domingo, 16 de abril de 2017

Além de Agora : um conto de Cyprien de Pwilie (Parte 9)


Fechei os olhos, pensando no que fazer em seguida. O caso de Édobec exigia muita reflexão, e eu tinha toda a manhã pela frente, por isso decidi me concentrar nos problemas imediatos. Sem nem mesmo cogitar em dormir -- de qualquer forma, eu não teria conseguido --, recolhi os restos do lanche que haviam ficado sobre a mesa, lavei a louça e os talheres e fui buscar água na fonte, onde molhei o rosto e os cabelos pela primeira vez naquele dia. Nem bem eram seis horas e já fazia calor. Daquele jeito, talvez não valesse a pena chamar Aymon para um espetáculo.
Reabastecido o barril, o que eu costumava fazer em seguida era comprar leite, para mim e para Ariela, que retribuía lavando a maior parte da minha roupa. Em geral, ela já estava acordada quando eu saía, mas nessa manhã a casa permanecia em silêncio, e eu me afastei sem ter ideia de como estavam os ânimos da família. Provavelmente bem exaltados, depois da noite anterior.
Subi rapidamente as ruas que me separavam do Quintal das Cabras. Àquela hora, as vizinhas mais próximas já deviam ter apanhado o leite, por isso tive uma surpresa ao dar com pelo menos vinte mulheres, jovens e velhas, envolvidas numa discussão tão explosiva que até as cabras se entreolhavam com receio. Mordi os lábios ao ver Renée, a mãe de Tina, vermelha e acalorada, respondendo ao que parecia ser a provocação de outra mulher. Seria possível que a nossa briga houvesse vazado a ponto de criar aquela balbúrdia?
-- Não venha agora me dizer que ele é um bom rapaz -- dizia, em tom estridente, a mulher que discutia com Renée. -- É claro que existem piores, mas só um grande safado faria o que ele fez. E isso quando estão no começo! O que ele não há de aprontar, quando ela estiver mais velha e carregada de filhos?
-- Todos os homens são assim, minha amiga - replicou a outra. -- Até o meu Elias, e Deus é testemunha de que ele era muito bom, andou se metendo com uma ordinária, lá na Cidade Baixa, quando eu estava de barriga grande. Se a gente espera por um que não faça, fica sem nenhum, essa é a verdade.
-- Pois olhe que é preferível - disse a dona das cabras. - Eu é que sei, depois de doze anos com aquele traste!
-- Ah! Mas o seu também era demais - atalhou outra mulher.
-- Com licença, Cybelle. -- Sem poder mais me conter, aproximei-me da mulher de um amigo, que estava um pouco afastada da confusão. -- O que é que está havendo por aqui? De quem elas estão falando?
-- Você não sabe? Do seu querido amigo, Thierry - respondeu ela. - Aquele patife arranjou uma bela desculpa para ir se encontrar com uma vadiazinha na Cidade Baixa. Ah, mas dessa vez ele se deu mal!
-- Cyprien! - chamou Renée, enquanto eu ainda respirava com alívio. -- Venha cá, meu filho. Encha logo seus potes, eu sei que você tem muito que fazer. Nós só estamos jogando conversa fora.
-- Que nada -- atalhou, furiosa, a mãe de Nayla, que até então eu não vira no meio das mulheres. -- Estamos é desabafando, porque não há outra coisa que fazer. Que tristeza, meu Deus. Depois de quase dois anos, enganar a minha filha desse jeito! Logo ela, que fazia tudo por ele, até o deixava ficar com a maior parte do que ganhavam, na época em que o tio andava com aquelas dores!
-- São todos uns ingratos - resmungou uma vizinha.
-- Mas escutem, o que realmente aconteceu? - perguntei, curioso para saber a história completa.
Ajudando-se umas às outras, as mulheres contaram que Nayla encontrara Olivier no caminho de casa, e, percebendo a farsa, fora com Cassius percorrer as tavernas atrás de Thierry. Logo na terceira, lá estavam ele e Aymon com as duas garotas, e Nayla fizera uma cena terrível, em que não faltaram arranhões no rosto e jarras partidas. No fim ela voltara ao Labirinto escoltada por Cassius, enquanto Thierry, como se o flagrante não o houvesse envergonhado, corria atrás das moças, jurando que tudo não passara de um grande engano.
