quarta-feira, 1 de março de 2017

Além de Agora : um conto de Cyprien de Pwilrie (Parte 1)

Rrrrrrespeitável Público,
Hoje começo a postar uma novela estrelada pelo jovem Cyprien de Pwilrie.
Espero que gostem!



Além de Agora



Perguntam pelo mundo
olhos de antepassados:
querem, em mim, suas mãos
o inconseguido (...) 
Vive! - clamam os que se foram,
ou cedo ou irrealizados.
Vive por nós! - murmuram suplicantes.
                            (Cecília Meireles)

-- A minha bolsa! Ladrão! Pega ladrão!
A praça se ergueu em polvorosa com o grito do mercador. Cem passos adiante, voltei-me para trás, divertindo-me com a confusão em torno dele. Nem bem um instante se passara e já o círculo estava fechado, para desespero do homem, que se esgoelava pedindo que lhe abrissem caminho. Gritos inúteis: estávamos na cidade dos curiosos. Nem que quisesse ele poderia correr atrás do tal ladrão.
Atravessei com calma a rua que separa as praças do templo e do mercado. Aymon já estava lá, no lugar de sempre, dispondo seus apetrechos sobre o surrado tapete de acrobata. Eram apenas nove da manhã, cedo demais para um espetáculo, mas o público teria sido ainda menor sob o sol do meio-dia. O calor persistiria durante todo o verão, e eu me sentia tolo ao me lembrar disso. Eu deveria ter ido para o Norte quando me convidaram.
-- Oi, Cyprien! Que tal está hoje? -- saudou Aymon, já como uma forma de chamar a atenção para nós. No mesmo tom exagerado, retribuí, e cobri com saltos e estrelas a distância que ainda nos separava. Vendo isso, algumas pessoas começaram a se interessar, e, enquanto Aymon os encorajava a chegar mais perto, aproveitei para me livrar da minha pesada túnica de quatro cores. Moedas retiniram, espalhadas pelos vários bolsos secretos. Os mercadores deveriam atar melhor os cordões de suas bolsas.
-- Está pronto, camarada? - sussurrou Aymon, que segurava três bolas de madeira em cada mão. Fiz que sim e ele começou a me atirar uma a uma, que eu devolvia com a mesma precisão e cada vez mais rápido. Então, quando uma boa quantidade de gente já olhava fascinada para aquele arco-íris, soltamos as bolas, entrando no segundo número do nosso espetáculo. Foram sete ao todo, entre acrobacia e malabarismo. Por fim, coloquei uma tábua sobre um barril vazio, saltei para cima dela e pus-me a tocar rabeca, naquele equilíbrio precário, enquanto Aymon passava o chapéu entre os espectadores. A maioria ficou até o fim e a coleta foi mais que razoável, mas, como sempre, eu não tinha ficado satisfeito. Não havia mérito algum em repetir aqueles números, nem mesmo os mais difíceis, fossem quais fossem as variações. Eu precisava encontrar alguma coisa que me devolvesse o antigo entusiasmo.
-- Palavra, Cyprien, não sei do que você reclama -- disse Aymon, recolhendo sua parafernália. -- A féria foi excelente, levando em conta a hora e o calor. E os números saíram perfeitos. A gente não poderia ter feito melhor do que fez.
-- Eu sei, meu amigo. Mas não é essa a razão. -- Suspirei, sabendo de antemão que ele não ia compreender. -- Acontece que estamos nisso há anos, desde pequenos, e eu gostaria de tentar algo diferente.
-- O quê? Uma nova arte? Não chegam as suas três?
-- Não sei se poderia ser uma nova arte -- respondi, embora talvez ele estivesse certo. -- Mas eu queria fazer alguma coisa que ninguém mais soubesse fazer.
-- Ah, mas você pode! -- exclamou Aymon, com a expressão iluminada. -- Você pode muito bem ser o primeiro a manter dez bolas no ar. Thespio já disse várias vezes que está perto: só um pouco mais de treino, e você consegue! Não vai ser ótimo se os mestres o reconhecerem como o melhor malabarista de Pwilrie?
Assenti, sem querer ir mais longe naquele assunto. Na minha opinião, o público não iria nem notar se eu usasse mais uma bola, mas Aymon estava convencido do contrário. Eu não queria fazer pouco de algo que meu amigo achava tão importante.
-- E agora, onde vai? -- perguntou ele, suspendendo a bolsa onde levava os apetrechos. Respondi que voltaria à Praça do Templo, e, como Aymon também fosse até lá, aproveitei para lhe contar o caso do mercador. Ele riu um bocado, principalmente quando lhe mostrei o homem. Depois de quase uma hora, ele ainda não conseguira se livrar dos curiosos. Esse é o tipo de coisa que só acontece em Pwilrie.
Depois de me lembrar do encontro da tarde -- tínhamos prometido ajudar Thespio com os aprendizes --, Aymon seguiu seu caminho, enquanto eu ia me reunir ao público do cego Omar. Recentemente ele começara a contar histórias, e eu ia ouvi-lo sempre que podia. Omar não era um grande narrador, mas sabia prender a atenção, e o melhor é que seus contos sempre se passavam no tempo dos Reis.  Os heróis eram todos do Povo Alto, o que não impedia o público de aplaudi-los, com o mesmo entusiasmo usado para insultar os seus descendentes. Só mesmo a arte para fazê-los esquecer o ódio que tinham de nós.
