sexta-feira, 8 de setembro de 2017

Encontro com a Maga Hobbit


Espero vocês no estande da Editora Draco.

Pavilhão Verde, Estande N 13.

Sábado o dia todo e domingo até as 14 h. 

quinta-feira, 31 de agosto de 2017

Draco na Bienal 2017 : Ana Lúcia Merege estará nos dois sábados



Pessoas Queridas,

Hoje começa a Bienal do Livro. Estaremos lá firmes e fortes, com todo o nosso catálogo de livros e HQs, brindes, descontos progressivos e a presença de vários autores, principalmente nos finais de semana.

Eu irei nos dois sábados, o dia todo, e estarei nos dois domingos de manhã, das 10 às 14 h.

Clique aqui para ver quando estarão os demais autores e apareça para um abraço, dois dedos de prosa e boa LitFan nacional!

segunda-feira, 28 de agosto de 2017

"Magos" : nova coletânea da Editora Draco


Pessoas Queridas,

Depois de um longo tempo de preparação, aqui está a mais nova coletânea organizada por mim para a Editora Draco. E ela tem um tema que eu, particularmente adoro: magos, xamãs e feiticeiros!

O livro traz doze contos, de gêneros que variam da fantasia urbana ao weird west, passando, é claro, pela fantasia épica com elfos e unicórnios. E onze autores e autoras maravilhosos embarcaram nessa aventura comigo, cada qual com seu estilo e sua história para contar: Eduardo Kasse, Simone Saueressig, Erick Santos Cardoso, Karen Alvares, Marcelo A. Galvão, Vivianne Fair, Eric Novello, Liège Báccaro Toledo, Charles Krüger, Melissa de Sá e Cirilo S. Lemos.

"Magos : histórias de feiticeiros e mestres do oculto" estará à venda na Bienal e pode ser encomendado em livrarias ou no site da editora. Basta clicar aqui.

Espero que vocês gostem. E, ah! Para quem já conhece e curte o universo Athelgard ou quer conhecê-lo, é lá que se passa o meu conto! E o Kieran, quando estudante em Riverast, é um dos personagens!

domingo, 20 de agosto de 2017

O Espetáculo Não Pode Parar (Parte 2)


