sexta-feira, 5 de maio de 2017

Além de Agora : um conto de Cyprien de Pwilrie (Parte 13)



-- Então -- começou Tina, respirando fundo --, você veio me procurar. Quem lhe disse que eu estava aqui? Rowenna?
-- Não, foi Sanson que viu você, num momento em que passava entre dois lençóis. Mas por que teria sido Rowenna? -- perguntei, e meu tom incisivo a fez hesitar por alguns instantes. Prevendo a tempestade, meus amigos se mantiveram prudentemente a distância, enquanto Tina e eu nos enfrentávamos, olhos nos olhos, ambos com os braços cruzados e o cenho franzido. Agora, eu também tinha razão para olhá-la daquele jeito, e até para esperar que me desse explicações. Por que, com tanta gente na praça, ela falara justamente em Rowenna?
-- Eu estive com ela antes de vir para cá -- disse Tina, por fim, de má vontade. -- Perguntei se vocês haviam começado, e se você tinha mudado de ideia quanto ao Édobec. Ela disse que não sabia, mas achava que não; e então eu me ofereci para ir no seu lugar. Foi isso mesmo! -- afirmou, vendo que eu a fitava com olhos de alarme. -- Eu disse que poderia dar a poção. Disse que conseguiria. Só que Rowenna... Infelizmente... Ainda preferiu esperar que você fizesse alguma coisa. E pelo jeito você nem se dignou a pensar no assunto.
Calou-se, esperando certamente que eu retrucasse, mas demorei a encontrar o que dizer. Na verdade, eu não pesara os prós e os contras durante muito tempo. Apenas soubera que não ia arriscar a pele por Édobec; e jamais teria imaginado que Tina se dispusesse a fazer isso. Ainda assim, e ainda que ela me olhasse de cima, não me senti envergonhado, pois a própria recusa de Rowenna já contava como um ponto a meu favor. Ninguém mais seria hábil o suficiente para se esgueirar junto ao patíbulo. Onde eu apenas corria riscos, Tina podia ter como certa uma sentença de prisão.
-- Rowenna não poderia mesmo aceitar -- disse eu, olhando-a de esguelha. -- Se eu tenho poucas chances, você tem ainda menos, e sabe disso muito bem. Um dia, quando a revolta passar, você vai me dar razão; e garanto que vai se sentir aliviada por nenhum de nós dois ter se envolvido nessa história.
-- É mesmo? E quem disse que eu não ia? -- Arrebatada, ela me puxou pela mão, fez com que eu me voltasse para um canto do cômodo. -- Ali está a forma como vou me envolver. Ali, bem ali, está vendo?
-- Tina -- murmurei, cautelosamente --, o que eu estou vendo é um monte de pedras.
-- Sim, e daí?
-- E daí, como? Você não está querendo dizer que...
Calei-me, sem querer acreditar em minha própria suspeita. Que ela quisesse tomar o meu lugar, ainda que soubesse as consequências, não chegava a ser um absurdo, mas atirar pedras era demais. No entanto, a evidência estava diante dos meus olhos, sem contar as palavras de Tina; e, quando compreendi que ela falava a sério, esqueci tudo que aprendera sobre como tratar as mulheres e avancei para segurá-la pelos braços. Pega de surpresa, ela soltou uma exclamação, olhou-me com um misto de espanto e de raiva enquanto procurava se libertar.
-- Cyprien, seu bandido, me largue! – rosnou, tentando se soltar com um safanão. – Pare com isso!
-- Vou parar se você me ouvir – repliquei, e não esperei pela promessa. -- Tina, você não pode -- entendeu? --, não pode atirar pedras na multidão. Isso é muito mais do que se expor a um risco. É uma completa loucura!
-- Os guardas não tardariam a vir prendê-la. -- Esse era outro lado da questão, mas Aymon estava mais do que certo. -- Mesmo com a parte dos fundos meio derrubada, você não teria como escapar, porque eles iriam cercar a casa; e você seria presa e talvez açoitada por fazer uma coisa como essa.
-- Eu sei, mas não posso fazer mais nada -- disse Tina, por entre dentes. -- E, se não tenho como ajudar o prisioneiro, ao menos vou atrapalhar o carrasco. Se eu acertar na cabeça dele...
-- Ah, é? -- retruquei, no mesmo tom. -- E se a sua pontaria falhar, o que você faz? E se você acertar outra pessoa -- Rowenna, o próprio Édobec, ou um pobre coitado qualquer que esteja lá perto por acaso? Tina -- insisti, olhando-a nos olhos. -- Escute, bela, estou falando sério. E se você acertar uma criança?
Falei, e no mesmo instante percebi que havia sido eu a acertar em cheio. Nos olhos de Tina, a raiva se dissolvera com o choque, e agora o que se via neles era algo completamente oposto. Horror de pensar em si mesma ferindo um inocente. Para ela, isso seria muito pior do que atrair os guardas.
-- Oh, Cyprien, eu não... Eu acho que não pensei! -- exclamou, e seu desamparo foi tanto que não resisti a abraçá-la. -- Meu Deus, o que eu ia fazer! O que eu estava a ponto de fazer!
-- Não se sinta culpada -- sussurrei, mas minhas próprias emoções se confundiam diante daquilo. Em meus braços, esquecida da raiva, Tina estava prestes a chorar, e eu a afagava enquanto tentava afastar a ideia louca de ajudar Édobec. Ele merecia isso de mim, nem que fosse apenas por ser o mais inocente de nós dois. Afinal, tinha roubado para comer, enquanto eu pilhava bolsas e me metia em arruaças por pura diversão. O prazer da aventura, dissera eu muitas vezes; e agora minha consciência doía, teimando em repetir que na verdade eu jamais havia me importado em arriscar meu pescoço. Por que, no momento em que tinha nas mãos a sorte de um velho, eu decidira que devia me poupar?
-- Tina, por favor, não fique assim -- pedi, no mesmo instante que cedia à voz dentro de mim. -- Escute, eu... Eu tomei uma decisão. Eu vou fazer o que Rowenna me pediu. Mesmo que me vejam...
-- O quê? Você está louco? -- protestou Thierry. -- Uma garota chora no seu ombro e você resolve bancar o herói?
-- Ele tem razão -- disse Tina, antes que eu pudesse mandá-lo a alguma parte. -- Cyprien, eu não quero que você faça uma coisa dessas por mim. Se quiser mesmo fazê-lo, que seja por Édobec, e não apenas por minha causa.
-- Será por mim mesmo -- tranquilizei-a, e as palavras seguintes vieram espontaneamente. -- Será por todos nós, do Povo Alto.
Ao ouvir isso, Tina me fitou com intensidade, depois me abraçou ainda mais forte, quase como se quisesse me reter ali. Thierry voltou a dizer que eu estava louco, e Aymon abria a boca para falar quando, inesperadamente, ouvimos os passos rápidos de alguém que subia.
No instante seguinte -- fôramos ensinados a fazer isso desde crianças -- toda a divergência entre nós passara a ser assunto para mais tarde, e três adagas faiscaram lado a lado enquanto Tina agarrava uma de suas pedras.
Talvez, afinal, ela tivesse a chance de atirá-las em alguém.

(Continua...)


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Parte 1
Parte 12

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