quarta-feira, 10 de maio de 2017

Além de Agora : um conto de Cyprien de Pwilrie (parte 14)

       

         -- Olhe! São eles, sim! – A voz risonha de Cassius nos fez suspirar de alívio. -- E veja quem também está aqui com os dois. Thierry e Aymon!
         -- Que pena! Eu não teria vindo se soubesse -- disse Nayla, em tom seco, enquanto o tecelão a ajudava nos últimos degraus. Thierry guardou a arma e ficou a fitá-la, de braços cruzados, como se aguardasse que ela fosse até ele.
         -- O que estão fazendo aqui? -- perguntou Tina, aproximando-se dos recém-chegados. -- Como descobriram que éramos nós?
         -- Bem, encontramos Sanson por acaso, e ele nos disse -- respondeu Nayla. -- Mas só falou de você e Cyprien; e como eu ia imaginar que a briga estava acontecendo na frente desses dois?
         -- Mas de que briga está falando? Quer dizer -- expliquei --, nós discutimos mesmo um pouquinho, mas como vocês sabiam disso? Não diga que é possível nos ouvir lá de baixo!
         -- Só ouvir? Nós vimos -- replicou a dançarina. -- E não só nós, mas toda a cidade. Vocês estão fazendo um belo espetáculo de sombras. Cyprien devia descer e passar o chapéu.
         -- O quê? Então todo mundo estava olhando?
         -- Estava -- confirmou Cassius, com uma risada. -- Havia uma multidão aqui em frente, a uns vinte passos, com o nariz para cima. Ouvi até um rapaz apostando que o camarada -- quer dizer, você, Cyprien -- ia acabar aos beijos com a mulher, e outro dizia que não, que ia mas é lhe dar uns tabefes. Estava muito engraçado. Ei, por que está me olhando com essa cara?
         -- Por nada -- respondi, sem conseguir juntar as ideias que me vinham como raios.
         -- Não ficou zangado, ficou? -- perguntou Nayla, tocando-me o braço. -- Nós não fomos os únicos. Muita gente estava prestando atenção.
         -- Muita gente -- repeti, procurando pensar com calma. -- Então escute: e quanto aos soldados? Eles também estavam olhando?
         -- Os soldados? Bem, alguns sim, eu acho. Por que a pergunta?
         -- Acho que começo a entender -- murmurou Aymon.
         -- Ah, é? Pois eu não -- disse Thierry. -- De que adianta saber se os soldados estavam vendo a briga?
         -- Adianta, e muito -- repliquei, sentindo a excitação tomar conta de mim. -- Cassius, como estão as coisas no patíbulo? O prisioneiro já veio? As pessoas à volta dele olharam para cá?
         -- Muitas olharam, sim. Eu vi quando passamos lá por perto. Mas ainda não tinham trazido Édobec.
         -- Cyprien, o que você está tramando? É algum plano? -- sussurrou Tina, inclinando-se para mim. - Você pensou em alguma coisa para...
         -- Sim, pensei! Para ajudar Édobec -- confirmei, e os olhos dela brilharam. -- Eu já tinha decidido fazer isso, apesar dos riscos; mas, se vocês participarem, tenho quase certeza de que vou conseguir.
         -- Claro que vai! E pode contar comigo! -- exclamou Tina. Perplexos, Nayla e o tecelão se entreolharam, enquanto Aymon sorria, sabendo que tinha sido o único a compreender meu plano. Doze anos fazendo acrobacia juntos são um meio seguro de entrar em harmonia.
        -- Por favor, pessoal -- pediu Thierry, com o cenho franzido. -- Eu estou disposto a ajudar, se não houver risco para a minha pele, mas alguém quer me explicar o que está acontecendo? Que plano é esse que Cyprien inventou na última hora?
        -- Ele quer atrair a atenção do público -- disse Aymon, já meio eufórico. -- Na hora da execução, quer estar aqui fazendo teatro de sombras, e as pessoas prestariam atenção nisso e alguém daria a poção ao Édobec.
        -- É isso, Cyprien? Parece um bom plano -- animou-se Cassius. -- Quer dizer, há perigo, mas é melhor do que simplesmente ir lá e dar a beberagem ao velho.
        -- Sim, mas quem vai fazer isso? -- perguntou Nayla. -- Aymon e eu talvez fôssemos ágeis o bastante... mas...
        -- Não. -- Essa era uma questão fechada, desde que eu decidira correr o risco. - Sou eu que vou fazê-lo, pois foi a mim que Rowenna pediu; e também sabemos que sou eu que tenho mais chances. O teatro deve ser feito por vocês... Isto é, por um de vocês, que deve ficar aqui em cima com Tina.
        Dizendo isso, eu apertava os lábios, pois não me agradava nem um pouco a ideia de outro rapaz com a minha namorada. Por sua vez, eles também não ficaram à vontade, e o constrangimento aumentou ainda mais depois das palavras de Nayla.
      -- Uma briga não vai prender a atenção por muito tempo. -- Parou, como se hesitasse em dizer o que estava pensando. -- Lá embaixo, as pessoas estavam apostando que ia haver outro tipo de coisa, e... Bom... Vocês devem saber ao que estou me referindo.
      -- Mas é claro! Abraços e carinhos e coisas assim -- riu Thierry. -- E se ela tirar a roupa...
        -- O quê? Está louco? -- protestou Tina, em tom exaltado. -- Como é que eu vou ficar nua na frente de um de vocês?
       -- E não gostei dos “abraços e carinhos” -- disse eu.
       -- Ora, seria só um fingimento -- argumentou Nayla. -- Os dois se tocariam, é claro, mas não precisariam fazer nada de verdade. Na sombra, é só encostar o rosto para dar a impressão de um beijo, e a imaginação das pessoas se encarrega do resto.
        -- Imaginação, é? Então por que não fica você? -- desafiou Tina. -- Fique aqui, com um dos rapazes, e...
Parou, percebendo subitamente que o problema estava resolvido; e o mesmo pensou a maior parte de nós. Por que nos daríamos ao trabalho de fingir, quando dispúnhamos de um casal de verdade?
        -- Então, não vamos perder tempo -- disse eu, voltando a me animar. -- Nayla e Thierry ficam aqui em cima, fora do foco de luz, enquanto nós descemos. Meu plano é prevenir pessoas amigas, que estejam na praça, para que na hora façam bastante barulho, chamando a atenção para o casal aqui no sobrado. Quanto a vocês dois, vou pedir a um músico que fique por perto, para dar o sinal quando for a hora. Uns acordes da “Canção da Lua”, por exemplo. Quando vocês ouvirem, vêm para este ponto, onde eu estava com Tina, e começam o espetáculo. Bem devagar, para que haja bastante suspense. Mas lembrem-se, não devem sair do lugar onde a sombra vai ser projetada; e se ouvirem o sinal de novo, parem o que estiverem fazendo e deem o fora, certo?
       -- Certo -- sorriu Thierry.
       -- Errado -- disse Nayla, em tom cortante. Surpresos, todos nós olhamos para ela, à espera de uma explicação. Não era possível que um medo repentino a houvesse feito recuar.
        -- Não desisti, nem estou com medo -- disse ela, quando fiz a pergunta. -- Simplesmente não quero ficar aqui em cima com Thierry. Não quero mais nada com ele depois do que fez ontem à noite.
        -- Que lindo -- suspirou Thierry, com ar de enfado. -- Assim, retornamos à estaca zero. Ora, deixe de ser estúpida, garota. Enquanto você se faz de difícil, nós perdemos tempo, e talvez acabemos por não conseguir nada. Venha, vamos fazer as pazes de uma vez, e depois Cyprien e os outros vão poder ir cuidar da sua parte.
      Avançou, com a intenção evidente de abraçá-la, mas Nayla se afastou dele, recuando na direção dos lençóis. Lá fora, a multidão protestava em altos brados contra o atraso, e isso aumentou ainda mais a nossa tensão. Naquelas circunstâncias, era quase impossível não apoiar Thierry.