Sem entender, obedeci mesmo assim, vestindo uma túnica velha – não o traje de retalhos – e seguindo meu avô para fora da tenda. Não sabia por que ele precisava de mim, mas nunca poderia imaginar que veria o que vi: a carroça menor, que meu pai usava quando tinha que transportar a bigorna, fora carregada com nossas tralhas de malabarista, e o cavalo treinado para os espetáculos estava ali perto. Aquilo não fazia o menor sentido.
-- Por que carregou a carroça? – perguntei. – Eu já disse que não iria à aldeia.
-- Mas eu vou – replicou ele, passando-me as rédeas. – Pode atrelar o cavalo?
-- Sim, mas... o que vai fazer lá? Alguma compra? Por que levar os apetrechos do espetáculo?
-- Que pergunta! Porque vai haver um, é claro – disse Thiers, sem ligar ao meu espanto. – Você não quer, mas eu não posso deixar de fazer minha parte.
-- Você? Mas como vai fazer com essa perna quebrada?
-- Bom, os braços estão inteiros – respondeu o velho. – Posso ficar sentado na carroça e atirar as bolas, como você faz quando chegamos a uma cidade maior.
-- Mas isso é só para chamar o público – argumentei, dizendo o que ele mesmo me ensinara. – Podem até vir, mas vão querer alguma coisa além disso.
-- Farei o que posso fazer – retrucou ele, com firmeza. – Agora, acabe de atrelar e me ajude, preciso subir aí... e que seja rápido, não quero que ninguém me veja sair do acampamento.
-- Mas... – comecei, mas me calei diante do olhar por baixo das sobrancelhas brancas. Atrelei o cavalo e ajudei meu avô a se acomodar, o que não pareceu causar mais dor, mas ele estava muito desajeitado no banco e com as rédeas. Também seria difícil, com aquela perna, pegar o que ele iria precisar na parte de trás da carroça. Ou seja, nem aquele arremedo de espetáculo Thiers poderia fazer se eu não o acompanhasse, e isso foi mais uma das coisas que ele disse sem usar palavras. Bastava ter olhos para ver.
-- Vou com você – murmurei, a contragosto. – Só para ajudar com as tralhas e a carroça.
Meu avô fez que sim e ficou em silêncio. Deixamos o acampamento, com o mínimo de barulho possível, e rumamos para a aldeia, a meia hora de distância ou pouco mais. Havia uma estradinha de terra cruzando campos onde alguns homens já trabalhavam, curvados sobre as espigas de trigo, foices subindo e descendo ao som de uma cantiga. De certa forma, aquilo era bonito, mas eu nunca pensaria em ser fazendeiro, a vida inteira no mesmo lugar, vendo as plantas crescerem para cortá-las e esperar que crescessem de novo. Também não pensava em ser artesão como meu pai, ter qualquer dos ofícios que vira na cidade ou entrar para o serviço de um templo. Não, eu queria ser um saltimbanco, ou pelo menos era o que tinha pensado até agora. Até ver meu avô cair do cavalo e as pessoas rirem enquanto ele estava no chão. Dor e zombaria. Era justo que o espetáculo terminasse assim?
O sol já tinha subido um pouco quando avistamos a aldeia. Meu avô tirou de uma bolsa um naco de pão e outro de queijo e dividiu comigo enquanto a carroça gemia pelo trecho final. Avançamos ao longo da rua tortuosa que devia ser a única do lugar, margeada por casas de madeira com telhados de palha trançada. Duas ou três eram de pedra, e numa dessas funcionava uma taverna, vimos pelos barris do lado de fora da porta. A rua se alargava numa praça onde havia um poço e um pequeno mercado, nada mais que meia dúzia de bancas onde os fazendeiros dos arredores trocavam produtos. Havia mais gente no mercado, crianças brincando na rua, uma velha sentada na frente de casa, e todas essas pessoas olhavam para nós, querendo saber quem éramos e por que estávamos ali.
Nas apresentações que tínhamos feito até então, era nessa hora que eu, usando a roupa de retalhos, fazia um pouco de malabarismo enquanto meu avô chamava o público. Só que dessa vez eu estava usando uma túnica velha, já sem cor nenhuma de tão desbotada, e Thiers não chamou ninguém, só pediu que eu pegasse algumas bolas para ele na tralha atrás da carroça. Peguei as que estavam mais perto, eram bolas de treino, pesadas, feitas de couro costurado e sem pintura. Acho que eu meio que esperava que ele pedisse as bolas de madeira colorida dos espetáculos. Meu avô, porém, não falou nada, só pôs as rédeas no colo e começou o jogo com as bolas, bem devagar, como se não quisesse chamar público nenhum e só estivesse treinando para não perder a prática. Ao mesmo tempo, começou a assoviar, acompanhando a subida e descida das bolas como os camponeses acompanhavam o ritmo das foices, e acho que foi isso, mais do que o malabarismo tão simples e discreto, que chamou a atenção de quem estava mais perto.
Devagarinho, eles foram se chegando. Primeiro as crianças, que se acotovelavam e cochichavam, excitadas, porque nunca deviam ter visto nem mesmo aquilo. Com elas, claro, vieram mães e avós, depois outras mulheres e finalmente alguns homens, esses sim com jeito de estar esperando um espetáculo de verdade. Meu avô estava tranquilo. Com um gesto de cabeça, que eu já conhecia, ele pediu que eu lhe lançasse uma bola, e depois mais outra, e eu não tinha como fazer isso a não ser calculando a trajetória e atirando aquela bola na hora certa, no lugar exato em que ela passaria a fazer parte da ciranda que girava entre as mãos de Thiers.
