai me convencer de que um carrasco não faz mais que cumprir seu dever de ofício. Para aceitar esse cargo, um sujeito tem que gostar de provocar dor.
         Apertei os lábios sob o ruído da multidão. Havia um pouco de tudo, aplausos, protestos, até mesmo risos, como se houvesse graça em ver o suplício de um pobre velho. Imaginei o que faria aquela gente se eu fosse apanhado enquanto o ajudava. Certamente achariam ótimo que mais um rato do Povo Alto fosse posto a ferros.
        -- Kip -- murmurou, de repente, uma voz a meu lado. Voltei-me, sabendo muito bem a quem iria ver, mas espantado com a forma pela qual ela se aproximara sem que eu percebesse.
         -- Aqui está -- disse Rowenna, passando um frasco minúsculo para minha mão. -- É só um gole, e é o bastante para entorpecê-lo. Mas mesmo assim você tem que esperar o momento exato.
         -- Eu sei. Meus amigos vão ajudar. Algum deles falou com você?
         -- Não, mas eu imaginei que você teria um plano. Espero que dê certo, seja qual for. Boa sorte, e tenha cuidado, Kip.
         Voltou as costas, aproveitando um recuo da multidão para se afastar do patíbulo. Com todo cuidado, ajeitei o frasco da poção entre dois dedos, afrouxando a rolha para poder destapá-lo no momento certo. Se eu calculasse bem espaço e movimento, poderia cruzar o patíbulo em dois saltos, sem quase me deter diante de Édobec. Só um gole, e ele não sentiria o chicote se abatendo sobre suas costas. Só um erro... E seria a minha vez.
         A ideia se aferrou a mim como uma maldição, ecoando no ritmo do tambor que anunciava a chegada do prisioneiro. Sem piscar sequer uma vez, olhei para a multidão que se comprimia em torno do patíbulo, vi Édobec ser empurrado aos tropeções escada acima, ouvi os gritos com que ele implorava perdão. Tudo isso vinha através de meus olhos e ouvidos, mas a imagem mais nítida pertencia ao passado, e nela estavam todos aqueles que haviam me aconselhado a não fazer aquilo.              Agora, eu quase podia ouvir de novo Thierry me chamando de louco, ver o cenho franzido de Thespio, sentir a tristeza de Mandol pelo fracasso das revoltas. Acima de tudo, podia ouvir o cego Omar, sua voz saindo das histórias antigas para nos conclamar ao silêncio. Talvez essa tivesse sido a escolha mais sábia.
        Respirei fundo, tentando me concentrar na tarefa que tinha à frente. Eu podia ser um tonto, podia mesmo ser impulsivo como Haney, mas estava determinado a não ter o mesmo fim. Já que chegara até ali, devia fazer o melhor possível, e isso dependia tanto da sorte quanto da minha habilidade.
        E, pelo que a vida me tem mostrado, é com a segunda que devo contar se quiser continuar inteiro.


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Parte 15
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terça-feira, 23 de maio de 2017

Além de Agora : um conto de Cyprien de Pwilrie (Parte 15)