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Parte 1
Parte 13

Conheça O Jogo do Equilíbrio, novela em que Cyprien já está em outra fase da vida.

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sexta-feira, 5 de maio de 2017

Além de Agora : um conto de Cyprien de Pwilrie (Parte 13)



-- Então -- começou Tina, respirando fundo --, você veio me procurar. Quem lhe disse que eu estava aqui? Rowenna?
-- Não, foi Sanson que viu você, num momento em que passava entre dois lençóis. Mas por que teria sido Rowenna? -- perguntei, e meu tom incisivo a fez hesitar por alguns instantes. Prevendo a tempestade, meus amigos se mantiveram prudentemente a distância, enquanto Tina e eu nos enfrentávamos, olhos nos olhos, ambos com os braços cruzados e o cenho franzido. Agora, eu também tinha razão para olhá-la daquele jeito, e até para esperar que me desse explicações. Por que, com tanta gente na praça, ela falara justamente em Rowenna?
-- Eu estive com ela antes de vir para cá -- disse Tina, por fim, de má vontade. -- Perguntei se vocês haviam começado, e se você tinha mudado de ideia quanto ao Édobec. Ela disse que não sabia, mas achava que não; e então eu me ofereci para ir no seu lugar. Foi isso mesmo! -- afirmou, vendo que eu a fitava com olhos de alarme. -- Eu disse que poderia dar a poção. Disse que conseguiria. Só que Rowenna... Infelizmente... Ainda preferiu esperar que você fizesse alguma coisa. E pelo jeito você nem se dignou a pensar no assunto.
Calou-se, esperando certamente que eu retrucasse, mas demorei a encontrar o que dizer. Na verdade, eu não pesara os prós e os contras durante muito tempo. Apenas soubera que não ia arriscar a pele por Édobec; e jamais teria imaginado que Tina se dispusesse a fazer isso. Ainda assim, e ainda que ela me olhasse de cima, não me senti envergonhado, pois a própria recusa de Rowenna já contava como um ponto a meu favor. Ninguém mais seria hábil o suficiente para se esgueirar junto ao patíbulo. Onde eu apenas corria riscos, Tina podia ter como certa uma sentença de prisão.
-- Rowenna não poderia mesmo aceitar -- disse eu, olhando-a de esguelha. -- Se eu tenho poucas chances, você tem ainda menos, e sabe disso muito bem. Um dia, quando a revolta passar, você vai me dar razão; e garanto que vai se sentir aliviada por nenhum de nós dois ter se envolvido nessa história.
-- É mesmo? E quem disse que eu não ia? -- Arrebatada, ela me puxou pela mão, fez com que eu me voltasse para um canto do cômodo. -- Ali está a forma como vou me envolver. Ali, bem ali, está vendo?
-- Tina -- murmurei, cautelosamente --, o que eu estou vendo é um monte de pedras.
-- Sim, e daí?
-- E daí, como? Você não está querendo dizer que...
Calei-me, sem querer acreditar em minha própria suspeita. Que ela quisesse tomar o meu lugar, ainda que soubesse as consequências, não chegava a ser um absurdo, mas atirar pedras era demais. No entanto, a evidência estava diante dos meus olhos, sem contar as palavras de Tina; e, quando compreendi que ela falava a sério, esqueci tudo que aprendera sobre como tratar as mulheres e avancei para segurá-la pelos braços. Pega de surpresa, ela soltou uma exclamação, olhou-me com um misto de espanto e de raiva enquanto procurava se libertar.
-- Cyprien, seu bandido, me largue! – rosnou, tentando se soltar com um safanão. – Pare com isso!
-- Vou parar se você me ouvir – repliquei, e não esperei pela promessa. -- Tina, você não pode -- entendeu? --, não pode atirar pedras na multidão. Isso é muito mais do que se expor a um risco. É uma completa loucura!
-- Os guardas não tardariam a vir prendê-la. -- Esse era outro lado da questão, mas Aymon estava mais do que certo. -- Mesmo com a parte dos fundos meio derrubada, você não teria como escapar, porque eles iriam cercar a casa; e você seria presa e talvez açoitada por fazer uma coisa como essa.
-- Eu sei, mas não posso fazer mais nada -- disse Tina, por entre dentes. -- E, se não tenho como ajudar o prisioneiro, ao menos vou atrapalhar o carrasco. Se eu acertar na cabeça dele...
-- Ah, é? -- retruquei, no mesmo tom. -- E se a sua pontaria falhar, o que você faz? E se você acertar outra pessoa -- Rowenna, o próprio Édobec, ou um pobre coitado qualquer que esteja lá perto por acaso? Tina -- insisti, olhando-a nos olhos. -- Escute, bela, estou falando sério. E se você acertar uma criança?
Falei, e no mesmo instante percebi que havia sido eu a acertar em cheio. Nos olhos de Tina, a raiva se dissolvera com o choque, e agora o que se via neles era algo completamente oposto. Horror de pensar em si mesma ferindo um inocente. Para ela, isso seria muito pior do que atrair os guardas.
-- Oh, Cyprien, eu não... Eu acho que não pensei! -- exclamou, e seu desamparo foi tanto que não resisti a abraçá-la. -- Meu Deus, o que eu ia fazer! O que eu estava a ponto de fazer!
-- Não se sinta culpada -- sussurrei, mas minhas próprias emoções se confundiam diante daquilo. Em meus braços, esquecida da raiva, Tina estava prestes a chorar, e eu a afagava enquanto tentava afastar a ideia louca de ajudar Édobec. Ele merecia isso de mim, nem que fosse apenas por ser o mais inocente de nós dois. Afinal, tinha roubado para comer, enquanto eu pilhava bolsas e me metia em arruaças por pura diversão. O prazer da aventura, dissera eu muitas vezes; e agora minha consciência doía, teimando em repetir que na verdade eu jamais havia me importado em arriscar meu pescoço. Por que, no momento em que tinha nas mãos a sorte de um velho, eu decidira que devia me poupar?
-- Tina, por favor, não fique assim -- pedi, no mesmo instante que cedia à voz dentro de mim. -- Escute, eu... Eu tomei uma decisão. Eu vou fazer o que Rowenna me pediu. Mesmo que me vejam...
-- O quê? Você está louco? -- protestou Thierry. -- Uma garota chora no seu ombro e você resolve bancar o herói?
-- Ele tem razão -- disse Tina, antes que eu pudesse mandá-lo a alguma parte. -- Cyprien, eu não quero que você faça uma coisa dessas por mim. Se quiser mesmo fazê-lo, que seja por Édobec, e não apenas por minha causa.
-- Será por mim mesmo -- tranquilizei-a, e as palavras seguintes vieram espontaneamente. -- Será por todos nós, do Povo Alto.
Ao ouvir isso, Tina me fitou com intensidade, depois me abraçou ainda mais forte, quase como se quisesse me reter ali. Thierry voltou a dizer que eu estava louco, e Aymon abria a boca para falar quando, inesperadamente, ouvimos os passos rápidos de alguém que subia.
No instante seguinte -- fôramos ensinados a fazer isso desde crianças -- toda a divergência entre nós passara a ser assunto para mais tarde, e três adagas faiscaram lado a lado enquanto Tina agarrava uma de suas pedras.
Talvez, afinal, ela tivesse a chance de atirá-las em alguém.

(Continua...)