Foi desse jeito que, sem perceber, acabei entrando no espetáculo. Ou melhor, fui arrastado, porque algumas pessoas murmuraram com admiração, porque eu não queria ver meu avô fracassar e porque Thiers, aquele velho trapaceiro de quem eu gostava tanto, me fez morder a isca e me enrolou direitinho. Ele não tinha chamado o público nem prometido nada grandioso, mas as pessoas estavam ali, e ele me conhecia o bastante para saber que eu não ia cruzar os braços enquanto ele passava vergonha. Não ia deixar de lançar as bolas, nem pegar as que ele desviava para mim, nem ficar sentado deixando que uma delas, atirada muito alto de propósito, se perdesse e acabasse caindo no chão. Quando dei por mim, estava de pé, atrás de meu avô que se sentava na ponta do banco, as cinco bolas girando em minhas mãos para depois voltar às dele, o círculo ampliado, a harmonia. O público aplaudiu, e, pensando que poderia entusiasmá-los ainda mais, mantive os olhos no que estava fazendo e pisei cheio de confiança no ombro de meu avô.
E, no instante seguinte – plaft!
O som diz tudo, não, senhoras e senhores? Serve para o estalo da perna de Thiers, para o som da minha queda dos ombros dele, para o barulho das bolas de couro batendo no banco da carroça. Até hoje, anos passados, não sei o que aconteceu, mas imagino que meu avô tenha se apoiado na perna por uma espécie de instinto, para manter o equilíbrio enquanto eu subia; o osso quebrado cedeu, e a dor repentina o fez se encolher. E com isso eu caí, e foi como acordar com um choque, o mundo de repente virado do avesso; e no instante mesmo em que isso acontecia eu escutei o ooooooh da plateia, de susto e pena e também decepção, como se a gente houvesse deixado de cumprir uma promessa.
E risos. Ah, sim, houve risos, talvez alguns inocentes, gente que achava que o tombo era parte da apresentação, mas outros de deboche, como tinham sido as risadas diante da queda de meu avô. A diferença é que daquela vez ele estava no chão, e o cavalo fugira desembestado, e a multidão em volta me impedia de ver o que tinha acontecido -- ao passo que com o plaft eu despertara e via tudo claro, como nunca antes. Sabia que Thiers estava bem, a não ser pelo medo de ter falhado comigo e de me ver recuar para sempre; sabia que o cavalo estava ali e o que ele podia fazer quando não lhe atiravam pedras; sabia que as pessoas estavam rindo, que algumas eram más e estúpidas e nada do que eu fizesse mudaria isso, mas, acima de tudo, sabia, agora com certeza, que o espetáculo precisava ir em frente. Mesmo aos trancos e barrancos, a vida precisava ir em frente. E, nos dois casos, eu tinha de agir antes que fosse tarde demais.
-- Muita calma, senhoras e senhores! Foi só um pequeno acidente! – exclamei, passando ao dorso do cavalo, sem descer da carroça; isso já causou alguma impressão, e eu aproveitei para continuar. – Meu avô, Thiers de Pwilrie, está machucado e não pode atuar, mas ele me ensinou duas ou três coisas que vou mostrar a vocês. O senhor, aqui na frente -- acenei para um homem novo e forte, que parecia ser boa gente, porque não tinha rido e segurava uma garotinha pela mão --, pode soltar os varais da carroça? E vocês, não vão embora! Fiquem um pouco mais!
-- Isso mesmo, fiquem! – Era meu avô, sua voz forte suplantando a dor que devia estar sentindo. – Fiquem e vejam o que um cavalo bem treinado pode fazer... O espetáculo mal começou!
E, a não ser por duas ou três pessoas, todos ficaram. E, sim, tivemos espetáculo. Não tão bom quanto aqueles que fazíamos antes -- não era muito o que eu tinha para mostrar --, mas fiz o melhor que pude, e meu avô me incentivou, e todos aplaudiram vendo-me girar na sela, soltar as rédeas e me equilibrar de pé enquanto o cavalo galopava em círculos. A carroça ficou no meio, e Thiers voltou a fazer malabarismo, e, quando eu tinha feito tudo que sabia, nós tornamos a atirar as bolas em dupla. O público riu bastante, dessa vez um riso bom, quando foi o cavalo que segurou o chapéu entre os dentes para pedir contribuições. Riram ainda mais quando um sujeito se negou, e o animal bufou pelas narinas, pois não sabiam que eu havia tocado suas costelas com o calcanhar. O chapéu acabou ficando com um peso considerável, e ainda ganhamos um queijo do homem que desatrelou a carroça, um presente por deixar sua filhinha montar e dar algumas voltas, a passo, segurando minha cintura. O presente maior, no entanto, não caberia em nossas mãos. Estava em meu coração e nos olhos de meu avô, e se multiplicou de várias formas quando voltamos ao acampamento com a comida que tínhamos comprado para a família.
Eu poderia falar mais, me estender em episódios alegres e tristes, contar que Thiers nunca pôde voltar a fazer acrobacia e como encontrei um mestre que me ensinou várias outras artes. Mas essa seria uma longa história. Assim, digo apenas que meu avô sempre estará presente, que posso vê-lo em cada fracasso e em cada vitória, em cada riso e cada aplauso do meu respeitável público.
Pois ele vive em mim, assim como eu viverei em meus aprendizes.
E o espetáculo nunca terá fim.

*****

Parte 1.

Que tal conhecer um descendente do Zemel, que inclusive leva o nome do seu avô, Thiers? É só clicar aqui.

Aqui no blog do Castelo vocês conhecem o futuro mestre do Zemel.

E... É isso, pessoal. Espero que tenham gostado dos saltimbancos de Athelgard!

Até breve, com mais novidades!

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

O Espetáculo Não Pode Parar (parte 1)

Este conto se passa em Athelgard, só que no País do Norte, ao passo que os personagens são gente do Leste. Mais precisamente do Povo Alto, originário de Pwilrie, que esteve muito tempo sob o domínio de outra cidade, fazendo com que boa parte dos habitantes originais partisse e se tornasse nômade. Muitos ganham a vida como artesãos, e também há vários saltimbancos, como a família deste conto.
Zemel, nosso pequeno herói, aparece em várias histórias, criança, jovem e adulto. Aqui ele conta um episódio de sua infância e uma valiosa lição que aprendeu com seu avô -- seu primeiro mestre. Espero que gostem!
O ilustrador deste conto é o talentosíssimo e polivalente Vilson Gonçalves.



