sábado, 8 de abril de 2017

Além de Agora : um conto de Cyprien de Pwilrie (Parte 8)



-- Tina -- chamei, timidamente, ao empurrar a porta. -- Desculpe a confusão, é que Mandol...
-- Ah! Esqueça isso! -- Alvoroçada, ela correu ao meu encontro, fitou-me com os olhos cheios de um novo brilho. -- Quando eu estava voltando, encontrei Rowenna, que vinha justamente à sua procura. Ela pediu que você fosse lá, não adiantou muito da conversa, mas confirmou que era a respeito de Édobec. Pode entender, Cyprien? Amanhã, você vai ajudar um dos nossos a resistir a eles! Não é maravilhoso?
-- Se é -- suspirei. -- Pode deixar, eu vou amanhã bem cedo à casa de Rowenna.
-- Amanhã? Mas ela pediu que fosse ainda hoje!
-- Eu sei, Tina. Acontece que estou cansado, muito cansado de fazer o trabalho sujo de todo mundo. É verdade! -- acrescentei, vendo-a franzir o cenho. -- Você viu o que Mandol acabou de me arranjar? E agora é Rowenna, que passa o dia inteiro fora, e depois quer que eu apareça quando ela estala os dedos. Eu não posso continuar permitindo que se metam na minha vida!
-- Mas, Cyprien... São coisas muito diferentes -- ponderou Tina. -- Eu também não acho certo o que Mandol fez, nem tanto pelo que pediu, mas por ter entrado aqui daquela maneira. Mas Rowenna!
-- Sim, ela mesma - falei, e não pude evitar o desabafo. -- Você não faz ideia das coisas que ela já me pediu, e de tudo que fiz para ela, mesmo depois de desistir do aprendizado. E agora me pergunto por que sou sempre eu... Por que devo ser eu, entre tantas pessoas mais próximas dele, a arriscar o meu pescoço por esse Édobec.
-- Cyprien! - exclamou Tina, em tom chocado. -- Como é que você pode dizer isso?
-- Isso o quê? Não estou certo em prezar minha própria pele?
-- Em outra situação, é claro que estaria. -- Recuou, olhando-me com franca desaprovação. -- Agora, num caso como o de Édobec, não acredito no que acabo de ouvir! Você não quer ajudar aquele pobre velho? Prefere ficar aí, de braços cruzados, enquanto lhe arrebentam as costas com o chicote?
-- A poção não impediria isso. Segundo Aymon, ela só iria diminuir a dor, e não sei se estou disposto a me arriscar por tão pouco. Até porque, como você viu, não fico exatamente de braços cruzados -- acrescentei, sem resistir a um pouco de ironia. -- Pelo que houve esta noite, você deve ter percebido que sou um homem com muitas habilidades.
-- Ah, é? -- rebateu ela, no mesmo tom. -- Pois saiba de uma coisa. Seja lá que habilidades forem, eu não quero conhecer mais nenhuma. Para mim, chega!
E, sem me dar sequer a oportunidade de responder, correu para a porta, que se fechou com estrondo, a apenas uma polegada do meu nariz. Fiquei meio aturdido, mas mesmo assim reagi, seguindo-a por uma boa distância enquanto pedia que me escutasse. Finalmente, como ela não se voltasse nem uma vez, apertei o passo, alcançando-a pouco antes de chegar à fonte -- e então fui eu que tive de recuar, diante da raiva que vi brilhar nos olhos de Tina.
-- Vá embora -- disse ela, por entre dentes. -- Não quero ouvir mais nada de você.
-- Tina, por favor, deixe-me explicar...
-- Explicar? Mas explicar o quê? Não há nada que explique o fato de você não querer ajudar Édobec!
-- Eu não disse que não queria -- repliquei, voltando à defensiva. -- Só perguntei se iria valer a pena. Acha que, por medir os riscos que corro, estou sendo covarde?
-- Oh, não! Isso você não é. -- Com as mãos na cintura, ela me encarou, olhando-me dentro dos olhos antes de me fulminar. -- Você é, isso sim, um grande egoísta! E ainda por cima um farsante, querendo fazer crer que se importa com alguma coisa além do seu próprio umbigo. Pois pode ficar à vontade! Fique aí, com sua acrobacia e seus camaradas. Comigo é que não mais!