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Parte 12

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terça-feira, 2 de maio de 2017

Além de Agora : um conto de Cyprien de Pwilrie (Parte 12)


        -- Agora já não deve faltar muito -- comentou Pippo. -- Daqui a pouco vão trazer o prisioneiro. Eu vi o filho dele por aí, andando de um lado para o outro, com um ar de quem não tem esperança. Parece que muita gente está achando que o velho não resiste.
        Isso olhando para mim, como se soubesse da minha conversa com Rowenna; e, na verdade, bem podia ser que ele estivesse mesmo a par de tudo. Dependendo do vento, cada um de nós ouve muito bem o que se diz na casa do outro. De qualquer forma, o olhar de Pippo não me pareceu acusador, por isso imaginei que ele partilhava a opinião de meus amigos. Tina fora a única a exigir que eu me arriscasse por um velho que mal conhecia. Só assim se orgulharia de mim como se orgulhava da memória de seu pai.
        -- Ei, Cyprien! É difícil achar você, hem? -- comentou Aymon, que acabava de chegar até nós. Thierry vinha logo atrás, abrindo caminho entre cotoveladas e pedidos de desculpa. Ao longe, o rufar de tambores anunciou a chegada do Prefeito, e a multidão se alvoroçou ainda mais, comprimindo-se e esticando os pescoços na tentativa de ver o grande homem. De braços cruzados, nós também olhávamos naquela direção, embora fosse improvável que conseguíssemos enxergar alguma coisa. Quanto ao patíbulo, ainda estava vazio, exceto por dois guardas que se encarregavam de impedir que as pessoas subissem. A execução estava atrasada, como sempre. Essa era mais uma daquelas situações que só acontecem em Pwilrie.
        -- Já estamos aqui há um bom tempo -- disse Pippo. -- Onde será que puseram o velho? Vai ser ainda pior para ele se o açoitarem no calor do meio-dia.
         -- Isso devia acabar -- disse Sanson, inconformado. -- Alguém devia fazer alguma coisa.
        -- Como o quê? -- fez Thierry, olhando para mim. Cúmplice como era, o olhar continha também uma boa dose de malícia, e eu tinha acabado de franzir o cenho quando o pintor, que procurava calcular as horas pelo sol, soltou uma exclamação de surpresa.
        -- Olhe, Cyprien, é Tina! É ela que está no alto do velho sobrado!
        -- O quê!? -- exclamei, um calafrio percorrendo meu corpo da cabeça aos pés. Por trás dos lençóis, o vulto feminino tornou a passar, mas, embora eu me esforçasse ao máximo, não vi nada que me levasse a reconhecer minha namorada. Olhei para Sanson, como se pedisse uma explicação, e ele afirmou que vira claramente a mulher se deter por um instante e meter a cabeça entre dois  panos.
        -- E era Tina - disse, judiciosamente, como se minha dúvida o tivesse ofendido. -- Eu sou pintor, faço retratos, nunca me engano com uma fisionomia. Você pode ir até lá se quiser; e aposto um barril de vinho, do melhor que houver em Pwilrie, em como vai cair direitinho nos braços da sua garota.
        -- Vamos lá, Cyprien -- disse Aymon, vendo que eu parecia indeciso. -- Thierry e eu subimos com você.
        -- Isso mesmo -- disse o músico. -- Se houver qualquer problema, já vão ser três adagas para enfrentá-lo.
         -- Não é esse o tipo de problema que eu temo -- suspirei. -- Mas vamos, sim, dar uma olhada no sobrado. Se Tina não estiver lá, ao menos vai ser um bom lugar de onde ver a praça.
          -- Mas ela está, pode crer -- disse Sanson, quando já nos afastávamos, avançando a custo pela multidão de pessoas impacientes. Elas ficavam mais agitadas a cada instante.
         -- Chegamos -- disse Thierry, e nós três nos detivemos a olhar para o sobrado. Muitos anos atrás, ali tinha vivido um rico negociante, que, segundo a lenda corrente em Pwilrie, enlouquecera ao encontrar a filha única na cama com um dos aprendizes. Sua fortuna se dissipara rapidamente, e a casa passara às mãos de credores que, por alguma razão, não se interessaram em ocupar e conservar o velho sobrado. Agora, a construção tinha um aspecto sinistro, com algumas partes meio desabadas e a madeira podre, e tudo isso tornava perfeitamente compreensível o fato de ninguém ter se aventurado a subir ali. Isto é, ninguém à exceção daquela mulher, que Sanson afirmara com tanta veemência tratar-se de Tina.
         E agora tudo indicava que havia chegado a nossa vez.
         -- É melhor que Cyprien vá na frente -- disse o músico, e Aymon concordou, fosse por medo ou por não querer tocar na porta. A mim também ela causava uma certa repugnância, mas. não podendo recusar -- afinal, tratava-se da minha namorada -- acabei por dar um bom empurrão naquele bocado de tábua úmida e carcomida. Rangendo horrivelmente, a porta se abriu, deixando à vista uma sala nua e sombria, no centro da qual se destacava uma escada em formato de caracol. Com certeza era por ali que se chegava ao sobrado.
          -- E então? -- perguntou Aymon, às minhas costas. -- Acha que devemos subir?
          -- Bom, eu pelo menos vou -- respondi, e os dois não disseram nada, apenas me seguiram quando fui em frente. Era preciso cuidado, porque não havia corrimão, e a madeira ameaçava ceder a cada instante sob nossos sapatos. Imaginei os pés de Tina, calçados em sandálias baixas, pisando a sujeira incrustada nos degraus. À medida que eu subia, mais e mais me parecia improvável que ela se houvesse metido naquele antro.
          -- Tina! -- chamei, por desencargo de consciência, antes mesmo de ter chegado ao segundo andar.
           -- Sanson está maluco - disse Aymon. -- Ela não pode ter subido aqui.
           -- Ah, é? E por que não? -- replicou Tina, surgindo subitamente diante de mim. Aquilo não era totalmente inesperado, mas mesmo assim levei um susto, e o meu recuo quase fez Aymon sair rolando escada abaixo. Tina não estendeu a mão, não se mostrou solícita como seria o habitual. Também não pareceu achar graça, como Thierry e até o próprio Aymon quando conseguiu se equilibrar. Sua expressão, serena à primeira vista, deixava transparecer um estranho ar de desafio, e eu engoli em seco quando ela caminhou até perto de mim.
         Pelo jeito, eu ainda tinha o que ouvir por conta da noite anterior.

(Continua...)


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Parte 1
Parte 11

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quarta-feira, 26 de abril de 2017

Além de Agora : um conto de Cyprien de Pwilrie (Parte 11)