Sempre que vejo um cavalo se assustar, eu me lembro do meu avô. Foi por causa de um susto desses que ele quebrou a perna, e isso acabou com seus dias de saltimbanco. Meio que acabou. Talvez, pensando bem, se possa dizer que não; que ele continuou, de certa forma, fazendo o que fazia desde criança e que começou a me ensinar quando eu não tinha mais que dois ou três anos.
Ah, não, os cavalos não; isso viria um pouco mais tarde. Acrobacia, para começar. Os saltos, o equilíbrio, a parada e o caminhar sobre as mãos, coisa que sempre fez sucesso e garantia algumas moedas nos nossos chapéus. Minha mãe costurava para mim uma roupa toda feita de retalhos, o mais colorida possível, me dava um beijo e alguma coisa para comer quando tínhamos, e lá íamos nós, eu e meu avô, para tentar a sorte nas aldeias e nas praças das cidades maiores. Lardale, Valence, Leighdale, até mesmo Siberlint, à sombra dos Penhascos Gelados: minha família passou por todas, e em todas fizemos espetáculos. De vez em quando visitávamos a aldeia onde nasci – num estábulo, vejam só, um estábulo vazio que conseguimos emprestado, porque fazia frio demais para podermos dormir nas tendas –, e então eu escutava mais uma vez a minha própria história, como minha mãe não tinha leite nem meu pai trabalho, como aqueles camponeses também muito pobres ajudaram nossa família e como, em agradecimento, me deram o nome da aldeia. É isso mesmo, senhoras e senhores: no País do Norte existe uma aldeiazinha chamada Zemel. Pequena e sem graça, assim como eu, e já passou por muitas guerras, invernos rigorosos e pragas do feno. Mas resiste. É o mesmo que eu espero que um dia se diga sobre mim.
E era assim também que eu pensava no meu avô. Por volta dos sessenta anos, ele era alto, cabelo e barba como neve, o corpo cheio de músculos, tendões e cicatrizes. Sempre tinha sido artista, primeiro em Pwilrie, sua cidade, e noutras terras do Leste, depois com o grupo que formou para percorrer o País do Norte, levando espetáculos de acrobacia, malabarismo, dança, música e pequenas peças de teatro. Suas filhas cresceram nas tendas desse grupo nômade, que aumentava e diminuía conforme as pessoas o deixavam ou se juntavam ao longo do caminho. Por fim, numa cidade arrasada pela guerra, minha mãe conheceu meu pai, que liderava seu próprio grupo de viajantes; um dos que estavam com ele agradou a minha tia, e meu avô, que era viúvo já fazia uns bons anos, acabou se despedindo dos velhos amigos para seguir em companhia das filhas e dos genros.
Uma renovação bem-vinda, todos dirão. Novas pessoas, novas ideias, novos números. Assim seria, se os genros também fossem saltimbancos.  Acontece que eram artesãos. E entre meu pai, o ferreiro que percorria as fazendas oferecendo seus serviços, e o marido de minha tia, que consertava panelas e as vendia no mercado, Thiers de Pwilrie demorou a ter um novo companheiro de espetáculos.
Em minhas memórias mais antigas, não estou brincando com as outras crianças do grupo, não estou observando o trabalho do meu pai na forja – como era exigido do meu irmão mais velho – nem com minha mãe, costurando e mexendo panelas, como minha irmã fazia desde pequena. Em vez disso, visto a tal roupa de retalhos e executo vários saltos, um dos quais me leva aos braços erguidos de meu avô. Eu apoio o topo da minha cabeça na sua, asa de corvo sobre campo de neve, e fico com as pernas no ar, eretas, abertas em tesoura, o que for preciso para manter o equilíbrio. Monto nos ombros dele para fazer malabarismo. E, em memórias mais recentes, fico de pé sobre o dorso de um cavalo, ainda sem saber muito mais do que me equilibrar durante o galope, mas o que faço já parece uma pequena proeza aos olhos dos camponeses. Ela os prepara para a exibição de Thiers, esse sim, um verdadeiro acrobata equestre, que gira sobre a sela, se apoia num pé só e sobre as mãos e arranca da plateia gritos e aplausos.
Eu me lembro de chapéus abarrotados de moedas, de camponeses pagando a diversão com ovos e repolhos, de rapazes aceitando o desafio de se manter em pé sobre a sela, o cavalo a passo lento, andando em círculos ao redor de meu avô, que segura a ponta do cabresto nas mãos. Lembro-me de meninos maiores que eu me olhando cheios de inveja. E, com mais clareza – porque eu já tinha idade suficiente, quase oito anos --, lembro-me de quando a inveja passou de todos os limites, e um grupo de garotos assustou o cavalo, enquanto alguém oculto pela multidão lhe atirava uma pedra.
Ainda guardo em minha memória cada som, cada cor, cada detalhe daquela cena. O animal empinou, um relincho de dor e de susto, o sangue escorrendo do focinho enquanto meu avô foi ao chão. Caiu de muito mau jeito, sobre a perna torcida, e não conseguiu se levantar nem para acalmar o cavalo, que saiu desembestado praça afora, nem para me resgatar do monte de gente que se precipitava sobre ele, passando por mim, tão pequeno e quase invisível diante daquela comoção. Por sorte, alguém deteve o cavalo e foi honesto o bastante para devolvê-lo, e um mercador robusto me viu chorando apavorado e me pegou no colo antes que a multidão me pisoteasse.
Entre gritos e exclamações de piedade, apareceu um cirurgião, que fez o possível para arrumar o osso quebrado na perna de Thiers. Não pediu nada pelo trabalho, assim como o fazendeiro que nos levou para o acampamento em sua carroça, mas, apesar de toda a ajuda que tivemos, eu não conseguia me esquecer dos risos e da zombaria que acompanharam a queda. Não foram só as pessoas que tramaram para derrubar meu avô. Muitas outras tinham achado graça, como se fosse engraçado um velho cair do cavalo e ficar gemendo no chão com a perna quebrada. Isso me machucou demais -- de certa forma, também me quebrou. E, por algum tempo, não fui capaz sequer de falar no assunto.
Nossos planos eram ficar na cidade por apenas mais um dia ou dois, mas, com meu avô sentindo tantas dores, prolongamos a estadia por quase dois quartos de lua. Com isso perdemos a data da feira de lã que haveria na cidade seguinte, e meu pai estava numa maré de azar: além de não encontrar os mercadores vindos para a feira, cujos cavalos poderiam precisar de ferraduras novas, não conseguiu trabalho nas fazendas e aldeias pelas quais passamos. Nosso dinheiro estava perigosamente no fim. Para complicar, minha mãe amamentava meu irmãozinho e minha tia estava grávida, demandando cuidados, isso sem falar em Thiers, que ainda estava usando talas e mal conseguia andar com a ajuda de uma muleta. Mesmo assim, quando acampamos perto de uma aldeia pequena, ele foi falar comigo, disse que eu devia tentar a sorte, fazer um pouco de malabarismo e acrobacia em troca de algo para comer. Foi o mesmo que falar com uma árvore.
-- Eu não vou mais, vovô – respondi, a cabeça baixa. Ele me olhou espantado, quis saber o motivo, ficou alguns instantes em silêncio quando respondi. Então, com voz e jeito mais duros do que eu esperava, disse que a vida era assim mesmo, às vezes você cai e se machuca; que alguns vão rir, mas outros podem ajudar, e que ter medo de fazer os espetáculos era o mesmo que ter medo da vida. Na hora não respondi, e acho que ele mesmo percebeu que tinha sido duro, porque logo depois me abraçou pelos ombros, daquele jeito companheiro, e disse que eu pensasse bem e que iríamos conversar de novo no dia seguinte.
E eu pensei, ou melhor, fiquei o resto do dia com aquilo na cabeça, me incomodando, me inquietando, me fazendo sentir pena e raiva de mim mesmo. Incomodou ainda mais quando vi meu pai carrancudo e preocupado, quando ouvi meu irmãozinho chorar, quando a refeição da noite foi uma sopa rala com raros pedacinhos de legumes. Por cima de tudo isso, eu via que meu avô me observava, seus olhos de falcão por baixo das sobrancelhas brancas, dizendo o que as palavras não precisavam dizer. E mesmo assim eu continuei calado no meu canto.
De manhãzinha, após uma noite sem sonhos, acordei ouvindo os roncos da minha própria barriga. Meu irmão dormia ao meu lado, a sono solto, mas meu avô não estava na tenda, e eu ia começar a estranhar quando ele entrou, a cara torcida de dor, apoiado num bastão de carvalho.
-- Então, Zemel? – sussurrou, para não acordar o neto mais velho. – Pensou melhor? Vai fazer o espetáculo?
-- Vovô, e-eu acho que... que ainda não sei...
-- Muito bem. – Respirou fundo: tomara uma decisão. – Vista-se, de qualquer jeito, e venha comigo. Vou precisar de sua ajuda.