-- Vá, Nayla, resolva isso logo, por favor -- pediu Aymon, agoniado. -- Ninguém vai ter uma ideia melhor que a de Cyprien.
-- E quem falou contra a ideia? De jeito nenhum - retrucou a moça. -- Eu só acho que o fingimento resolve tudo muito bem. E se Tina não pensa assim -- acrescentou, olhando-a de soslaio --, não há problema, pois eu me disponho a ficar. Só não quero que seja com Thierry.
-- Essa é boa! -- exclamou o músico, mas seu riso soou meio forçado. -- Então, comigo você não quer nada, mas não se importa em ficar se agarrando com um deles? Mas que piada!
-- Piada por quê? - retrucou Tina, saindo em defesa da amiga. -- Você não achou tão normal que eu ficasse com outro enquanto Cyprien descia?
-- Sim, mas... mas é só porque ele tem que descer! - argumentou Thierry, não sem a sua dose de razão. -- Se outra pessoa levasse a poção para o velho, você ficaria com Cyprien; mas, se é Nayla que vai ficar, é claro que só pode ser comigo. Isso é evidente!
-- Evidente? Ah! Já foi o tempo, meu amigo -- fez Nayla, estalando os dedos. -- Por quase dois anos, eu esperei que você se emendasse, mas ontem foi realmente a gota d’água. Ficar com você, eu? Nem agora nem nunca mais!
-- E comigo?
A voz veio de dentro da sombra, quase num sussurro, inesperada e hesitante como o próprio Cassius. Pegos de surpresa, nenhum de nós soube o que dizer, nem mesmo Thierry ou Nayla; e então, depois de respirar fundo e ganhar coragem, o tecelão avançou para tocar o ombro da dançarina.
-- Fique comigo -- disse ele, sem olhar para Thierry. -- Você sabe muito bem quem eu sou. Eu não faria nada que pudesse...
-- Ei, espere aí! O que está pensando? Ela não vai ficar com você! -- reagiu finalmente o músico. -- Sei que somos amigos, mas... Diabos! Isso não tem graça! Nayla, você não pode me trocar por esse camarada!
-- Não estou trocando você por ninguém -- foi a resposta seca. -- Eu disse que ficaria no sobrado, para tomar parte no plano, desde que fosse com um dos outros; e já que Cassius se ofereceu, nosso problema está resolvido. E agora -- acrescentou, voltando-se para mim --, que tal se vocês fossem lá para baixo de uma vez? O carrasco não vai esperar que Thierry engula os seus ciúmes.
-- Ela tem razão -- disse Tina, com um sobressalto. -- Cyprien, nós temos que descer, com ou sem os outros.
-- E precisamos deles -- disse eu, olhando para Thierry. -- Você vem ou não?
-- Eu vou -- adiantou-se Aymon.
Seguido por Tina, ele começou a descer as escadas, enquanto Thierry, com ar desconcertado, olhava ora para Nayla e Cassius, ora para mim.
-- Então vocês... Vocês vão ficar aqui -- disse ele, por fim, respirando fundo. - Vão esperar a “Canção da Lua” e tudo mais.
-- Vamos, Thierry -- disse Cassius, com simplicidade.
-- Vá de uma vez -- disse Nayla, em tom ríspido. -- Cyprien precisa de ajuda. E aquele pobre velho também.
-- Está certo, então. -- Sorriu, forçando-se a parecer despreocupado. -- Eu vou lá para baixo, fazer minha parte; e mais tarde, quando o velho estiver a salvo, nós voltamos a conversar. E enquanto isso... comporte-se, ouviu, garota?
Passando de leve os dedos pelo seu rosto -- um gesto rápido demais para que ela recuasse --, Thierry deu meia-volta e desceu, assoviando uma de suas músicas mais alegres. Nayla o acompanhou com um olhar de espanto, voltou-se para Cassius, que encolheu os ombros, sorrindo timidamente para ela. Imaginei os dois, dali a alguns momentos, abraçando-se diante do foco de luz. Não era preciso nenhum esforço para vê-los juntos.
-- Cyprien! - chamou Tina, lá de baixo, com voz aflita. -- Você não vem? Já mal se pode andar aqui na praça!
-- Estou indo -- respondi, minha atenção voltando ao que era mais importante. -- Bom, pessoal, tenho que descer. Fiquem atentos ao sinal, principalmente se o ouvirem pela segunda vez. Não é provável, mas pode acontecer que os guardas venham até aqui em cima.
-- Estaremos atentos -- disse Cassius.
-- Cuide-se -- pediu Nayla, e esperou até que eu estivesse na escada para acrescentar:
-- Não deixe Thierry fazer nenhuma asneira.
Isso ia ser difícil, pois cada um estaria por sua conta, mas não seria eu a explicá-lo para Nayla. De qualquer forma, eu não acreditava que Thierry se metesse em nenhuma encrenca, por mais que aquela história o tivesse perturbado. Não era do seu feitio correr riscos desnecessários. Além disso, se eu bem o conhecia, ele ainda não se convencera de que Nayla falara a sério, e queria estar vivo e bem solto quando ela o procurasse. Ele era o único a não haver compreendido que as coisas seriam diferentes desta vez.
-- Cyprien! Finalmente! -- exclamou Tina, mal me viu cruzar a porta. -- Aymon e Thierry já foram falar com os conhecidos. Foi cada um para um lado, porque achamos que assim seria melhor, e eu decidi ficar e esperar você. Para onde devo ir? Há alguém, em especial, que você queira que eu procure?
-- Bem lembrado, Tina. Há sim. Olhe, Pippo e Sanson estavam juntos, ao lado de uma carroça enfeitada com fitas vermelhas. Veja se consegue mandá-los para perto do sobrado, pelo menos Pippo, já que é preciso que alguém toque a “Canção da Lua”. Diga a ele para fazer isso quando começar o discurso do Prefeito. Se você não o encontrar, procure Olivier, ou um outro qualquer, não importa. Basta que um músico esteja a postos na hora certa.
-- Está bem. E depois disso?
-- Depois -- bom, depois você fala com todos que encontrar, desde que confie neles. Não precisa explicar tudo, é claro. Diga só que é um plano meu para ajudar o velho. E eu vou fazer a mesma coisa, falar com quem puder... Enquanto estiver indo para o patíbulo.
Um arrepio percorreu-me as costas ao dizer essas palavras. Se as coisas não corressem bem hoje, seria eu, dentro de algum tempo, a ser levado de verdade para o patíbulo, e não haveria outro Cyprien para me ajudar. Rowenna não daria a poção a alguém capaz de suportar o castigo. Eu não podia me esquecer de que era o único a me arriscar naquela aventura.
-- Cyprien. -- Era a voz de Tina, inquieta e doce junto a meus ouvidos. -- Cyprien, acho melhor nós irmos. Há tanta gente com quem podemos falar, e... Oh, amor! Desculpe-me por ontem -- acrescentou, abraçando-me com força. -- Eu devia ter percebido que você só estava irritado, e não ficar insistindo em que fosse ver Rowenna. Eu sabia que você iria. Sabia que não ia me decepcionar.
-- Mas eu ainda posso, Tina. Quer dizer -- expliquei, sentindo-a estremecer em meus braços --, não pretendo desistir, mas pode ser que o plano não dê certo. E se não der, não sei se vou poder chegar até o Édobec. Você compreende?
-- Sim, mas pelo menos vai tentar -- disse Tina, muito séria. Sem ter mais argumentos, assenti, e ela me abraçou de novo e me desejou toda a sorte do mundo. Era assim, com certeza, que gostaria de ter abraçado seu pai dezessete anos antes.
-- Cuide-se -- pediu, e eu a beijei, para ter uma lembrança que fosse só minha. Então, Tina se voltou para abrir caminho na multidão, enquanto eu olhava em torno, procurando alguém a quem pudesse pedir ajuda. Não havia nenhum conhecido ao alcance dos meus olhos. 