Recolheu a saia e subiu a rua quase correndo, enquanto, incapaz de dizer fosse o que fosse, eu a fitava com um misto de raiva e amargura. Em meus ouvidos, o eco de suas palavras soava como um sino, e cada badalada me atingia mais forte a caixa do peito. Naquele momento, não importava que Tina houvesse sido injusta e que a indignação a tivesse feito ir longe demais. Não importava se ambos sabíamos que eu não era um egoísta. Eu estava ferido demais para falar em minha própria defesa.
Sob a lua alta, voltei para casa, tropeçando, aqui e ali, com as sandálias que não prendera aos calcanhares. Peguei a maior caneca que encontrei e a enchi de vinho, disposto a me embriagar, a me esquecer de tudo sobre as mesmas almofadas onde me deitara com Tina. Infelizmente, algo me dizia que não ia conseguir ficar bêbado. Eu nunca fico, mesmo que dê conta de todo um barril. Essa é mais uma das bênçãos ou maldições que carrego comigo.
Não sei quanto tempo fiquei sentado ali, no escuro, pensando em Tina e nas palavras que ela usara para me ferir. Tudo que sei é que vi a lua entrar e sair da fresta da janela, e percebi quando Pippo e Ariela regressaram da cidade. Ouvi suas vozes se alterarem, durante um momento, depois de uma frase de Mandol que soou como uma queixa. Provavelmente era de mim que ele falava, da incompreensão e da má vontade que eu tivera para com o meu velho mestre. Em suma, além de egoísta, eles deviam achar que eu era também um terrível ingrato.
-- Kip? Está acordado?
Inesperada, a voz de Rowenna me fez estremecer, e eu olhei como que aturdido para a figura que acabara de entrar. Ela fechou a porta sem ruído, deslizou para as almofadas, sorrindo ao ver a caneca que eu segurava entre as mãos. Já não havia nenhum vestígio do vinho, nem nela, nem em mim.
-- Não adianta - disse Rowenna. -- Você nunca vai ficar bêbado, por mais que use a caneca de Gontran. É melhor encontrar outra forma de esquecer o que aconteceu.
-- Hmm. Como foi que você soube? Leu na fumaça?
-- É claro que não -- retrucou ela, sem se ofender. -- Eu ouvi quando Tina bateu a porta, e quando você correu atrás; e, depois, vi você voltando sozinho, todo cabisbaixo, como se houvesse escutado o que não queria. E então fiquei esperando que fosse à minha casa, mas você não apareceu. Daí...
-- Você veio me buscar -- completei, em tom cortante. Rowenna me observou por alguns momentos, depois sorriu, como se houvesse chegado a uma conclusão. Não existe nenhum mistério que não se revele para essa mulher.
Principalmente os da alma.
-- Foi por isso que vocês brigaram. -- Assenti, porque negar teria sido inútil. -- Tina estava muito entusiasmada com a ideia de fazer alguma coisa por Édobec. Assim, ela deve ter lhe falado a respeito, e você deve ter dito que não o faria. Foi isso?
-- Mais ou menos -- admiti, com os lábios apertados. -- Eu disse que falaria com você, de qualquer forma, amanhã de manhã. Mas eu não disse que não queria ajudar o velho. Só disse que não sabia se estava disposto a correr os riscos.
-- Entendo -- replicou Rowenna. -- E devo dizer que você faz bem em se questionar. Os riscos são grandes, de fato, se for apanhado; e não só para você, mas para todos aqui no Labirinto. Até mesmo por isso, decidi que não tentaríamos tirá-lo do patíbulo sem que recebesse as chicotadas. Se isso acontecesse, saberiam que fomos nós, e nossas casas seriam invadidas, mais pessoas seriam presas. Você sabe que eles não poupam nem as crianças.
-- Sei. Tenho algumas cicatrizes para me lembrar disso.
-- E, no entanto, Kip – tornou ela --, se não ajudarmos esse homem, não acredito que ele resista a tamanho castigo. Não pela dor, que ele sentirá de qualquer jeito mais tarde, mas pelo choque, pela violência. Compreende o que estou dizendo?
-- É claro. -- De repente, as coisas começavam a fazer sentido. -- Ele pode morrer, por isso você quer que eu lhe dê a poção. Você não me pediria isso se o condenado fosse um homem mais forte.
-- Talvez, dependendo do homem. Mas felizmente nunca houve ocasião.
-- Felizmente -- repeti, olhando-a nos olhos. No mesmo instante, ela franziu as sobrancelhas, mudou de posição a fim de me ver melhor. Não fora preciso mais que um relance para saber que havia algo errado.