***

Zemel é o herói do meu livro Pão e Arte, publicado pela Editora Escrita Fina, que depois foi comprada pela Zit. Pode ser encomendado em livrarias ou na Estante Virtual.

            Neste blog vocês conhecem o cara que viria a ser o futuro mestre do Zemel.




Parte 2.

segunda-feira, 17 de julho de 2017

O Eterno Retorno (Parte 3)

O fio de lã torcida estava disfarçado por folhas tão vermelhas como ele, mas mesmo assim visível a olhos atentos. Estava amarrado a um galho baixo, como um lembrete – um jeito de marcar uma trilha, de não se perder, como todas as crianças da tribo eram ensinadas desde cedo. Só que nenhuma criança da tribo, ao que ela se lembrava, usava aquele fio vermelho para amarrar as tranças ou costurar as roupas, a não ser aquela que Kyara conhecia tão bem.
Anna...! O que ela podia estar fazendo ali?
Como um mapa que brotasse da terra, os caminhos da floresta se desenharam na mente de Kyara. A trilha onde as crianças faziam coleta ficava longe, não se ligando, de forma alguma, ao Passo das Lebres. Anna teria visto alguma coisa que a assustou, fazendo-a fugir? E, se tivesse sido isso, por que não correra para junto da tribo e sim na direção oposta? E os outros – Tyshen, Lila, o pequeno Torak, que andava atrás de Tyshen e ecoava tudo que ele dizia – estariam com ela?
Aflita até os ossos, mas tentando manter a calma da qual tudo dependia, Kyara procurou os rastros dos pequenos pés calçados em mocassins. Nada: a chuva os tinha lavado, como lavara as pegadas deixadas pelo homem a partir dali. Ela se ergueu de novo, torcendo as tranças encharcadas, e tentou pensar. Anna talvez houvesse corrido sem ver para onde, mas depois se detivera para amarrar o fio, e isso era bom sinal: o que quer que a tivesse assustado acabara se distanciando, ao menos por algum tempo. Os outros também deviam estar bem, mas o provável é que estivessem todos perdidos, ou no mínimo confusos quanto às direções. Não costumavam vir para aqueles lados da floresta. Kyara caminhou ao redor da vereda, tentando achar mais sinais, e, não os encontrando, decidiu-se pelo caminho mais visível, o que ela teria seguido se fosse uma criança andando na chuva. O que mais poderia fazer?
Ajude-me, Lobo. A elfa se dirigiu ao Espírito que protegia sua Casa. Que Anna e os outros estejam em segurança, e que eu possa encontrá-los, ou que eles encontrem o caminho de volta. Sua voz era apenas um murmúrio, quase sumindo nas palavras finais ao se lembrar de como, anos atrás, ela fizera uma prece muito semelhante. Pedira ao Guardião que a ajudasse a achar o cervo que vinha rastreando, apesar da nevasca que a alcançara no caminho, apesar do cansaço de dois dias sem dormir e de estar fora do território da tribo. Em vez do cervo, porém, tinha encontrado aquela cabana, e nela estava Raymond de Pwilrie com seus olhos negros e belas mãos fortes. E dessa noite em diante sua vida nunca mais fora a mesma.
Kyara sacudiu a cabeça, espadanando água para os lados. Tinha de se concentrar no que importava, em achar Anna e as outras crianças e deixá-las a salvo antes de voltar a rastrear o caçador humano. A trilha que seguia, porém, era uma entre várias possíveis, e nada, a não ser sua intuição, garantia que fosse a certa. Ela se deteve, pensando em Lontra, que teria simpatia por uma avó em busca da neta, em Corvo, que mostrava novos caminhos, mas, acima de tudo, pensando sempre e ainda com mais força em Lobo. Precisava dele, e as crianças também, para que lhes desse coragem. Como elas deviam estar, pequenas, ainda inexperientes, perdidas em meio àquela chuva e com um homem andando pela floresta?
E de repente, como se o Guardião lhe desse um sinal, o som de uivos ecoou no ar. Ecoou por toda a floresta, rolando sobre as copas das árvores, mostrando-lhe a direção da qual provinha: o sudoeste, onde ficava a antiga trilha dos cervos, que a tribo usava muito pouco, mesmo quando ela era jovem. O caminho que a levara àquele encontro e a tudo que se seguiu. Kyara franziu a testa, sem acreditar que Lobo estivesse pedindo aquilo, e esperou um pouco, só para ouvir o som se repetindo ainda mais claro. Então, balançando a cabeça, rosnou uma imprecação para si mesma e marchou rumo ao lugar que preferiria não ter que ver de novo.
A chuva apertou por uns momentos, depois diminuiu, passando a cair mansamente sobre as árvores e a trilha. Kyara andava rápido, sem procurar por rastros, apenas seguindo os uivos que se repetiam de tempos em tempos. Aos poucos, embora tanto tempo houvesse decorrido, foi reconhecendo os marcos do caminho, pedras cobertas de limo antigo, árvores anciãs, uma nascente oculta entre arbustos onde os cervos se detinham para beber. Alguns, às vezes, ficavam presos ali pelas galhadas; ela ficara um pouco frustrada, da outra vez que passara ali, por não encontrar nenhum, embora soubesse que seria improvável um caçador da tribo chegar antes dos lobos e raposas. Agora, também, não havia sinal de cervos perto da nascente, nem pegadas de bota ou de mocassim, mas... o que eram aqueles rastros pesados, aquelas folhas amassadas ao redor dos arbustos? O que passara por ali havia apenas uns momentos, pelo que dizia sua experiência?
Um javali. Ela respirou fundo: nem precisava examinar o rastro, o cheiro dizia tudo. Um javali passara pela trilha, e devia ser um dos grandes. Kyara pegou a faca na bolsa de caça e foi naquela direção, as orelhas empinadas, atentas a qualquer ruído que pudesse indicar a presença do animal. Então, os lobos tornaram a uivar, e o estalo de gravetos partidos a fez olhar por cima do ombro, e todos os seus sentidos se aguçaram ao distinguir a mancha azul se movendo em meio às árvores.
-- Ei, você! Tenha cuidado! – gritou, sabendo, de alguma forma, que encontrara o dono das armadilhas e que ele estava em perigo. O homem se voltou, parecendo desorientado, e deu uns passos incertos em direção à elfa, deixando-a vislumbrar cabelos e barba brancos e um rosto vincado por inúmeras rugas. Ela arregalou os olhos, espantada -- e, no momento seguinte, um javali saiu do bosque de carvalhos à direita e partiu com toda a fúria para cima do caçador.
Kyara apertou a faca na mão e se precipitou sobre o animal. Não refletiu, não ponderou, apenas agiu. O velho correu, mas, ao contrário da elfa, era lento demais: o javali estava prestes a alcançá-lo quando Kyara saltou sobre ele empunhando a faca de caça. Pego de surpresa, o animal caiu, mas na mesma hora girou para o lado, quase conseguindo prendê-la sob o seu peso. Ao mesmo tempo, soltou um ronco forte e tentou mordê-la, uma das presas chegando a arranhar sua orelha antes que ela o golpeasse com força. Mirava o coração, e se o atingisse teria liquidado de uma vez o animal, mas a lâmina de obsidiana resvalou, indo se cravar num ponto mais abaixo. Então, antes mesmo que Kyara pensasse no próximo movimento, o som de alguém correndo pela relva molhada cresceu em seus ouvidos, e o javali berrou e estremeceu com o baque de um corpo, ainda que pequeno, se abatendo contra suas costas.