*****

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quarta-feira, 10 de maio de 2017

Além de Agora : um conto de Cyprien de Pwilrie (parte 14)

       

         -- Olhe! São eles, sim! – A voz risonha de Cassius nos fez suspirar de alívio. -- E veja quem também está aqui com os dois. Thierry e Aymon!
         -- Que pena! Eu não teria vindo se soubesse -- disse Nayla, em tom seco, enquanto o tecelão a ajudava nos últimos degraus. Thierry guardou a arma e ficou a fitá-la, de braços cruzados, como se aguardasse que ela fosse até ele.
         -- O que estão fazendo aqui? -- perguntou Tina, aproximando-se dos recém-chegados. -- Como descobriram que éramos nós?
         -- Bem, encontramos Sanson por acaso, e ele nos disse -- respondeu Nayla. -- Mas só falou de você e Cyprien; e como eu ia imaginar que a briga estava acontecendo na frente desses dois?
         -- Mas de que briga está falando? Quer dizer -- expliquei --, nós discutimos mesmo um pouquinho, mas como vocês sabiam disso? Não diga que é possível nos ouvir lá de baixo!
         -- Só ouvir? Nós vimos -- replicou a dançarina. -- E não só nós, mas toda a cidade. Vocês estão fazendo um belo espetáculo de sombras. Cyprien devia descer e passar o chapéu.
         -- O quê? Então todo mundo estava olhando?
         -- Estava -- confirmou Cassius, com uma risada. -- Havia uma multidão aqui em frente, a uns vinte passos, com o nariz para cima. Ouvi até um rapaz apostando que o camarada -- quer dizer, você, Cyprien -- ia acabar aos beijos com a mulher, e outro dizia que não, que ia mas é lhe dar uns tabefes. Estava muito engraçado. Ei, por que está me olhando com essa cara?
         -- Por nada -- respondi, sem conseguir juntar as ideias que me vinham como raios.
         -- Não ficou zangado, ficou? -- perguntou Nayla, tocando-me o braço. -- Nós não fomos os únicos. Muita gente estava prestando atenção.
         -- Muita gente -- repeti, procurando pensar com calma. -- Então escute: e quanto aos soldados? Eles também estavam olhando?
         -- Os soldados? Bem, alguns sim, eu acho. Por que a pergunta?
         -- Acho que começo a entender -- murmurou Aymon.
         -- Ah, é? Pois eu não -- disse Thierry. -- De que adianta saber se os soldados estavam vendo a briga?
         -- Adianta, e muito -- repliquei, sentindo a excitação tomar conta de mim. -- Cassius, como estão as coisas no patíbulo? O prisioneiro já veio? As pessoas à volta dele olharam para cá?
         -- Muitas olharam, sim. Eu vi quando passamos lá por perto. Mas ainda não tinham trazido Édobec.
         -- Cyprien, o que você está tramando? É algum plano? -- sussurrou Tina, inclinando-se para mim. - Você pensou em alguma coisa para...
         -- Sim, pensei! Para ajudar Édobec -- confirmei, e os olhos dela brilharam. -- Eu já tinha decidido fazer isso, apesar dos riscos; mas, se vocês participarem, tenho quase certeza de que vou conseguir.
         -- Claro que vai! E pode contar comigo! -- exclamou Tina. Perplexos, Nayla e o tecelão se entreolharam, enquanto Aymon sorria, sabendo que tinha sido o único a compreender meu plano. Doze anos fazendo acrobacia juntos são um meio seguro de entrar em harmonia.
        -- Por favor, pessoal -- pediu Thierry, com o cenho franzido. -- Eu estou disposto a ajudar, se não houver risco para a minha pele, mas alguém quer me explicar o que está acontecendo? Que plano é esse que Cyprien inventou na última hora?
        -- Ele quer atrair a atenção do público -- disse Aymon, já meio eufórico. -- Na hora da execução, quer estar aqui fazendo teatro de sombras, e as pessoas prestariam atenção nisso e alguém daria a poção ao Édobec.