-- E ela chegou num verdadeiro frenesi -- concluiu a mãe. -- Bateu a porta, acordou os irmãos e a mim -- não o pai, que para variar não estava em casa --, gritou e chorou e xingou todos os nomes que sabia. Até fiquei com vergonha, por causa de Cassius. Imagine o que ele não havia de estar pensando!
-- Ele não pensou nada de mal -- assegurei. -- E eu também não pensaria. Afinal, somos todos amigos, sabemos entender quando um de nós fica furioso.
-- É verdade - disse Renée. -- Tina também costuma ficar fora de si quando está zangada. Por sinal, Cyprien, ela chegou um pouco estranha ontem à noite. Vocês não brigaram, não é? Eu perguntei, e ela disse que não, mas hoje também acordou com cara de poucos amigos.
-- É mesmo? Bom, eu também não sei o que foi -- disse eu, dando graças por ela ter sido tão discreta. -- Quem sabe daqui a pouco eu vá até lá e descubra o que há com ela.
-- Seria bom, meu filho -- sorriu Renée.
-- Mas não vai ver o açoitamento? -- perguntou alguém. -- Pelo que ouvi dizer, metade do Labirinto vai estar lá.
-- Sim, e também um bocado de gente da Cidade Baixa -- resmungou a cabreira. -- Eles adoram ver essas coisas. Principalmente quando acontece com um de nós.
A essas palavras, um murmúrio de assentimento se ergueu entre as mulheres, encerrando de uma vez por todas a discussão sobre Thierry. Da minha parte, no entanto, a curiosidade não havia cessado, por isso resolvi ir procurá-lo assim que houvesse me livrado do leite. Com toda certeza, a sua versão dos fatos seria diferente do que eu acabara de ouvir.
O silêncio continuava a reinar absoluto na casa de Ariela. Sem querer perturbá-los, deixei o pote diante da porta, e, depois de guardar o meu, rumei para a casa de encosta onde Thierry vivia com a mãe e o tio. Senti a distância o cheiro de leite fervido e dos ovos que eles comiam todas as manhãs. Pelo jeito, eu chegara a tempo de ser convidado para o desjejum.
-- Ora, ora, mas hoje é mesmo o dia das visitas! -- exclamou Thierry, num tom alegre que desmentia todo o drama da véspera. -- Mais uma caneca, sim, Aymon?
-- Mais um que veio saber da nossa aventura -- disse o acrobata, meneando a cabeça.
-- Pois vim mesmo -- disse eu. -- As mulheres não falavam de outra coisa, quando fui buscar o leite. Pelo que contaram, eu esperava encontrar você com o rosto cheio de arranhões.
-- Que nada! Foi só isso aqui, olhe -- disse Thierry, mostrando duas pequenas linhas vermelhas numa das faces. -- Ela ia continuar, se eu deixasse, mas não sou nenhum imbecil.
-- Só na hora de inventar essas histórias -- disse Olivier, o tio dele, saindo de trás da cortina que dividia os cômodos. -- Sabe o que ele disse a ela? Que eu estava no porto, numa taverna, caindo de bêbado. Nem pensou, o bobalhão, que Nayla podia cruzar comigo pelo caminho.
-- Bem, isso foi mesmo muito azar -- reconheceu Thierry. -- E o pior de tudo foi que, depois daquela confusão, não conseguimos ficar com as garotas. Se bem que eu não estava vendo grande possibilidade... Não é mesmo, camarada?
-- Para você, talvez -- resmungou Aymon. -- A minha já estava começando a amolecer.
-- Que pena - disse Olivier, com ar ferino. -- Vejam se da próxima vez vocês fazem melhor do que embebedar um pobre músico.