Se, por um lado, não havia nada de novo com Mandol e com meus amigos -- isso sem falar na eterna tagarelice das vizinhas --, por outro eu estava prestes a comprovar que o mesmo não acontecera no que dizia respeito a Tina. Eu esperava encontrá-la ressentida, mas pensava que não tardaríamos a fazer as pazes – e fiquei sem ação quando, chegando à sua casa, soube que ela seguira sem mim para a Cidade Baixa.
-- E Tina disse ainda que, se você decidisse ir ver a execução, devia fazer o favor de não falar com ela -- completou a mãe, com pesar. -- Eu havia notado que alguma coisa não estava bem entre vocês.
-- Bom, nós... Tivemos uma discussão -- disse eu, respirando fundo. -- Não foi muito sério, nem mesmo se tratava de nós dois, por isso pensei que ela me esperaria para conversarmos.
-- Talvez não quisesse perder o açoitamento -- disse a prima de Tina, que ia e vinha ao redor do tacho de sabão. -- Se esperasse você, na certa iam ficar falando durante horas. Ou será que eu não sei como são os namorados?
-- É verdade, Cyprien. Tina também pode estar nervosa por causa disso -- lembrou Renée. -- Desde ontem à tarde, ela não falava em outra coisa a não ser no velho. Aposto que ainda chegou a aborrecer você com essa mesma história.
-- Tina não me aborrece -- disse eu, e ganhei um sorriso por isso. -- Mas é verdade que ela falou um bocado sobre o assunto.
-- Espero que não fale lá na praça -- suspirou a prima.
-- É mesmo. -- Preocupada, Renée se voltou para mim, pousou a mão úmida e maternal sobre o meu braço. -- Talvez seja o caso de você ir atrás dela, Cyprien. Sei que ela disse aquelas asneiras, mas... Bem... Tenho medo de que arranje alguma confusão na praça, se estiver sozinha.
-- Não creio, Renée. Mas vou assim mesmo -- prometi. - Fique tranqüila. Eu não vou deixar que Tina se exponha diante dos soldados.
-- Ah! Eu sabia que podia contar com você -- disse a mulher, em tom agradecido. -- Se todos os rapazes fossem desse jeito! Não sei como Tina tem coragem de chamá-lo de egoísta.
-- A sua filha é que é uma tonta -- sentenciou a prima, mexendo o sabão.
Fingindo achar graça, concordei e me afastei o mais rápido que pude, para que elas não vissem o quanto começava a me sentir inquieto. Era verdade que Tina estava zangada comigo -- talvez até mesmo disposta a terminar com o que havia entre nós --, mas eu deixara claro que ia à sua casa, e não esperava que pudesse sair daquele jeito. Não era do seu feitio fugir de uma discussão. Quanto a perder o açoitamento, não eram nem nove horas, cedo demais para que um simples espectador tivesse que se pôr a caminho – e, pensando nisso, tive de engolir em seco, porque imediatamente me ocorreu que talvez Tina quisesse ser mais que um simples espectador.
Apressei o passo em direção à Cidade Baixa. Há vários caminhos possíveis, e eu tomei o mais curto, deixando, com isso, de passar em casa e pegar as moedas que devia trocar com Hubert. Para o Inferno o dinheiro, Cyprien. Trate de encontrar logo a sua menina.
Ela não estava em nenhum ponto visível da Praça do Conselho. Àquela hora, o público ainda não era muito grande, mas as pessoas estavam chegando de todos os lados, aglomerando-se perto do patíbulo para ver melhor. Alguns preferiam ir para o alto dos sobrados, embora ninguém se arriscasse no velho conjunto à esquerda, que fora abandonado há muitos anos e estava quase em ruínas. Às vezes um mendigo, ou mesmo um viajante pobre, descobria que podia dormir ali, e ocupava a construção por vários dias antes que os guardas o pusessem para fora. Em geral esses hóspedes tinham todo interesse em ser discretos, mas alguns não se preocupavam em ocultar sua presença, e esse parecia ser exatamente o caso dos que estavam ali naquela manhã. Como se estivessem em casa, eles haviam estendido uma corda de um ponto a outro da sacada, e três lençóis pendiam dela como bandeiras encardidas. Um pé de bota, rasgado e sujo, fora largado mais abaixo, e havia cacos de cerâmica diante da porta. Provavelmente alguém chegara bêbado e deixara cair a bilha ou o jarro em que trazia vinho. Eu poderia gastar toda a manhã imaginando uma história para essa pessoa.
Corri rapidamente meu olhar pelos demais sobrados. Em alguns deles, havia rapazes e garotos do Labirinto, mas nada de mulheres e, o mais importante, nada de Tina. Assim, eu precisaria procurar na praça, em algum lugar no meio daquela multidão que não cessava de crescer. Subi numa carroça para tentar um último golpe de vista. Nada. E, quando desci, já havia se tornado impossível ver qualquer coisa além do patíbulo.
-- Um bocado de gente, não, Cyprien? -- disse alguém, inesperadamente, às minhas costas. Voltando-me, dei com o nariz no ombro do sujeito; ele soltou uma risada e me descadeirou com um tapinha amistoso. Sanson está desperdiçando seus melhores talentos ao insistir em trabalhar como pintor. Ele ganharia muito mais se fizesse exibições de força.
-- Uma vergonha, o que aconteceu com esse velho -- tornou ele, enquanto eu massageava meu ombro dolorido. -- Não tem que ver, pegaram-no para bode expiatório, para fazer o que gostariam de fazer com todos nós. Nem sei como ainda nos deixam ficar no Labirinto. Com todo esse ódio, eu não estranharia se algum dia fizessem uma lei para nos expulsar das nossas casas.
-- Nem me fale! Íamos ficar como aqueles lá -- disse eu, mostrando a construção abandonada. Uma sombra de mulher se projetou naquele exato momento sobre os lençóis. Pelo jeito, eu teria que mudar alguns detalhes na história que criara para o bêbado.
-- Sanson, você tem ideia de quem está no sobrado agora?
-- No sobrado? Bom, eu pensava que já não havia ninguém -- respondeu o pintor. -- O último forasteiro, um velhote com um ar até muito respeitável, saiu corrido de Pwilrie, porque arranjou briga com um oficial de justiça. Coitado! Nem pôde voltar para recolher os trastes.
-- Ah, então são dele aqueles lençóis?
-- Acho que sim - confirmou Sanson. -- E não sei como ninguém os pegou ainda. Talvez eu faça isso depois do açoitamento. São de pano ordinário, mas dá para usá-los quando estiver experimentando tintas. E depois posso vendê-los à fábrica de papel. Eles compram qualquer trapo, por mais gasto e sujo que esteja.
-- Mas parece que agora os trapos têm dona -- disse eu, apontando a mulher, que passara mais uma vez diante da luz. A sombra não era nítida, mas era claramente feminina, com longos cabelos soltos e contornos arredondados. Vi o olhar de Sanson se demorar sobre o lugar onde ela estivera. Na certa estava pensando em como seria o rosto daquela desconhecida.
-- Lá vem o seu amigo Pippo -- disse ele, depois de alguns momentos. Abrindo caminho -- a multidão era grande, mas não compacta --, o músico se juntou a nós, e ali ficamos por mais algum tempo, sem que eu tivesse o menor vislumbre de Tina.

Onde poderia ela ter ido parar?

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Parte 1
Parte 10

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sexta-feira, 21 de abril de 2017

Além de Agora: um conto de Cyprien de Pwilrie (Parte 10)