        -- É isso, Cyprien? Parece um bom plano -- animou-se Cassius. -- Quer dizer, há perigo, mas é melhor do que simplesmente ir lá e dar a beberagem ao velho.
        -- Sim, mas quem vai fazer isso? -- perguntou Nayla. -- Aymon e eu talvez fôssemos ágeis o bastante... mas...
        -- Não. -- Essa era uma questão fechada, desde que eu decidira correr o risco. - Sou eu que vou fazê-lo, pois foi a mim que Rowenna pediu; e também sabemos que sou eu que tenho mais chances. O teatro deve ser feito por vocês... Isto é, por um de vocês, que deve ficar aqui em cima com Tina.
        Dizendo isso, eu apertava os lábios, pois não me agradava nem um pouco a ideia de outro rapaz com a minha namorada. Por sua vez, eles também não ficaram à vontade, e o constrangimento aumentou ainda mais depois das palavras de Nayla.
      -- Uma briga não vai prender a atenção por muito tempo. -- Parou, como se hesitasse em dizer o que estava pensando. -- Lá embaixo, as pessoas estavam apostando que ia haver outro tipo de coisa, e... Bom... Vocês devem saber ao que estou me referindo.
      -- Mas é claro! Abraços e carinhos e coisas assim -- riu Thierry. -- E se ela tirar a roupa...
        -- O quê? Está louco? -- protestou Tina, em tom exaltado. -- Como é que eu vou ficar nua na frente de um de vocês?
       -- E não gostei dos “abraços e carinhos” -- disse eu.
       -- Ora, seria só um fingimento -- argumentou Nayla. -- Os dois se tocariam, é claro, mas não precisariam fazer nada de verdade. Na sombra, é só encostar o rosto para dar a impressão de um beijo, e a imaginação das pessoas se encarrega do resto.
        -- Imaginação, é? Então por que não fica você? -- desafiou Tina. -- Fique aqui, com um dos rapazes, e...
Parou, percebendo subitamente que o problema estava resolvido; e o mesmo pensou a maior parte de nós. Por que nos daríamos ao trabalho de fingir, quando dispúnhamos de um casal de verdade?
        -- Então, não vamos perder tempo -- disse eu, voltando a me animar. -- Nayla e Thierry ficam aqui em cima, fora do foco de luz, enquanto nós descemos. Meu plano é prevenir pessoas amigas, que estejam na praça, para que na hora façam bastante barulho, chamando a atenção para o casal aqui no sobrado. Quanto a vocês dois, vou pedir a um músico que fique por perto, para dar o sinal quando for a hora. Uns acordes da “Canção da Lua”, por exemplo. Quando vocês ouvirem, vêm para este ponto, onde eu estava com Tina, e começam o espetáculo. Bem devagar, para que haja bastante suspense. Mas lembrem-se, não devem sair do lugar onde a sombra vai ser projetada; e se ouvirem o sinal de novo, parem o que estiverem fazendo e deem o fora, certo?
       -- Certo -- sorriu Thierry.
       -- Errado -- disse Nayla, em tom cortante. Surpresos, todos nós olhamos para ela, à espera de uma explicação. Não era possível que um medo repentino a houvesse feito recuar.
        -- Não desisti, nem estou com medo -- disse ela, quando fiz a pergunta. -- Simplesmente não quero ficar aqui em cima com Thierry. Não quero mais nada com ele depois do que fez ontem à noite.
        -- Que lindo -- suspirou Thierry, com ar de enfado. -- Assim, retornamos à estaca zero. Ora, deixe de ser estúpida, garota. Enquanto você se faz de difícil, nós perdemos tempo, e talvez acabemos por não conseguir nada. Venha, vamos fazer as pazes de uma vez, e depois Cyprien e os outros vão poder ir cuidar da sua parte.
      Avançou, com a intenção evidente de abraçá-la, mas Nayla se afastou dele, recuando na direção dos lençóis. Lá fora, a multidão protestava em altos brados contra o atraso, e isso aumentou ainda mais a nossa tensão. Naquelas circunstâncias, era quase impossível não apoiar Thierry.

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