sábado, 11 de março de 2017

Além de Agora: um conto de Cyprien de Pwilrie (Parte 3)



Duas horas mais tarde, o mestre finalmente se deu por satisfeito, e nós lhe prestamos um último favor levando as crianças à fonte. Os dois ainda eram pequenos o bastante para tomar banho em público, mas, naturalmente, também para brincar com a água, por isso Aymon e eu acabamos nos molhando um bocado. Quando voltamos, havia um lanche à nossa espera, preparado pela mulher de Thespio -- e foi assim, entre a conversa leve e a boa comida, que acabei por me esquecer completamente de que devia voltar à cidade.
-- Maldição! -- exclamei, assim que me dei conta. -- Até que horas Hubert fica na loja?
-- Até as cinco, acho eu. Por quê? Precisa trocar dinheiro?
-- Preciso, mas parece que vai ter de ficar para amanhã. O que você combinou com Thierry? Eu vou ter que pedir emprestado se formos jantar na taverna.
-- Oh, não! Não há nenhum perigo -- riu Aymon. -- Nós só pensamos em nos reunir na sua casa, como fazemos sempre. Ninguém está com dinheiro para um jantar de verdade.
Assenti, lamentando não ter me lembrado de ir trocar as moedas, mas ao mesmo tempo satisfeito com aquele arranjo. Eu era o único de meu grupo a morar sozinho, por isso as reuniões aconteciam muitas vezes em minha casa; mas, como também sou um camarada de muita sorte, meus amigos passaram a preferir as tavernas pouco depois de eu ter me interessado por Tina. Assim, nunca houvera um pretexto para que ela me visitasse, e muito menos para ficarmos a sós -- o que, eu tinha certeza, seria um momento inesquecível para nós dois.
Preparei-me com todo cuidado para recebê-la. A casa estava limpa, como sempre, mas eu a arrumei melhor, ordenando os poucos móveis da sala e ajeitando almofadas e tapetes. Por medida de precaução -- nunca se sabe quão longe se vai com o primeiro passo -- troquei também os lençóis da cama, e por fim eu mesmo me deixei ficar de molho num banho morno com gotas de calêndula.
Quando acabei, o céu já estava brilhante com as primeiras estrelas, e eu me sentei à porta, aspirando com prazer a brisa fresca da noite. Diante da minha, a casa de Rowenna estava toda apagada, mas a da esquerda tinha luz e movimento, e não tardou muito a que alguém saísse de lá para falar comigo. Foi Pippo, desta vez, para variar. Eles não ficam nem uma hora sem dar o ar da sua presença.
´-- Oi, Cyprien. Ainda está aí? Pensei que tivesse ido para a Cidade Baixa - disse Pippo, com um olhar que era um pedido de explicações. -- Você não tinha um compromisso hoje?
-- Sim, mas vai ser aqui em casa -- repliquei. -- Meus amigos vêm conversar e fazer um pouco de música. Se vocês não forem sair...
-- Ah! Mas a gente vai! -- Riu, parecendo subitamente animado. -- Você nem pode imaginar o que aconteceu. Depois que você foi embora, Ariela voltou a brigar com meu pai, e sabe como terminou? Ela vai comigo às tavernas, como queria, e ele concordou em ficar com o Alfonz! O que você acha disso, Cyprien?
-- Que os tempos mudaram -- disse eu, sem precisar refletir. Jamais, em outra época, Mandol teria aceitado uma coisa daquelas, por mais que amasse o neto, e ainda que quisesse ser útil ao filho e à nora. Para ele, o cuidado das crianças cabia apenas às mulheres, ao menos enquanto não cresciam o suficiente para aprender música. Ariela devia tê-lo infernizado muito para conseguir aquilo.
-- E agora, deixe-me ir, antes que o velho mude de ideia -- tornou Pippo. -- E se quiser forrar o estômago, há sopa lá em casa... Isto é, se já não combinou jantar com seus amigos.
-- Não, mas tenho salsichas e queijo, e eles também sempre trazem alguma coisa. Vai haver muito que mastigar, mesmo sem ser um jantar de verdade.
-- Ah, é? Bom, então está certo. Mas se quiser, já sabe: não faça cerimônia!
-- Obrigado. Tenham uma boa noite, você e Ariela.