-- Bom -- disse Aymon, após algum tempo --, eu não estava mesmo pensando em fazer nenhum espetáculo.
-- Nem eu -- disse o músico.
-- E eu também não -- falei, levantando-me para sair. -- Vou mudar de roupa, dar um pulo até a casa de Tina, e depois podemos nos encontrar na Praça do Conselho. Seria bom estarmos todos juntos na hora em que Édobec for levado para o patíbulo.
-- Também acho. Ei, e por que é que você vai à casa de Tina? Ela não o deixou falando sozinho ontem à noite?
-- Sim, mas hoje é possível que já esteja mais calma -- respondi, embora não acreditasse muito nisso. -- Não me custa fazer uma segunda tentativa.
-- Ah, é? Pois eu, no seu lugar, faria pé firme -- tornou Thierry. -- Se está mesmo mais calma, ela que procure você e encontre um jeito de fazer as pazes. É, é isso mesmo! Mulher, a gente tem que tratar assim, senão elas se sentem as maiores... E, quando acaba, é um custo pegar as rédeas outra vez!
Naturalmente, eu não partilhava dessa opinião, e Thierry sabia muito bem disso, mas a provocação sempre fez parte da nossa amizade. Naquela manhã, contudo, eu não estava com espírito para essas coisas, por isso não retruquei, limitando-me a lembrá-los do nosso encontro de logo mais. Ainda pude ver a expressão perplexa de ambos antes de sair. Era raro, muito raro que não me prestasse a entrar na brincadeira.
O sol já brilhava com intensidade quando voltei para casa. Tomei um banho rápido e frio e estava começando a me vestir quando, com uma timidez que eu jamais esperaria dele, Mandol chamou por mim do outro lado da porta.
-- Eu vi você chegar sozinho -- disse ele, depois de pigarrear algumas vezes, como se receasse me incomodar. -- Posso entrar um pouco? Eu não demoro, é só... Só um instante antes de você sair.
-- É claro, Mandol! Entre -- disse eu, e ele abriu a porta, com gestos tão relutantes quanto as palavras. Àquela altura, eu já estava meio arrependido pelo que dissera na noite anterior, e minha culpa aumentou mais ainda quando, sem nem pensar em me recriminar por aquilo, foi Mandol o primeiro a dizer que lamentava haver interrompido um encontro tão especial.
-- E por uma razão como aquela, ainda por cima -- disse, meneando a cabeça. -- Imagino o que a moça não terá pensado. Se pudesse voltar atrás, Cyprien, eu juro por Deus, eu nunca teria chamado você daquele jeito. E nunca teria ficado com Alfonz enquanto aqueles dois saíam. Oh, mas nunca! Nem esperei para dizer isso a eles quando chegaram das tavernas.
-- Ah, então foi isso -- murmurei, compreendendo tudo. -- Não foi de mim que você reclamou quando Pippo e Ariela voltaram.
-- De você? Oh, não! Reclamei deles mesmos -- dela, especialmente, que não se preocupou em chegar mais cedo, quando sabia que não tenho prática em lidar com crianças. Mas na verdade -- acrescentou, ruborizado --, se quer saber, a culpa foi minha, quando me ofereci para ficar com ele. Eu não esperava que ela aceitasse. E menos ainda que Pippo fosse apoiá-la, deixando o próprio pai metido naquela enrascada.
-- Não é uma enrascada assim tão grande -- repliquei, ao que Mandol teve um gesto de aborrecimento. Sorri, lembrando-me de como ele costumava recriminar sua mulher por deixar que eu cerzisse os rasgos da minha própria roupa. Agora, ele se acostumara a me ver fazer coisas como essa, mas não as considerava coisas de homem, embora soubesse que eu não era menos homem do que qualquer outro. Fora Rowenna que me obrigara a aprender aquilo. Para ele, essa era a única explicação possível no meu caso.
-- E agora você vê -- disse Mandol, em tom de desabafo. -- Antigamente, Pippo sempre acatava minha palavra, e isso até depois de ter se tornado adulto. E agora, só porque se casou, ele acha que é o chefe da família, e eu sou um traste velho que não serve mais para nada. Bom, talvez seja isso mesmo -- prosseguiu, sem ligar ao meu protesto. -- Já não sou o que era antes, principalmente depois que Douna se foi. Você se lembra dela, Cyprien?
-- Lembro, Mandol. Como poderia ter me esquecido?
-- Pois é. Ninguém esquece uma mulher como Douna. Com ela, sim, um homem se sentia respeitado! E olhe, eu bem que merecia -- acrescentou, com os olhos brilhando. -- Eu era capaz de tudo nos meus bons tempos. Eu já lhe disse por que vim viver aqui?
-- Disse -- confirmei, sem enumerar o total de vezes.
-- Ah, foi? Mas não devo ter contado com todos os detalhes. Bem, para não atrasar você, só digo que enfrentei aquele juiz, frente a frente, rodeado de soldados, e me recusei a entregar meus camaradas. Quando me emboscaram, mandei três para o Inferno, e teria mandado ainda mais se a família não me convencesse a partir de Faglan. Eu não queria, é claro -- não queria que eles pensassem que eu estava fugindo --, mas havia a mulher e o filho, eu não podia lhes faltar, ou quem sabe até expor os dois a alguma vingança. E aí me lembrei daquele flautista de Pwilrie, sempre me convidando para uma visita, e vim para cá; e no fim a gente acabou ficando com a casa dele. Esse também era um camarada e tanto... Mas você não lembra, ele morreu antes de você nascer. Foi na revolta liderada por aquele caolho, Haney o Audaz, que eu conheci pouco, mas tinha em boa conta, ao menos como lutador. Ele era como você, usava tão bem a direita como a esquerda, e não havia quem lhe tirasse a espada da mão. Seu único defeito era ser precipitado. Precipitado e azarado, pois veja como ele acabou. Estatelado no meio do pátio. E aquela revolta, eu sabia que não ia dar certo. Era cedo demais para tentar uma coisa daquelas. Foi por isso que eu fiquei de fora -- porque, você sabe, eu queria fazer alguma coisa para ajudar o Povo Alto. Não é o meu povo, mas é a gente que me acolheu. E eu teria feito alguma coisa... Se houvesse outros movimentos, mais sérios, melhor planejados, no tempo em que eu podia falar de mim mesmo como de um guerreiro.
Calou-se, respirando fundo, parecendo ainda mais velho depois do discurso. Fitei-o com os olhos cheios das lágrimas que ele jamais me encorajara a deixar fluir. Homem não chora, sentenciava, quando eu começava a me queixar de meu padrasto. Ele jamais interferira em nada, nem nas surras, nem nas injustiças, mesmo depois de eu haver me tornado seu aprendiz. No entanto, quando Gontran passou dos limites, foi Mandol o primeiro a se erguer em minha defesa.
-- Você ainda é um guerreiro. -- Suavemente, pousei a mão em seu braço, e não me importei quando ele se retraiu. -- Você nos ensinou a lutar, Pippo e eu -- nos ensinou tanta coisa, Mandol. Eu vou ser grato a vida inteira, a você e a Douna, por tudo que fizeram desde o início. E, se às vezes parecer me esquecer disso... Bom, Rowenna sempre diz que a gente costuma brigar justamente com as pessoas de quem mais gosta.
-- Oh! E então eu não sei? -- fez ele, com um sorriso triste. -- Mas, apesar das brigas, nunca achei que você fosse ingrato. Pelo contrário, faz até muito por nós, como se fôssemos realmente a sua família. E você sabe, lá no fundo, é assim mesmo que nos sentimos. Uma família. É por isso que às vezes acabamos sendo importunos. Mas isso vai mudar -- garantiu, recuperando um pouco da energia habitual. -- Vou falar com aqueles dois -- Ariela, principalmente -- e dizer que tenham mais cuidado. Você é um homem feito, tem que viver sua vida, não podem lhe pedir que passe suas noites cuidando de um pirralho. De mais a mais...
-- Mandol - interrompi, sorrindo --, foi você quem me pediu para ajudar com o Alfonz. Você, e não Ariela -- está lembrado?
-- Ah! Mas de quem é que foi a culpa? -- exclamou ele, triunfante. -- Foi dela, não foi? Uma mãe que se preza não deixa um filho pequeno para ir dançar nas tavernas. Eu disse isso ontem, e vou dizer de novo, quantas vezes for preciso. Pode ficar tranquilo daqui para a frente.
-- Está bem, Mandol -- disse eu, esforçando-me por dar alguma seriedade à minha voz. Naturalmente, eu estava aliviado por ver que a briga não deixara marcas, mas era difícil disfarçar o riso quando ouvia aquilo. Mandol podia não ser o mesmo que eu conhecera na infância, podia até estar um pouco mais brando, mas algumas coisas nunca mudariam. Ariela, por sua vez, não iria aceitar tão facilmente as palavras do sogro.
E por estranho que pareça, a perspectiva daquelas brigas me fazia sentir como se houvesse voltado para casa. 