-- Minha faca, avó! Pegue! – gritou Anna, estendendo-a para ela pela lâmina. Era uma temeridade, mas Kyara não tinha tempo para pensar: agarrando o punho da faca, ela golpeou o peito exposto do animal, o metal forjado pelos homens entrando com facilidade, uma, duas, três vezes, enquanto em seu espírito ela pedia ao javali que a perdoasse. Não queria ter feito aquilo, mas não pudera deixá-lo atacar, talvez ferir de morte aquele homem velho, que jamais teria conseguido apanhá-lo num laço e que ele não iria usar como alimento. Kyara, por sua vez, honraria a morte do animal, aproveitando cada parte dele que pudesse para o sustento da tribo e cantando para que seu espírito seguisse em uma nova jornada. Era o dever de todo caçador da Floresta dos Teixos.
Mas isso – diante das circunstâncias – teria que esperar.
-- Você está bem? – Sua voz ecoou a de Anna, dois pares de olhos oblíquos arregalados, um preso dentro do outro enquanto elas se levantavam, ilesas, com as tranças encharcadas e as roupas sujas de lama.
-- Estou bem – respondeu Kyara, enquanto a menina apenas fazia que sim. – E os outros? Tyshen, Lila, Torak... Onde eles estão?
-- Voltaram para casa, levando as bagas e cogumelos. – Baixou a cabeça, as faces vermelhas. – Você disse que, se eu achasse a cabana sozinha...
-- Então foi isso que aconteceu? – Kyara a encarou, sem fôlego. – Você não se assustou com alguma coisa, com o javali, com... com ele?
Indicou com o queixo o velho caçador, que se encostara ao tronco de um carvalho e tremia da cabeça aos pés. Anna negou com um gesto. Ao contrário do homem, não parecia ter medo, apenas curiosidade e... sim, e uma certa empatia. É o povo dela, afinal, pensou Kyara, dolorosamente. Não se podia esconder uma verdade que saltava aos olhos.
-- Tudo bem. – Respirou fundo, passando sobre o corpo do javali e se acercando daquele homem trêmulo. – Depois você me explica tudo direitinho. Agora, vamos saber o que...
-- Não, por favor. Moça... – ele balbuciou, engolindo em seco. Kyara levou um dedo aos lábios, fazendo-o calar. Depois, olhou-o nos olhos.
-- Não sou nenhuma moça – resmungou. – Provavelmente sou mais velha do que você, se quer saber. Pegue essa faca que estou vendo no seu cinto e nos ajude com esse javali. Vamos pegar o que der para carregar e sair da chuva. Se as coisas forem como penso, estamos muito perto de onde poderemos secar as roupas e esquentar os ossos.
*****
Pouco mais tarde, com a carne assando na grelha da lareira e a chuva gotejando pelo teto da cabana arruinada, avó e neta ouviram a história do velho homem. Não era um caçador, trabalhara a vida toda como carpinteiro; não armava laço algum desde os tempos de garoto, o que o tornava semelhante àqueles que Kyara e Raymond poupavam à justiça dos nobres. Ele tentara de novo agora, pensando em pegar algum animal pequeno e se fortalecer para seguir viagem. Pois nunca pretendera ficar, explicou, e não havia por que supor que estivesse mentindo. Jamais quisera entrar no território da tribo, apenas cortava caminho pela floresta, querendo chegar logo em Lardale, onde tinha parentes. Uma viagem mais curta, que saíra de mais perto e terminaria antes – mas, nessa etapa, em tudo semelhante à que trouxera Raymond até a cabana.
A história provocou recordações tão doces quanto dolorosas, mas Kyara conseguiu deixá-las de lado por algum tempo. O velho enchera a barriga de carne e se deitara, coberto pela manta de pele que encontraram num canto, e a menina se aconchegara nos braços da avó, o fogo acabando de secar as roupas no corpo enquanto conversavam em voz baixa. Anna contou que não resistira à vontade de ver a cabana, que fazia uma boa ideia de onde era a trilha e se lembrara de marcar seu caminho para a volta. Num dado ponto do percurso, ouvira lobos, que a alertaram sobre a presença do caçador humano; ela subira numa árvore para não ser avistada e acompanhara lá de cima seus últimos movimentos, até que, para sua surpresa e aflição, visse surgirem quase ao mesmo tempo sua avó e o javali enfurecido.
-- Aí eu acho que esqueci o que você ensinou. Esqueci toda a prudência – admitiu, encolhendo os ombros. – Só queria que você não ficasse machucada. Mas você também nem pensou nisso, quando partiu para cima do javali, não é?
-- É. Não foi prudente, mesmo. E eu teria me machucado, acho, se não fosse sua ajuda. – Sorriu, apertando a menina contra si. – Você não devia ter feito o que fez. Nada do que fez, aliás, desde que se separou dos outros, e ainda vamos conversar melhor sobre isso. Mas se saiu muito melhor do que eu esperava.
-- Obrigada. Mas, avó – Anna parecia um pouco inquieta --, é assim que os homens ficam quando são velhos? O livro de Maryan mostra alguns de cabelo branco, e ela disse que era quando envelheciam, mas não me falou que ficavam desse jeito, fracos, com as pernas tremendo...
-- Ah, mas nem todos ficam. Seu avô, por exemplo. – Kyara se lembrou de uma onda de cabelo prateado, de um sorriso realçado pelos vincos de um rosto másculo e moreno, e se encheu de convicção. – Ele já era velho quando morreu, não tanto quanto esse aí, mas ainda era forte e ágil. Tanto que o levaram para ajudar a defender o castelo, ele morreu no alto da muralha, de arma na mão. E, além de forte, era bonito – segredou, movendo as sobrancelhas para que a neta risse. – Foi bonito até o fim, e eu o amei do mesmo jeito até o fim.
-- Eu sei, mas, avó... Eu também tenho sangue humano. Sou quase humana. – Levou as mãos às próprias faces, os olhos cheios de uma súbita angústia. – Será que eu vou ficar desse jeito? Eu posso ser como meu avô, mas também pode ser que...
-- Não! Escute bem, minha Anna. – Kyara pegou as mãos dela e as abaixou, olhando-a com um amor tão intenso que quase machucava. – É verdade, você é quase humana, mas isso não muda o que eu sempre lhe disse. Você é filha da nossa tribo, leal, inteligente, corajosa. Logo vai crescer e se tornar uma mulher forte e sábia. Não se preocupe com o futuro muito distante, se um dia vai ficar velha, se sua pele vai enrugar ou o cabelo ficar branco. Isso é apenas o lado de fora! Honre os Guardiões, cumpra seus deveres e, sempre que puder, alegre seu espírito e o faça dançar. E, lembre-se, haja o que houver, você é e sempre será uma de nós. Promete não esquecer?
Anna a encarou, o rosto muito sério, e fez que sim com a cabeça. Kyara tornou a abraçá-la, depois a soltou, pretextando ter que virar as tiras de carne sobre a grelha. Havia muito mais que poderia dizer, mas ela preferiu não se antecipar às perguntas, porque sabia que o tempo e a vida trariam as respostas necessárias. Por ora, bastava ficar ali, acalentando as memórias de Raymond, enquanto Anna, depois de alguns momentos a olhar fixamente para o fogo, respirava fundo, abria a bolsa de caça e confiava pensamentos, dúvidas e sonhos ao seu caderno.
Ali, naquela cabana onde se uniam as trilhas do passado e do futuro.
Ali, onde as sombras sussurravam que uma nova jornada em breve iria começar.