-- E o mesmo para você e Tina -- riu Pippo, lançando-me um olhar cúmplice antes de voltar as costas. Olhei-o intensamente enquanto se afastava, um rapaz baixo e forte, com os cabelos muito pretos e um jeito franco e alegre de estar no mundo. De todos os meus amigos, ele era o que mais se assemelhava a um irmão, inclusive pelo fato de nem sempre nos entendermos às mil maravilhas. É sempre assim, quando as pessoas ficam íntimas demais. De qualquer forma, eu gostava muito de Pippo, e aquela conversa me fez sentir culpado por desejar me distanciar de sua família. Eles não eram do meu sangue, sequer pertenciam ao Povo Alto, mas tinham me dado apoio no momento em que eu mais precisava. Eu podia muito bem tolerar um pouco de intromissão em nome dos velhos tempos.
Instantes depois, ouvi que me chamavam do alto da rua, mas nem precisei olhar para saber de quem se tratava. Toda Pwilrie conhecia a voz de Thierry, embora poucos reconhecessem nele o garotinho que cantava canções sacras, à porta dos templos, acompanhado pela cítara de seu tio Olivier. Recentemente, porém, o tio voltara a trabalhar sozinho, e Thierry percorria as tavernas com os camaradas e com Nayla. Não é preciso dizer que os hinos sacros ficaram para trás.
-- E então? Esperando os convidados ou tomando a fresca? -- riu Thierry. -- Não me olhe assim, eu não trouxe nada, mas Nayla vem vindo aí com tortas e vinho. E enquanto ela não chega -- acrescentou, baixando a voz --, deixe-me fazer uma proposta. Eu tenho um encontro à meia-noite, na Cidade Baixa, e a coisa parece promissora; mas, como é a primeira vez que saímos, ela disse que vai chamar a irmã, e por isso eu também tenho que levar um camarada. Você não quer ir? Não conheço a moça, mas Agnès garantiu que é muito bonita.
-- Certo, mas desta vez declino da honra -- disse eu. -- Esta noite é de Tina e de ninguém mais. E por falar nisso, onde fica Nayla nessa história? Como você vai agir sem ela saber?
-- Ah! Eu já planejei tudo -- disse ele, com ar orgulhoso. -- Espere, e verá. Tem certeza de que não quer ir comigo? Posso chamar o Aymon, mas, sem querer elogiar, essas coisas são muito mais divertidas quando vamos nós dois.
-- Sei disso, amigo. Mas esta noite, realmente, prefiro não ir. Você sabe, há mais de uma lua venho querendo estar a sós com Tina, e hoje vai ser uma ótima oportunidade. Isto é, se ela concordar em ficar, depois que vocês todos tiverem ido embora.
-- E por que não iria? Ah...! - fez ele, compreendendo no instante seguinte. Assenti, sem precisar dizer mais nada, pois ambos sabíamos o que significava aquele silêncio. Tina não ia apenas decidir se ficaria ou não comigo. Ia decidir se ficaria com um homem pela primeira vez.
-- Deixe conosco, vamos fazer tudo para ajudar -- disse Thierry. -- Olhe só, Nayla e Cassius já vêm subindo a rua, com cara de quem quer ouvir o que estamos dizendo. Posso contar a eles? Sem detalhes, é claro. Só para saberem que devemos deixar o caminho livre.
-- Não é preciso. Eles vão perceber sozinhos.
-- Ah, vão? Bom, eu não respondo pelo Cassius -- replicou Thierry. -- Tonto como é, ele é bem capaz de insistir em acompanhar as moças até em casa. Veja só aquilo! Carregando duas cestas, enquanto Nayla vem leve como uma pluma. Ele deve pensar que vai conquistá-la com esse tipo de coisa. Coitado! Eu sou o único que sabe do que ela gosta.
Lambeu os lábios, olhando para a dupla que se aproximava a passos lentos. Nayla vinha sorrindo desde o início da rua, mas Cassius estava sério, como se as cestas pesassem de verdade sobre seus ombros largos. Ele era o mais alto e forte de nós, mas andava meio curvado, talvez por causa do seu ofício de tecelão. Também sempre fora o mais quieto, inclusive em sua paixão por Nayla, que nunca declarara abertamente embora todos a percebessem. Onde quer que ela fosse, Cassius estava ao seu lado, sem pedir coisa alguma em troca, fiel como um cavaleiro à dama dos seus amores. Na minha opinião, essa tática podia vir a dar certo, mas Thierry não me ouvia, continuava a fazer pouco de Cassius e da própria Nayla. Talvez fosse bem feito se ele acabasse por perdê-la. Só assim daria valor a quem, por mais de um ano, vinha sendo sua companheira nos bons e nos maus momentos.

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Parte 1

Parte 2

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