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Parte 1
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domingo, 16 de abril de 2017

Além de Agora : um conto de Cyprien de Pwilie (Parte 9)


Fechei os olhos, pensando no que fazer em seguida. O caso de Édobec exigia muita reflexão, e eu tinha toda a manhã pela frente, por isso decidi me concentrar nos problemas imediatos. Sem nem mesmo cogitar em dormir -- de qualquer forma, eu não teria conseguido --, recolhi os restos do lanche que haviam ficado sobre a mesa, lavei a louça e os talheres e fui buscar água na fonte, onde molhei o rosto e os cabelos pela primeira vez naquele dia. Nem bem eram seis horas e já fazia calor. Daquele jeito, talvez não valesse a pena chamar Aymon para um espetáculo.
Reabastecido o barril, o que eu costumava fazer em seguida era comprar leite, para mim e para Ariela, que retribuía lavando a maior parte da minha roupa. Em geral, ela já estava acordada quando eu saía, mas nessa manhã a casa permanecia em silêncio, e eu me afastei sem ter ideia de como estavam os ânimos da família. Provavelmente bem exaltados, depois da noite anterior.
Subi rapidamente as ruas que me separavam do Quintal das Cabras. Àquela hora, as vizinhas mais próximas já deviam ter apanhado o leite, por isso tive uma surpresa ao dar com pelo menos vinte mulheres, jovens e velhas, envolvidas numa discussão tão explosiva que até as cabras se entreolhavam com receio. Mordi os lábios ao ver Renée, a mãe de Tina, vermelha e acalorada, respondendo ao que parecia ser a provocação de outra mulher. Seria possível que a nossa briga houvesse vazado a ponto de criar aquela balbúrdia?
-- Não venha agora me dizer que ele é um bom rapaz -- dizia, em tom estridente, a mulher que discutia com Renée. -- É claro que existem piores, mas só um grande safado faria o que ele fez. E isso quando estão no começo! O que ele não há de aprontar, quando ela estiver mais velha e carregada de filhos?
-- Todos os homens são assim, minha amiga - replicou a outra. -- Até o meu Elias, e Deus é testemunha de que ele era muito bom, andou se metendo com uma ordinária, lá na Cidade Baixa, quando eu estava de barriga grande. Se a gente espera por um que não faça, fica sem nenhum, essa é a verdade.
-- Pois olhe que é preferível - disse a dona das cabras. - Eu é que sei, depois de doze anos com aquele traste!
-- Ah! Mas o seu também era demais - atalhou outra mulher.
-- Com licença, Cybelle. -- Sem poder mais me conter, aproximei-me da mulher de um amigo, que estava um pouco afastada da confusão. -- O que é que está havendo por aqui? De quem elas estão falando?
-- Você não sabe? Do seu querido amigo, Thierry - respondeu ela. - Aquele patife arranjou uma bela desculpa para ir se encontrar com uma vadiazinha na Cidade Baixa. Ah, mas dessa vez ele se deu mal!
-- Cyprien! - chamou Renée, enquanto eu ainda respirava com alívio. -- Venha cá, meu filho. Encha logo seus potes, eu sei que você tem muito que fazer. Nós só estamos jogando conversa fora.
-- Que nada -- atalhou, furiosa, a mãe de Nayla, que até então eu não vira no meio das mulheres. -- Estamos é desabafando, porque não há outra coisa que fazer. Que tristeza, meu Deus. Depois de quase dois anos, enganar a minha filha desse jeito! Logo ela, que fazia tudo por ele, até o deixava ficar com a maior parte do que ganhavam, na época em que o tio andava com aquelas dores!
-- São todos uns ingratos - resmungou uma vizinha.
-- Mas escutem, o que realmente aconteceu? - perguntei, curioso para saber a história completa.
Ajudando-se umas às outras, as mulheres contaram que Nayla encontrara Olivier no caminho de casa, e, percebendo a farsa, fora com Cassius percorrer as tavernas atrás de Thierry. Logo na terceira, lá estavam ele e Aymon com as duas garotas, e Nayla fizera uma cena terrível, em que não faltaram arranhões no rosto e jarras partidas. No fim ela voltara ao Labirinto escoltada por Cassius, enquanto Thierry, como se o flagrante não o houvesse envergonhado, corria atrás das moças, jurando que tudo não passara de um grande engano.
-- E ela chegou num verdadeiro frenesi -- concluiu a mãe. -- Bateu a porta, acordou os irmãos e a mim -- não o pai, que para variar não estava em casa --, gritou e chorou e xingou todos os nomes que sabia. Até fiquei com vergonha, por causa de Cassius. Imagine o que ele não havia de estar pensando!
-- Ele não pensou nada de mal -- assegurei. -- E eu também não pensaria. Afinal, somos todos amigos, sabemos entender quando um de nós fica furioso.
-- É verdade - disse Renée. -- Tina também costuma ficar fora de si quando está zangada. Por sinal, Cyprien, ela chegou um pouco estranha ontem à noite. Vocês não brigaram, não é? Eu perguntei, e ela disse que não, mas hoje também acordou com cara de poucos amigos.
-- É mesmo? Bom, eu também não sei o que foi -- disse eu, dando graças por ela ter sido tão discreta. -- Quem sabe daqui a pouco eu vá até lá e descubra o que há com ela.
-- Seria bom, meu filho -- sorriu Renée.
-- Mas não vai ver o açoitamento? -- perguntou alguém. -- Pelo que ouvi dizer, metade do Labirinto vai estar lá.
-- Sim, e também um bocado de gente da Cidade Baixa -- resmungou a cabreira. -- Eles adoram ver essas coisas. Principalmente quando acontece com um de nós.
A essas palavras, um murmúrio de assentimento se ergueu entre as mulheres, encerrando de uma vez por todas a discussão sobre Thierry. Da minha parte, no entanto, a curiosidade não havia cessado, por isso resolvi ir procurá-lo assim que houvesse me livrado do leite. Com toda certeza, a sua versão dos fatos seria diferente do que eu acabara de ouvir.
O silêncio continuava a reinar absoluto na casa de Ariela. Sem querer perturbá-los, deixei o pote diante da porta, e, depois de guardar o meu, rumei para a casa de encosta onde Thierry vivia com a mãe e o tio. Senti a distância o cheiro de leite fervido e dos ovos que eles comiam todas as manhãs. Pelo jeito, eu chegara a tempo de ser convidado para o desjejum.
-- Ora, ora, mas hoje é mesmo o dia das visitas! -- exclamou Thierry, num tom alegre que desmentia todo o drama da véspera. -- Mais uma caneca, sim, Aymon?
-- Mais um que veio saber da nossa aventura -- disse o acrobata, meneando a cabeça.
-- Pois vim mesmo -- disse eu. -- As mulheres não falavam de outra coisa, quando fui buscar o leite. Pelo que contaram, eu esperava encontrar você com o rosto cheio de arranhões.
-- Que nada! Foi só isso aqui, olhe -- disse Thierry, mostrando duas pequenas linhas vermelhas numa das faces. -- Ela ia continuar, se eu deixasse, mas não sou nenhum imbecil.
-- Só na hora de inventar essas histórias -- disse Olivier, o tio dele, saindo de trás da cortina que dividia os cômodos. -- Sabe o que ele disse a ela? Que eu estava no porto, numa taverna, caindo de bêbado. Nem pensou, o bobalhão, que Nayla podia cruzar comigo pelo caminho.
-- Bem, isso foi mesmo muito azar -- reconheceu Thierry. -- E o pior de tudo foi que, depois daquela confusão, não conseguimos ficar com as garotas. Se bem que eu não estava vendo grande possibilidade... Não é mesmo, camarada?
-- Para você, talvez -- resmungou Aymon. -- A minha já estava começando a amolecer.
-- Que pena - disse Olivier, com ar ferino. -- Vejam se da próxima vez vocês fazem melhor do que embebedar um pobre músico.
-- Ora, tio -- fez Thierry. Olivier deu uma risada e saiu levando a cítara. Aymon me estendeu um prato com ovos e fatias de pão, e, enquanto eu me sentava para comer, Thierry espiava furtivamente atrás da cortina.
-- Minha mãe foi lavar roupa -- anunciou, com um sorriso cúmplice. -- E como o tio saiu, e estamos sozinhos... Vamos lá, Cyprien, conte-nos como foi com Tina, e veja se não esquece nenhum detalhe.
-- Isso mesmo - apoiou Aymon. -- E nada daquele suspense que você costuma fazer. Vá direto ao que interessa: conseguiu ou não?
-- Não -- respondi, e os dois soltaram uma exclamação que soou entre lamento e zombaria. -- Nós não tivemos muito tempo depois que vocês saíram. Primeiro, Mandol me interrompeu quando eu menos esperava, e...
-- Interrompeu? Mas por quê? -- perguntou Aymon, com o cenho franzido. Pigarreei, tentando encontrar uma forma menos inglória de contar o caso. Definitivamente, há perguntas que nunca deveriam ser feitas.
-- Ele me chamou para ver o que havia com o Alfonz -- respondi, por fim, juntando duas histórias diferentes. -- Mandol estava tomando conta dele, e, como o menino estava meio inquieto, o avô pediu que eu desse a minha opinião. Não que eu saiba grande coisa, mas, como fui aprendiz de Rowenna...
-- Ah, sim! Sempre acaba sobrando para você -- riu Thierry. -- E quanto a Tina? Ela resolveu ir embora depois disso?
-- Bom... Não exatamente -- suspirei. - Enquanto eu estava em casa de Mandol, Rowenna chegou não sei de onde, e Tina conversou com ela sobre o caso do Édobec. Depois disso, já não quis mais nada comigo, a não ser que eu prometesse que ia ajudar o homem. E como eu me irritei, e disse que não pretendia arriscar minha pele, ela foi embora furiosa. E foi isso que aconteceu -- concluí, omitindo os detalhes desabonadores.
-- Mas que coisa! -- exclamou Thierry, batendo com as mãos. -- Que noite a de ontem, hem? Nenhum de nós acabou tendo sorte!
-- E a história do Édobec? -- perguntou Aymon. -- Era mesmo o que pensávamos? Rowenna não tem nenhuma forma de proteger você?
-- Não. A ideia é mesmo que eu me esgueire, escondido dos guardas, e faça a tal poção chegar a ele. Mas eu disse a ela que não o faria -- acrescentei, ao que os dois assentiram, com um ar muito sério. -- Se fosse meu parente, ou um dos meus amigos, eu estaria pronto a tentar, mas não vou fazer uma coisa dessas por um estranho. Não que não queira ajudá-lo, mas, a esse custo...
-- É claro! Você está certo -- disse Thierry. -- Ajudar todo mundo quer, mas o risco é muito grande. É como nas revoluções: todos dizem querer a liberdade para o Povo Alto, mas, na hora de pegar em armas, só meia dúzia de gatos pingados é que tem coragem.
-- É que essas não são as armas certas -- disse alguém, falando através de uma fresta da porta.
Surpresos, pois não tínhamos ouvido barulho algum, olhamos na direção da voz, e demos com o rosto plácido e bem barbeado do cego Omar. Com sua bengala, ele afastou a porta até abri-la pela metade, e, voltando-se para nós como se nos enxergasse, declarou, no mesmo tom cadenciado que usava nas histórias:
-- Que cesse a alegria, jovens nobres, neste momento de revolta! Que não haja música, nem contos, nem espetáculos! Às dez horas da manhã, todos à praça, e que o silêncio seja o protesto do artista!
Sem esperar qualquer resposta, afastou-se, indo bater na casa ao lado, onde fez soar a mesma cantilena. Enquanto isso, nós nos entreolhávamos em silêncio, não porque não tivéssemos nada a dizer, mas porque todos fôramos tocados por aquelas palavras. Que cesse a alegria, tinha dito Omar. Talvez fosse essa a única forma de revolta ao nosso alcance.