*****
E o conto chega ao fim! Espero que tenham gostado e deixem seu feedback,  ele é muito importante!!


Parte 1.
Parte 2.

Para quem gostou da Anna criança, sugiro o livro Anna e a Trilha Secreta, onde ela encontra os Espíritos Guardiões da Tribo.

Aqui no blog do Castelo você pode ler um conto em que a Anna é ainda mais novinha, centrado em Maryan e Zendak, clicando aqui.

Para um conto da Anna aos 14 anos aprendendo a caçar, cliquem  aqui.

E continuem com a gente. Em breve teremos outro conto, desta vez de uma dupla de avô e neto muito talentosos!

quarta-feira, 12 de julho de 2017

O Eterno Retorno (parte 2)

– Eu vou montando a história aos poucos, e ela vai ficando mais completa a cada vez que você conta. É que tem coisas que eu demoro para imaginar, como os homens, por exemplo. Eu nunca vi nenhum a não ser nos livros de Maryan.
-- Pois é mais do que suficiente – replicou a avó, em tom brusco. – Os homens... Bem, olhados um a um, nem sempre são maus. Seu avô era muito bom, e havia outros assim, não vou negar. Mas, quando você vive nas aldeias deles, começa a ver como podem fazer coisas ruins. Principalmente as guerras. E mesmo sem elas há muita ganância, injustiça, maldade... Não, você não perde nada se não conhecer os homens, ou se deixar para conhecê-los quando for mais velha.
-- Sim, mas, avó, se ao menos a gente fosse até a cabana...
-- Você não ouviu o que eu disse? É longe demais, e pode ser que homens estranhos ainda passem por lá. Um dia você vai, mas não agora.
-- Um dia? Quando?
-- Quando... Quando não depender de mim e puder ir sozinha – disse Kyara, querendo encerrar a discussão.
Anna pareceu refletir um pouco, depois assentiu e pescou uma coxa rosada de dentro do pote. Kyara fez o mesmo com um naco do peito da ave. As duas comeram em silêncio, tirando cada pedacinho de carne dos ossos e usando colheres de madeira para pegar os legumes no caldo. Estavam terminando quando Tyshen, o primo mais próximo de Anna em idade, chegou acompanhado por várias crianças pertencentes à Casa do Lobo.
-- Ainda estão comendo? Aposto que foi a Anna que se atrasou fazendo o almoço – implicou ele, como era seu costume.
-- Você é que é apressado! – retrucou a menina. – Apressado e guloso. Quando formos colher bagas, não vou deixar você ir na frente. Se você for, tudo que acharmos nos arbustos vai parar na sua barriga!
Kyara sorriu, vendo-os trocar as farpas de sempre enquanto Anna acabava de comer. As outras crianças entraram na cabana, sem cerimônia – coisa que não existia na tribo --, e se distraíram bisbilhotando tudo lá dentro. Por fim, o grupo se reuniu e se preparou para a excursão de coleta, para a qual levavam cestos de junco e bolsas de palha a tiracolo.
-- Até mais, Kyara! – exclamaram as crianças.
-- Até mais tarde, avó – disse Anna, jogando um beijo que ela retribuiu com um aceno e um breve sorriso. Estava ocupada livrando-se dos restos do almoço, das cinzas da fogueira, dos pensamentos sobre o passado e sobre Raymond de Pwilrie. Artista ambulante, soldado involuntário, guarda-caça que assoviava chamando os pássaros e enchia os bolsos de nozes para dar aos esquilos. Ele teria gostado de conhecer aquela neta inteligente e curiosa, sonhadora e às vezes desconcertante, como ele próprio tinha sido a vida inteira. Talvez se saísse até melhor do que Kyara para lidar com ela.
A elfa deixou escapar um suspiro e entrou para guardar o pote e as colheres lavadas. A cabana estava limpa, embora um pouco desarrumada após a visita das crianças. Era pequena e aconchegante, alegrada pelos desenhos que Anna prendera às paredes. Uma paisagem com o rio da Lontra, um pássaro pernalta, os rostos de Kyara, Maryan e Zendak. O último desenho representava os Espíritos Guardiões da tribo, Lobo, Lontra e Corvo, os três muito sérios e majestosos, circulados por auras de tinta verde. Kyara correu os dedos sobre o papel, sentindo orgulho e uma certa nostalgia: às vezes ela se esquecia de notar, mas Anna estava crescendo rápido. Em poucos anos teria o sonho ou a intuição que lhe diria qual a sua Casa, aquela à qual seu espírito estava ligado. Por enquanto contava como protegida do Lobo, já que essa era a Casa da avó. Zendak supunha que isso seria confirmado, mas não dera certeza: a menina era alegre e amorosa como as lontras, esperta e criativa como os corvos, ambos os Guardiões poderiam reclamá-la. Mas Kyara estava convencida de que, no fim, sua neta provaria ser antes de tudo corajosa e leal.
O céu estava encoberto quando ela saiu da cabana. Não tinha nada que a ocupasse, nem peles para tratar, nem carne para pôr no defumadouro. No entanto, ficar ali sozinha não lhe traria nada além de lembranças, por isso a elfa decidiu seguir a sugestão de Anna e ver se alguma coisa caíra naqueles laços malfeitos. E, quando souber quem os armou, vou tentar ajudar, ela pensou, enquanto regressava à floresta. Devia ser alguém bem jovem, talvez uma criança querendo impressionar os pais ou o parente que a ensinava a caçar. E um conselho vindo de alguém como Kyara seria mais que bem-vindo.
Sem pressa, ela deu uma volta por trás da colina próxima à cabana, onde costumava deixar suas próprias armadilhas nas luas de inverno, e chegou a uma trilha íngreme, por onde se cortava caminho até o lugar que chamavam de Carvalho Fendido. Nele se erguia uma árvore milenar, cujo tronco fora dividido ao meio por um raio; as duas metades haviam crescido e estendido seus galhos para o leste e para o sul, e esse era o início de duas trilhas quase invisíveis. Uma ia dar ao local dos laços desajeitados, enquanto a outra desembocava no lugar onde Kyara tinha estado uma única vez.
E, no que dependesse dela, não voltaria jamais.
Passos rápidos, a elfa seguiu a trilha que ia para o leste. De longe, viu um dos laços, agora desarmado, mas o animal que fizera aquilo escapara quebrando os galhos de um arbusto próximo. Na verdade, nem chegara a ficar preso, como Kyara constatou ao chegar mais perto. Apenas passara por cima da armadilha e a desmontara. Tinha peso e força bastante, pois suas pegadas denunciavam um cervo de bom tamanho. O caçador ia ficar frustrado quando desse com aquilo.
A segunda armadilha estava intocada, mal disfarçada num monte de folhas e fácil de desarmar. Era coisa de criança, não havia dúvida. Restava saber qual delas se aventurara tão longe. Kyara considerou as mais ousadas e inconsequentes dentre as que conhecia, pensando ainda em ajudar, mas também recomendar que tivessem cautela. Tinha alguns nomes em mente ao chegar à terceira armadilha, também intacta, que apenas olhou antes de seguir em frente – e de se deparar com algo que fez seu coração dar um salto.
Uma pegada. Não a de um animal, não a de um elfo de sua tribo, que estaria usando um mocassim, mas a inequívoca pegada de um humano, um enorme pé largo calçado numa bota com a beira interior roída. Não havia engano possível, pois ela vira aquilo muitas vezes, rastreando caçadores furtivos na floresta junto à qual vivera com Raymond – fazendo o trabalho dele, o que todos pensavam que ele fazia, quando Raymond estava mais que contente por ficar na choupana cozinhando, remendando as roupas da família, ninando a filha com canções do Leste ou, quando ela cresceu um pouco, contando histórias sobre reis saltimbancos, feiticeiras bondosas e navios mágicos que viajavam entre as estrelas. Era com relutância que denunciava as transgressões descobertas por Kyara – aqueles homens e rapazes temerários que caçavam nas terras do senhor, às vezes por simples ousadia, mas com frequência porque tinham fome e muitas bocas para sustentar. Teria sido um deles, agora, que entrara no território da tribo?
Não é uma criança. Kyara e Raymond jamais denunciavam os meninos da aldeia que pegavam pássaros e lebres, pois sabiam que um castigo duro demais os esperava. Tinham livrado alguns homens também -- os muito jovens, os muito desesperados, os que não tinham chegado a apanhar nenhum animal --, mas não os deixavam ir embora sem ao menos uma advertência. Da mesma forma, Kyara, como anciã da Casa do Lobo, tinha por dever encontrar o dono da pegada e fazer com que partisse, mesmo que não pegasse nada com aquelas armadilhas toscas. Antes que ele avançasse mais e mais pela floresta e achasse as cabanas da tribo. Antes que desistisse de conseguir caça e fosse à cata de frutas. Antes que desse com as crianças que estavam na trilha... e, acima de tudo, antes que chegasse perto de sua Anna.
Um pingo grosso caiu em seu nariz. Ela olhou para o céu, onde as nuvens escuras se adensavam, e considerou suas opções. A neta, é claro, estava acima de tudo, mas as crianças não costumavam demorar na coleta, e a pegada apontava para outra direção, de forma a tranquilizá-la nesse sentido. Voltar à cabana para se munir de um arco e algumas flechas seria prudente, ou talvez procurar Zendak e os líderes das três Casas, mas o rastro estava fresco e fácil de seguir. Antes que a chuva caísse, e cairia com força, melhor seria tentar descobrir quem era o homem, se estava sozinho, se montara acampamento por ali ou estava de passagem. Assim teria mais informações para levar à tribo, se necessário. Sim, era isso que ela ia fazer.
Kyara se abaixou, examinando o solo além da pegada. A lama em que fora impressa deixara marcas mais adiante, depois era só relva pisada e folhas amassadas, mas mesmo assim aquilo não demandava grande esforço. Passo a passo, enquanto o céu escurecia ecoando trovões, ela seguiu a trilha deixada pelo homem, tão descuidado em apagar seu rastro quanto se mostrara inábil com as armadilhas.
O céu desabou quando a elfa alcançou a vereda conhecida como Passo das Lebres, que eram comuns por ali, especialmente na primavera. Hoje não havia nenhuma, e, se tivessem passado mais cedo, os rastros já teriam sido lavados pela chuva que caía como uma cascata. Os do homem também logo sumiriam. Kyara examinou os últimos vestígios, que ao menos conduziam para longe das cabanas da tribo, e se aprumou, quase decidida a dar meia-volta.
Foi quando seu coração disparou pela segunda vez.