-- Kip -- começou, mas eu pousei os dedos sobre seus lábios.
-- Por favor, não me chame de Kip. Meu nome é Cyprien.
-- É mesmo? -- fez ela, levemente divertida. -- Bem, posso tentar, mas vai ser difícil mudar agora. Para mim, você sempre vai ser Kip -- aquele garotinho que eu vi nascer, que sobreviveu àquele triste começo de vida, e que cresceu para ser mais do que todos esperavam. Só que agora ele parece meio confuso... Por que será?
-- Não sei -- disse eu, secamente. -- Procure descobrir por mim.
-- Ah! Mas assim vou demorar muito -- suspirou Rowenna. -- Está bem, vou tentar chegar lá. Você pode estar irritado por causa do que aconteceu com Mandol -- não faça essa cara, foi Tina quem me contou, e você teve toda razão em se aborrecer --, e você pode estar magoado com o que ouviu da própria Tina, que não sei exatamente o que foi, mas deve ter sido muito sério. Mas entre uma coisa e outra você estava com dúvidas sobre ajudar Édobec. E isso não foi por causa da história da fralda... Foi?
-- Bom... Um pouco, talvez - murmurei. -- Mas acho que isso foi apenas a gota d’água. Eu já estava irritado bem antes... Me perguntando, você sabe, por que estou sempre tendo que fazer as coisas pelas outras pessoas. E antes que você pergunte -- acrescentei, tentando não desviar os olhos --, eu pensei, sim, na razão pela qual teria que ser eu a dar a poção ao Édobec. Por que não há de ser o filho ou o genro dele? Por que é que eu, que mal o conheço, vou me arriscar a também ser preso e chicoteado?
-- Porque eu confio em você. -- Na escuridão, os olhos dela brilharam, e sua mão apertou a minha em sinal de pacto. -- Eu confiei em você desde o princípio, e o mesmo já começa a acontecer com o restante do Labirinto. Nem sempre isso vai ser agradável -- prosseguiu, em tom sincero --, mas não há como escapar, a menos que você se furte à responsabilidade. E eu sei que lá no fundo não é isso que você quer.
-- Talvez - disse eu, respirando fundo. -- Mas também não quero ser responsável no lugar dos outros.
-- E não será, desde que saiba como e quando conseguir ajuda. Mas, ainda assim, na maior parte das vezes, você terá que assumir a liderança. Eu sei que parece duro -- acrescentou --, mas, como eu lhe disse desde o início, a vida não exige de nós senão aquilo que estamos preparados para dar. E você pode dar muito, Kip. Não só por esse homem, mas por todo o Povo Alto.
Olhou-me, esperando que eu retrucasse, mas não fiz mais do que encolher os ombros. Eu já ouvira aquelas palavras vezes demais para pensar em questioná-las. Já ouvira muitas vezes que viria a ser um líder. E tudo que me perguntava era se isso me levaria a algum lugar.
-- Rowenna -- murmurei, depois de alguns momentos. -- Eu acho que você vai ter que procurar outra pessoa para essa tarefa. Não é que eu não queira ajudar Édobec, mas não estou pronto para me envolver com isso. Um dia, pode ser que eu venha a ser um líder, como você diz, e então vou me dispor a correr todos os riscos. Mas agora...
-- Agora, agora, é tudo que as pessoas pensam -- disse Rowenna, com uma brusquidão que me surpreendeu. -- Ninguém sabe viver o momento presente sem esquecer que ele é parte de um todo, de que existe muita coisa além desse simples agora. Mas não vou me demorar mais -- concluiu, já se levantando para sair. -- Não importa o que eu diga, é a você que cabe a decisão. Só quero que saiba que vou estar lá, à décima hora, com a poção pronta para ser usada. Não é preciso mais do que me procurar se mudar de ideia.

Dizendo isso, voltou as costas e saiu, sem nada da sutileza que usara ao entrar. No instante seguinte, ouvi cantar um galo, enquanto o retalho de céu em minha janela passava da escuridão a uma profunda tonalidade de azul. 

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Parte 1
Parte 7

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