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Parte 1
Parte 8

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sábado, 8 de abril de 2017

Além de Agora : um conto de Cyprien de Pwilrie (Parte 8)



-- Tina -- chamei, timidamente, ao empurrar a porta. -- Desculpe a confusão, é que Mandol...
-- Ah! Esqueça isso! -- Alvoroçada, ela correu ao meu encontro, fitou-me com os olhos cheios de um novo brilho. -- Quando eu estava voltando, encontrei Rowenna, que vinha justamente à sua procura. Ela pediu que você fosse lá, não adiantou muito da conversa, mas confirmou que era a respeito de Édobec. Pode entender, Cyprien? Amanhã, você vai ajudar um dos nossos a resistir a eles! Não é maravilhoso?
-- Se é -- suspirei. -- Pode deixar, eu vou amanhã bem cedo à casa de Rowenna.
-- Amanhã? Mas ela pediu que fosse ainda hoje!
-- Eu sei, Tina. Acontece que estou cansado, muito cansado de fazer o trabalho sujo de todo mundo. É verdade! -- acrescentei, vendo-a franzir o cenho. -- Você viu o que Mandol acabou de me arranjar? E agora é Rowenna, que passa o dia inteiro fora, e depois quer que eu apareça quando ela estala os dedos. Eu não posso continuar permitindo que se metam na minha vida!
-- Mas, Cyprien... São coisas muito diferentes -- ponderou Tina. -- Eu também não acho certo o que Mandol fez, nem tanto pelo que pediu, mas por ter entrado aqui daquela maneira. Mas Rowenna!
-- Sim, ela mesma - falei, e não pude evitar o desabafo. -- Você não faz ideia das coisas que ela já me pediu, e de tudo que fiz para ela, mesmo depois de desistir do aprendizado. E agora me pergunto por que sou sempre eu... Por que devo ser eu, entre tantas pessoas mais próximas dele, a arriscar o meu pescoço por esse Édobec.
-- Cyprien! - exclamou Tina, em tom chocado. -- Como é que você pode dizer isso?
-- Isso o quê? Não estou certo em prezar minha própria pele?
-- Em outra situação, é claro que estaria. -- Recuou, olhando-me com franca desaprovação. -- Agora, num caso como o de Édobec, não acredito no que acabo de ouvir! Você não quer ajudar aquele pobre velho? Prefere ficar aí, de braços cruzados, enquanto lhe arrebentam as costas com o chicote?
-- A poção não impediria isso. Segundo Aymon, ela só iria diminuir a dor, e não sei se estou disposto a me arriscar por tão pouco. Até porque, como você viu, não fico exatamente de braços cruzados -- acrescentei, sem resistir a um pouco de ironia. -- Pelo que houve esta noite, você deve ter percebido que sou um homem com muitas habilidades.
-- Ah, é? -- rebateu ela, no mesmo tom. -- Pois saiba de uma coisa. Seja lá que habilidades forem, eu não quero conhecer mais nenhuma. Para mim, chega!
E, sem me dar sequer a oportunidade de responder, correu para a porta, que se fechou com estrondo, a apenas uma polegada do meu nariz. Fiquei meio aturdido, mas mesmo assim reagi, seguindo-a por uma boa distância enquanto pedia que me escutasse. Finalmente, como ela não se voltasse nem uma vez, apertei o passo, alcançando-a pouco antes de chegar à fonte -- e então fui eu que tive de recuar, diante da raiva que vi brilhar nos olhos de Tina.
-- Vá embora -- disse ela, por entre dentes. -- Não quero ouvir mais nada de você.
-- Tina, por favor, deixe-me explicar...
-- Explicar? Mas explicar o quê? Não há nada que explique o fato de você não querer ajudar Édobec!
-- Eu não disse que não queria -- repliquei, voltando à defensiva. -- Só perguntei se iria valer a pena. Acha que, por medir os riscos que corro, estou sendo covarde?
-- Oh, não! Isso você não é. -- Com as mãos na cintura, ela me encarou, olhando-me dentro dos olhos antes de me fulminar. -- Você é, isso sim, um grande egoísta! E ainda por cima um farsante, querendo fazer crer que se importa com alguma coisa além do seu próprio umbigo. Pois pode ficar à vontade! Fique aí, com sua acrobacia e seus camaradas. Comigo é que não mais!
Recolheu a saia e subiu a rua quase correndo, enquanto, incapaz de dizer fosse o que fosse, eu a fitava com um misto de raiva e amargura. Em meus ouvidos, o eco de suas palavras soava como um sino, e cada badalada me atingia mais forte a caixa do peito. Naquele momento, não importava que Tina houvesse sido injusta e que a indignação a tivesse feito ir longe demais. Não importava se ambos sabíamos que eu não era um egoísta. Eu estava ferido demais para falar em minha própria defesa.
Sob a lua alta, voltei para casa, tropeçando, aqui e ali, com as sandálias que não prendera aos calcanhares. Peguei a maior caneca que encontrei e a enchi de vinho, disposto a me embriagar, a me esquecer de tudo sobre as mesmas almofadas onde me deitara com Tina. Infelizmente, algo me dizia que não ia conseguir ficar bêbado. Eu nunca fico, mesmo que dê conta de todo um barril. Essa é mais uma das bênçãos ou maldições que carrego comigo.
Não sei quanto tempo fiquei sentado ali, no escuro, pensando em Tina e nas palavras que ela usara para me ferir. Tudo que sei é que vi a lua entrar e sair da fresta da janela, e percebi quando Pippo e Ariela regressaram da cidade. Ouvi suas vozes se alterarem, durante um momento, depois de uma frase de Mandol que soou como uma queixa. Provavelmente era de mim que ele falava, da incompreensão e da má vontade que eu tivera para com o meu velho mestre. Em suma, além de egoísta, eles deviam achar que eu era também um terrível ingrato.
-- Kip? Está acordado?
Inesperada, a voz de Rowenna me fez estremecer, e eu olhei como que aturdido para a figura que acabara de entrar. Ela fechou a porta sem ruído, deslizou para as almofadas, sorrindo ao ver a caneca que eu segurava entre as mãos. Já não havia nenhum vestígio do vinho, nem nela, nem em mim.
-- Não adianta - disse Rowenna. -- Você nunca vai ficar bêbado, por mais que use a caneca de Gontran. É melhor encontrar outra forma de esquecer o que aconteceu.
-- Hmm. Como foi que você soube? Leu na fumaça?