***


Parte 1.
Parte 3.

Para quem gostou da Anna criança, sugiro o livro Anna e a Trilha Secreta, onde ela encontra os Espíritos Guardiões da Tribo.

Aqui no blog do Castelo há contos sobre Kyara e Raymond. O primeiro pode ser até ouvido, narrado por mim. Que tal? :)

sábado, 8 de julho de 2017

O Eterno Retorno (parte 1)


Pessoas Queridas,

No meu outro blog, A Estante Mágica de Ana, está rolando um projeto que intitulei "Contos Fantásticos de Avós Extraordinários", com contos de fantasia (e um de FC) sobre avós e netos.

Aqui, no blog do Castelo, vou postar os dois que são ambientados em Athelgard, começando com este em que aparecem a Anna e a Kyara. Espero que vocês gostem! 

A ilustração deste conto ficou a cargo de uma das mais antigas e constantes leitoras de Athelgard, a querida Isabela Lopes. 



As pegadas eram claras, impressas em lama seca na extremidade da clareira. Apontavam para o bosque de faias mais adiante, mas Kyara não disse nada, à espera de que a menina lesse os sinais e conseguisse interpretá-los. Para um bom caçador, isso era tudo. Mesmo os que viviam com a cabeça nas nuvens.
Anna estava de joelhos examinando as pegadas, a trança negra enrolada no pescoço, a luz concentrada nos olhos. Sua boca estava contraída, uma boca rosada e bem desenhada, como a da primeira Anna, aquela que nunca aprendera a se orientar na floresta. Não vou deixar acontecer de novo, Kyara pensou. Custasse o que custasse, ela ensinaria a sua neta o que era preciso saber.
-- Então, minha Anna – disse, por fim. – Já descobriu o que tem aí?
-- Descobri que é um cervo. Não é muito grande. – Certo até ali. – Não é mais filhote, porque anda sozinho, mas a pegada é rasa, então ele é bem novo. E passou há pouco tempo, o rastro é fresco. Hoje ao amanhecer?
Olhou para a avó, querendo confirmação ou ao menos uma pista. Kyara cruzou os braços. A menina suspirou e voltou a analisar as pegadas, acompanhando o rastro do cervo ao longo da clareira.
-- Bom, parece que ele foi para o bosque, pode ter ido beber naquela nascente do rio da Lontra. Se não ao amanhecer, um pouco antes. A lama estava mole quando ele pisou...
-- Mole? – observou a avó. – Ou só macia? A pegada é nítida. Será que choveu depois que o cervo passou?
-- Não. – Anna pensou um pouco, depois concordou. – Não chove desde a madrugada, então deve sido mais tarde. Isso quer dizer... Avó! – Arregalou os olhos oblíquos, semelhantes aos dos demais membros da tribo. – Ele passou agora há pouco? Está assim tão pertinho? A gente pode ir atrás dele?
-- Para quê? O que você descobriu logo no começo?
-- Que ele é muito novo. Claro, eu sei que não caçamos animais jovens, mas não seria para pegá-lo. Seria só para seguir a trilha e ver se eu consigo achá-lo.
-- Ah, você gostaria? Fico feliz. – A elfa sorriu. – Mas hoje não temos tempo. Tyshen e os outros vão passar logo depois do almoço, lembra? Vocês vão à cata de bagas e cogumelos.
-- Posso ir amanhã – propôs Anna.
-- Nada disso. Você combinou com eles, e além do mais é sua contribuição para a tribo. Todas as crianças da sua idade estão colhendo bagas para secar e comer no inverno.
-- Eu sei. Tudo bem, vamos voltar. – A menina encolheu os ombros. – Mas, num outro dia, queria ir com você além do bosque de faias e ver a trilha onde você encontrou meu avô. Porque você sempre fala, mas eu não sei direito como chegar lá.
-- Isso seria uma jornada mais longa – disse Kyara.
As palavras pesavam ao lhe sair da boca. Anna não disse nada. Em vez disso, pegou a mão da avó, como se tivesse menos que seus nove anos, e começaram a caminhada de regresso a sua cabana.
-- Esta não é a nossa trilha – afirmou a menina, pouco depois.
-- Eu sei. Peguei um atalho, só para ver se você percebia – sorriu Kyara. Na verdade, não tinha pensado muito antes de enveredar por aquele caminho secundário, que raramente percorrera nas últimas luas. Supunha que o mesmo se desse com os outros membros da tribo, por isso se surpreendeu ao dar com uma linha de armadilhas montadas por alguém no mínimo inexperiente.
-- Olhe para aquilo – Kyara apontou para uma delas, que não poderia estar mais evidente, a não ser que fosse enfeitada com flores roxas. – Não sei quem fez, mas ele ou ela precisa de orientação. Até uma toupeira saberia desviar daquela coisa.
-- Ah, avó. Você sabia que as toupeiras têm aldeias embaixo da terra? Foi Zendak que me disse. – Zendak era o xamã da tribo, que não devia ser contestado, por isso Kyara fez que sim. – Ele disse que são túneis muito longos que se encontram uns com os outros, e elas têm uns cômodos largos onde ficam várias, e se visitam, como se fossem casas. E aí Maryan perguntou como eu achava que seria uma cidade de toupeiras, mas uma cidade de verdade, como as do lugar de onde ela veio. Pensei em toupeiras grandonas que seriam os Conselheiros, uma toupeira-ferreiro de avental, fazendas de toupeiras que plantam cenouras e nabos...
-- Ah, está bem, Anna. Já chega. – Kyara franziu as sobrancelhas, irritada. – Que você goste de Maryan, muito bem, também gosto dela; que aprenda a ler e outras coisas que ela sabe, está certo, pode ser útil um dia. Mas toupeiras plantando nabos! Você não tem mais nada em que pensar?
-- São só histórias -- Anna se defendeu. – A tribo tem suas histórias, o povo de Maryan também, os homens também. Essa é só mais uma, que inventamos para nos divertir. Por que você não gosta?
-- Não é isso. É que você, às vezes, se entusiasma demais imaginando coisas e se esquece do que tem para fazer. Ontem quase deixou queimar a comida porque ficou escrevendo naquele caderno. Aposto que ele está aí na sua bolsa. Não está?
O alto das orelhas de Anna – orelhas humanas, arredondadas – ficou vermelho enquanto ela se debatia entre dizer a verdade ou escondê-la. Por fim, resmungou alguma coisa sobre ter se esquecido de tirar o caderno da bolsa – como se a bolsa de caça onde levava seus talismãs e a faca de metal herdada do avô devesse conter aquele monte de folhas de papel, costuradas numa capa de couro, em que ela rabiscava sempre que tinha um momento livre. Às vezes fazia desenhos, como as outras crianças da tribo, mas geralmente escrevia, como aprendera com Maryan, uma das elfas de cabelos brilhantes que viviam na aldeia junto à Floresta dos Teixos. Tinham chegado pouco antes de Kyara regressar de sua própria aventura no Mundo Lá Fora -- uma aventura que durara quase trinta anos e da qual, além de lembranças, restara apenas a neta ainda bebê.
Anna era um fruto da violência, mas também era a filha de sua filha, um tesouro único e precioso, pelo qual valia a pena lutar. Foi por isso que Kyara voltou para junto da tribo: não só estaria longe dos homens, de sua injustiça e guerras sem sentido, mas tornaria a viver com sua gente, tirando seu sustento da floresta e protegida pelos Espíritos Guardiões. E estava dando tudo certo, inclusive em relação a Anna – mas, ainda assim, aquele entusiasmo da neta pelo Mundo Lá Fora a vinha preocupando. Seus devaneios também, pois só seriam admissíveis num futuro xamã, e a menina não iria trilhar esse caminho. Zendak fora claro quanto a isso, embora, para variar, tudo o mais que tinha dito fosse confuso e quase enigmático.
-- Há vários mundos em que ela pode viver – dissera ele. – Mas, para ser feliz em qualquer um deles, vai ter que encontrar as trilhas secretas. Para gente como Anna, os caminhos mais comuns são os mais difíceis de seguir.
Kyara se lembrava daquela conversa enquanto as duas se aproximavam da cabana. Era a mesma onde ela vivera quando criança, formada em parte pelo tronco oco de uma árvore, esculpido e alargado pelas artes de um antigo xamã, e em parte por toras de madeira encaixadas, as frestas muito bem vedadas com resina. Alguns membros da tribo preferiam construir suas cabanas sobre os galhos, principalmente os da Casa do Corvo, mas Kyara dos Lobos sempre gostara do chão bem sólido embaixo de seus pés. Também lhe agradava estar perto de uma cascata, cujo ruído se ouvia da cabana. Era um bom lugar, o da sua infância. Bem diferente da choupana escura, com o teto de colmo e a lareira enfumaçada, onde vivera com Raymond e a primeira Anna.
Aquela que não lhe enchia os ouvidos de perguntas.
-- Avó, e você, o que vai fazer enquanto formos colher bagas? – A menina mastigava uma tira de carne seca, antecipando-se ao almoço de pato cozido com legumes. – Já temos flechas que cheguem, não há peles para tratar... Não quer ir com a gente?
-- Eu? O que eu iria fazer na floresta com um bando de crianças barulhentas? – resmungou Kyara, no fundo satisfeita com o convite. – Vão vocês, eu fico por aqui. Talvez faça umas visitas ou dê uma volta por perto.
-- Pode ir de novo à clareira, ver se os laços pegaram algum animal – Anna sugeriu. – Ou se o cervo passou por lá voltando da nascente. Foi seguindo o rastro de um cervo que você encontrou meu avô, não foi? E uma cabana, onde ele entrou para se abrigar da neve?
-- Foi. Já não contei essa história?
-- E será que a cabana ainda está lá? Os restos dela, pelo menos – insistiu a menina. – Talvez a lareira onde Raymond estava assando peixe. Você ficou assustada quando topou com ele?
-- Claro que não. Eu tinha meu arco, e ele estava indefeso, tinha tirado até a roupa para secar no fogo. Fiquei foi curiosa. Eu sabia a respeito dos homens, mas nunca tinha visto um.
-- E você achou meu avô bonito – Anna sorriu de um jeito maroto. – Ficou tão apaixonada que foi embora com ele.
-- Não fui embora nesse dia. Fiquei com ele um quarto de lua, tentando ensiná-lo a rastrear e caçar, porque ele ia trabalhar para um homem rico e o trabalho seria esse.
-- E ele aprendeu?
-- No início, não. Só depois que fomos viver lá. Quantas vezes você vai querer ouvir a mesma coisa?
-- É que eu escuto diferente a cada vez – disse a menina.
Kyara franziu o cenho, sem entender. Então, Anna tomou fôlego, assumindo um ar quase solene ao tentar explicar.

(continua...) 

Parte 2.

Para quem gostou da Anna criança, sugiro o livro Anna e a Trilha Secreta, onde ela encontra os Espíritos Guardiões da Tribo.

Aqui no blog do Castelo vocês encontram informações e um belo desenho dos avós Kyara e Raymond.

Saibam mais sobre o projeto Contos Fantásticos de Avós Extraordinários.