-- Ora, tio -- fez Thierry. Olivier deu uma risada e saiu levando a cítara. Aymon me estendeu um prato com ovos e fatias de pão, e, enquanto eu me sentava para comer, Thierry espiava furtivamente atrás da cortina.
-- Minha mãe foi lavar roupa -- anunciou, com um sorriso cúmplice. -- E como o tio saiu, e estamos sozinhos... Vamos lá, Cyprien, conte-nos como foi com Tina, e veja se não esquece nenhum detalhe.
-- Isso mesmo - apoiou Aymon. -- E nada daquele suspense que você costuma fazer. Vá direto ao que interessa: conseguiu ou não?
-- Não -- respondi, e os dois soltaram uma exclamação que soou entre lamento e zombaria. -- Nós não tivemos muito tempo depois que vocês saíram. Primeiro, Mandol me interrompeu quando eu menos esperava, e...
-- Interrompeu? Mas por quê? -- perguntou Aymon, com o cenho franzido. Pigarreei, tentando encontrar uma forma menos inglória de contar o caso. Definitivamente, há perguntas que nunca deveriam ser feitas.
-- Ele me chamou para ver o que havia com o Alfonz -- respondi, por fim, juntando duas histórias diferentes. -- Mandol estava tomando conta dele, e, como o menino estava meio inquieto, o avô pediu que eu desse a minha opinião. Não que eu saiba grande coisa, mas, como fui aprendiz de Rowenna...
-- Ah, sim! Sempre acaba sobrando para você -- riu Thierry. -- E quanto a Tina? Ela resolveu ir embora depois disso?
-- Bom... Não exatamente -- suspirei. - Enquanto eu estava em casa de Mandol, Rowenna chegou não sei de onde, e Tina conversou com ela sobre o caso do Édobec. Depois disso, já não quis mais nada comigo, a não ser que eu prometesse que ia ajudar o homem. E como eu me irritei, e disse que não pretendia arriscar minha pele, ela foi embora furiosa. E foi isso que aconteceu -- concluí, omitindo os detalhes desabonadores.
-- Mas que coisa! -- exclamou Thierry, batendo com as mãos. -- Que noite a de ontem, hem? Nenhum de nós acabou tendo sorte!
-- E a história do Édobec? -- perguntou Aymon. -- Era mesmo o que pensávamos? Rowenna não tem nenhuma forma de proteger você?
-- Não. A ideia é mesmo que eu me esgueire, escondido dos guardas, e faça a tal poção chegar a ele. Mas eu disse a ela que não o faria -- acrescentei, ao que os dois assentiram, com um ar muito sério. -- Se fosse meu parente, ou um dos meus amigos, eu estaria pronto a tentar, mas não vou fazer uma coisa dessas por um estranho. Não que não queira ajudá-lo, mas, a esse custo...
-- É claro! Você está certo -- disse Thierry. -- Ajudar todo mundo quer, mas o risco é muito grande. É como nas revoluções: todos dizem querer a liberdade para o Povo Alto, mas, na hora de pegar em armas, só meia dúzia de gatos pingados é que tem coragem.
-- É que essas não são as armas certas -- disse alguém, falando através de uma fresta da porta.
Surpresos, pois não tínhamos ouvido barulho algum, olhamos na direção da voz, e demos com o rosto plácido e bem barbeado do cego Omar. Com sua bengala, ele afastou a porta até abri-la pela metade, e, voltando-se para nós como se nos enxergasse, declarou, no mesmo tom cadenciado que usava nas histórias:
-- Que cesse a alegria, jovens nobres, neste momento de revolta! Que não haja música, nem contos, nem espetáculos! Às dez horas da manhã, todos à praça, e que o silêncio seja o protesto do artista!
Sem esperar qualquer resposta, afastou-se, indo bater na casa ao lado, onde fez soar a mesma cantilena. Enquanto isso, nós nos entreolhávamos em silêncio, não porque não tivéssemos nada a dizer, mas porque todos fôramos tocados por aquelas palavras. Que cesse a alegria, tinha dito Omar. Talvez fosse essa a única forma de revolta ao nosso alcance.

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Parte 1
Parte 8

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