-- Em nome de Deus, o visível e oculto, eu lhes trago esta história - começou Omar, à maneira antiga. -- Há muitos anos, quando era nosso rei o bom Munir, vivia em Pwilrie um pobre rapaz, que nada possuía além do ofício de que tirava o seu sustento. Numa noite de verão, porém, ele teve um sonho...
Encostei-me a uma parede, prestando atenção ao conto, mas sem deixar de observar as pessoas que se agrupavam à volta do cego. Gente do povo, na maioria, e vários estudantes, além do bando de crianças que sempre aparece quando alguém conta histórias. Aqui e ali, um chapéu elegante ou uma túnica bordada revelava a fortuna de seus donos, que, no entanto, não precisavam temer por suas bolsas naquele momento. Eu nunca tiro nada de quem esteja assistindo a um espetáculo.
-- Esse rapaz, meus amigos, era novo e forte -- dizia agora a voz do cego Omar. -- Havia muito tempo ele era só no mundo, e não tinha obrigações que o prendessem. Então, convencido de que só no estrangeiro encontraria sua boa fortuna, ele resolveu...
-- Proclamação! Proclamação! -- ouvi gritarem, de repente, às minhas costas.
Pego de surpresa, Omar se deteve, com a mão no ar e uma expressão de desamparo, enquanto boa parte do público debandava para ir ter com os arautos. Essa gente ainda não aprendeu que eles só sabem trazer más notícias.
-- Ouçam-me todos, cidadãos de Pwilrie! -- gritou o arauto-chefe, desenrolando um pergaminho. -- Em nome do Prefeito e dos Conselheiros, faço saber que, no terceiro dia da sétima lua, à décima hora da manhã, Édobec, morador do Labirinto, sem profissão, será levado ao patíbulo da Praça do Conselho, onde receberá cinquenta chicotadas pelo crime de roubo; e que o dito Édobec, tendo já cumprido um ano de prisão, será solto à segunda hora da tarde do mesmo dia, devendo até lá permanecer atado ao patíbulo, como exemplo para todos os que sentem inclinação para o mesmo caminho. E tendo assim deliberado, seguem o selo e a assinatura do Prefeito, e mais as de três Conselheiros. Em Pwilrie, no segundo dia da sétima lua do ano de 792.
Ergueu o pergaminho, exibindo-o diante dos olhos das pessoas mais próximas. Um murmúrio correu pela multidão, alguns aprovando, outros achando o castigo duro demais, ainda que fosse para um membro do Povo Alto. Afinal, Édobec não tinha assaltado, não tinha invadido a casa de pessoas decentes nem tocado a filha ou a mulher de algum cidadão. Não era preciso fazê-lo pagar em sangue o preço do que roubara.
Voltei as costas, aturdido, mas antes de tudo revoltado com o que acabara de ouvir. Mais uma vez um homem do meu povo fora condenado sem julgamento e recebera uma pena absurda, que nunca teria sido imposta a um cidadão de Pwilrie. E ai de nós se tentássemos intervir ou simplesmente protestar em praça pública. Após a Reconquista, nosso único direito era o de viver como escória na cidade que fora nossa por tantas gerações.
Entre murmúrios e protestos velados, os arautos partiram, e logo a multidão também se dispersava. Alguns ainda se voltaram para Omar, esperando talvez o fim da história, mas desistiram diante da tristeza dos olhos cegos. Suas mãos, por uma vez esquecidas de se estender, pendiam quietas e inúteis sobre os joelhos, e os ombros se haviam curvado sob o peso da realidade. Naquele momento, nem ele próprio poderia ter acreditado em seus heróis.
-- Não se deixe abater, meu velho -- disse eu.
-- Ah, Cyprien. -- Omar respirou fundo, voltou o rosto em direção à minha voz. -- Que triste é ter de escutar uma notícia como essa. Ainda mais quando é alguém como Édobec -- um pobre homem, sempre sem trabalho, sempre em apuros para dar de comer aos filhos. Você sabe o que ele roubou? Um cesto de legumes, que viu na carroça de um camponês. Como pode um juiz dar uma pena dessas a um homem que roubou legumes? É injusto!
-- Também acho -- repliquei. -- Mas eles sempre fazem isso, quando conseguem pôr as mãos em um de nós.
-- Ei, cego! E como acaba a história? -- perguntou um estudante.
Omar sacudiu os ombros, franziu o cenho, como se quisesse dizer que acabava mal. Dei-lhe um tapinha nas costas e me afastei, sentindo em dobro o peso das moedas que levava na túnica.

Eu teria uma sorte bem pior que a de Édobec se fosse apanhado com elas.

(Continua...)

***

Conheça O Jogo do Equilíbrio, novela em que Cyprien já está em outra fase da vida.

Saiba mais sobre o personagem clicando aqui.

2 comentários:

  1. Olá!

    Adorei o conto! Muito bem escrito, foi uma delícia de ler - mesmo sem conhecer tão profundamente o cenário. É uma prosa simples, mas tão carregada de significado. Foi admirável!

    Eu preciso da continuação. haha

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    Respostas
    1. Oi! Que bom que gostou. O conto continua semana que vem. Ele já está todo escrito e é bastante longo, espero que continue a acompanhar. Muito obrigada.

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