-- É claro que não -- retrucou ela, sem se ofender. -- Eu ouvi quando Tina bateu a porta, e quando você correu atrás; e, depois, vi você voltando sozinho, todo cabisbaixo, como se houvesse escutado o que não queria. E então fiquei esperando que fosse à minha casa, mas você não apareceu. Daí...
-- Você veio me buscar -- completei, em tom cortante. Rowenna me observou por alguns momentos, depois sorriu, como se houvesse chegado a uma conclusão. Não existe nenhum mistério que não se revele para essa mulher.
Principalmente os da alma.
-- Foi por isso que vocês brigaram. -- Assenti, porque negar teria sido inútil. -- Tina estava muito entusiasmada com a ideia de fazer alguma coisa por Édobec. Assim, ela deve ter lhe falado a respeito, e você deve ter dito que não o faria. Foi isso?
-- Mais ou menos -- admiti, com os lábios apertados. -- Eu disse que falaria com você, de qualquer forma, amanhã de manhã. Mas eu não disse que não queria ajudar o velho. Só disse que não sabia se estava disposto a correr os riscos.
-- Entendo -- replicou Rowenna. -- E devo dizer que você faz bem em se questionar. Os riscos são grandes, de fato, se for apanhado; e não só para você, mas para todos aqui no Labirinto. Até mesmo por isso, decidi que não tentaríamos tirá-lo do patíbulo sem que recebesse as chicotadas. Se isso acontecesse, saberiam que fomos nós, e nossas casas seriam invadidas, mais pessoas seriam presas. Você sabe que eles não poupam nem as crianças.
-- Sei. Tenho algumas cicatrizes para me lembrar disso.
-- E, no entanto, Kip – tornou ela --, se não ajudarmos esse homem, não acredito que ele resista a tamanho castigo. Não pela dor, que ele sentirá de qualquer jeito mais tarde, mas pelo choque, pela violência. Compreende o que estou dizendo?
-- É claro. -- De repente, as coisas começavam a fazer sentido. -- Ele pode morrer, por isso você quer que eu lhe dê a poção. Você não me pediria isso se o condenado fosse um homem mais forte.
-- Talvez, dependendo do homem. Mas felizmente nunca houve ocasião.
-- Felizmente -- repeti, olhando-a nos olhos. No mesmo instante, ela franziu as sobrancelhas, mudou de posição a fim de me ver melhor. Não fora preciso mais que um relance para saber que havia algo errado.
-- Kip -- começou, mas eu pousei os dedos sobre seus lábios.
-- Por favor, não me chame de Kip. Meu nome é Cyprien.
-- É mesmo? -- fez ela, levemente divertida. -- Bem, posso tentar, mas vai ser difícil mudar agora. Para mim, você sempre vai ser Kip -- aquele garotinho que eu vi nascer, que sobreviveu àquele triste começo de vida, e que cresceu para ser mais do que todos esperavam. Só que agora ele parece meio confuso... Por que será?
-- Não sei -- disse eu, secamente. -- Procure descobrir por mim.
-- Ah! Mas assim vou demorar muito -- suspirou Rowenna. -- Está bem, vou tentar chegar lá. Você pode estar irritado por causa do que aconteceu com Mandol -- não faça essa cara, foi Tina quem me contou, e você teve toda razão em se aborrecer --, e você pode estar magoado com o que ouviu da própria Tina, que não sei exatamente o que foi, mas deve ter sido muito sério. Mas entre uma coisa e outra você estava com dúvidas sobre ajudar Édobec. E isso não foi por causa da história da fralda... Foi?
-- Bom... Um pouco, talvez - murmurei. -- Mas acho que isso foi apenas a gota d’água. Eu já estava irritado bem antes... Me perguntando, você sabe, por que estou sempre tendo que fazer as coisas pelas outras pessoas. E antes que você pergunte -- acrescentei, tentando não desviar os olhos --, eu pensei, sim, na razão pela qual teria que ser eu a dar a poção ao Édobec. Por que não há de ser o filho ou o genro dele? Por que é que eu, que mal o conheço, vou me arriscar a também ser preso e chicoteado?
-- Porque eu confio em você. -- Na escuridão, os olhos dela brilharam, e sua mão apertou a minha em sinal de pacto. -- Eu confiei em você desde o princípio, e o mesmo já começa a acontecer com o restante do Labirinto. Nem sempre isso vai ser agradável -- prosseguiu, em tom sincero --, mas não há como escapar, a menos que você se furte à responsabilidade. E eu sei que lá no fundo não é isso que você quer.
-- Talvez - disse eu, respirando fundo. -- Mas também não quero ser responsável no lugar dos outros.
-- E não será, desde que saiba como e quando conseguir ajuda. Mas, ainda assim, na maior parte das vezes, você terá que assumir a liderança. Eu sei que parece duro -- acrescentou --, mas, como eu lhe disse desde o início, a vida não exige de nós senão aquilo que estamos preparados para dar. E você pode dar muito, Kip. Não só por esse homem, mas por todo o Povo Alto.
Olhou-me, esperando que eu retrucasse, mas não fiz mais do que encolher os ombros. Eu já ouvira aquelas palavras vezes demais para pensar em questioná-las. Já ouvira muitas vezes que viria a ser um líder. E tudo que me perguntava era se isso me levaria a algum lugar.
-- Rowenna -- murmurei, depois de alguns momentos. -- Eu acho que você vai ter que procurar outra pessoa para essa tarefa. Não é que eu não queira ajudar Édobec, mas não estou pronto para me envolver com isso. Um dia, pode ser que eu venha a ser um líder, como você diz, e então vou me dispor a correr todos os riscos. Mas agora...
-- Agora, agora, é tudo que as pessoas pensam -- disse Rowenna, com uma brusquidão que me surpreendeu. -- Ninguém sabe viver o momento presente sem esquecer que ele é parte de um todo, de que existe muita coisa além desse simples agora. Mas não vou me demorar mais -- concluiu, já se levantando para sair. -- Não importa o que eu diga, é a você que cabe a decisão. Só quero que saiba que vou estar lá, à décima hora, com a poção pronta para ser usada. Não é preciso mais do que me procurar se mudar de ideia.

Dizendo isso, voltou as costas e saiu, sem nada da sutileza que usara ao entrar. No instante seguinte, ouvi cantar um galo, enquanto o retalho de céu em minha janela passava da escuridão a uma profunda tonalidade de azul. 

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Parte 1
Parte 7

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